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Segunda-feira, Julho 4, 2022

“Painéis do Infante Santo”

Guilherme Antunes
Guilherme Antunes
Licenciado em História de Arte | UNL

paineis

 

Defensor que sou da tese de José Saraiva…

“Pela primeira vez o homem moderno define-se antes de mais como indivíduo. O homem moderno nasceu, foi Portugal quem o expressou desde meados do séc. XV” – René Huyghe (sobre os painéis de Nuno Gonçalves).

Esta é a jóia da coroa da pintura portuguesa e um dos mais deslumbrantes trabalhos da pintura de todos os tempos. É a mais importante demonstração pictórica do seu tempo.

O tratamento polémico (ainda hoje perdurável) e secular desta obra-prima da pintura portuguesa e europeia de todos os tempos, tem sido de grande intensidade desde os primórdios da investigação, onde, por vezes, de forma incontrolada, se digladiaram, quase até ao limite, do que é socialmente suportável, homens da mais refinada intelectualidade portuguesa, como José de Figueiredo, Reynaldo dos Santos, Virgílio Correia, Matos Sequeira, José Saraiva, Adriano Gusmão, José de Bragança, Ramalho Ortigão, Afonso Dornelas, Luís Reis-Santos, Alfredo Leal, Júlio Dantas, etc, etc.

Diz a tradição histórica que o santo terá sido um diácono apanhado pelas ferozes perseguições de Deoclesiano. Essa conotação far-se-ia pela dalmática que enverga (um paramento clerical), devendo notar-se, no entanto, a inexistência de uma cruz ou de uma efígie religiosa, pelo que estamos perante uma veste ausente de qualquer figuração simbólica religiosa. Talvez mais defensável pareça ser de ter em conta, que este é um momento muito particular da História portuguesa, em que as relações entre os membros da casa de Avis, depois da tragédia de Alfarrobeira, não eram pacíficas e que existia um emaranhado psicológico de anomalias retratadas na obra de Nuno Gonçalves que possivelmente apontam no sentido de uma grande charada iconografia.

A figura que normalmente chamamos de Infante D. Henrique, não é outro que o seu irmão mais velho, o rei D. Duarte

A uma distância de quinhentos anos e com poucos dados objectivos para uma leitura afirmativa sem óbices, as palavras ganham foro de simples convenção, que são insuficientes para que se tente consolidar qualquer ideia ortodoxa. Mais importante do que o palavreado, por vezes conflituoso, é, neste caso, a assunção do significado possível e pouco contestável; o tríptico temporal indica-nos um comando virtuoso de um príncipe a quem se destina; o tríptico espiritual assinala a atitude piedosa que a deve acompanhar.

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