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João de Sousa

Sábado, Novembro 27, 2021

Carta à minha memória

Filipa Vera Jardim
Mantém o blogue literário “Chez George Sand” onde escreve regularmente.

XV. O cheiro da minha memória.

Minha memória,

Cheira a limão o tempo que eu recordo de mansinho na beira dos meus ideias. A limão e a água lavada, escorrida, translúcida.

Fecho os olhos e o limoeiro da ponta norte do Jardim transporta-me de novo até aquele lugar.

Havia tanto para fazer, tanto para encontrar. As ruas fervilhavam de gente, de ideias, de arte.

Tínhamos acabado de chegar. Muros de lama e de desnorte que nos ensombraram os passos jaziam algures num continente que por ora me desconhecia.

O tempo era de flores e Primavera. De risos, de felicidade, de convívio e de gentes.

A festa fez-se então, pela primeira vez.

Depois cheirou a maresia. Um tempo longo de cheiro a maresia que impregnava tudo. Ondas de iodo agarradas à roupa, às mãos, à pressa de chegar e à pressa de construir.

Onda a onda fez-se quase toda a vida, sem tempo sequer para se poder adormecer um bocadinho os pés na areia. Sem tempo sequer para perceber que ninguém passa de um grão dessa mesma areia por muito que construa, por muito que corra e se transforme em parte de mar ou em braço de rio e ganhe algas na extremidade dos membros e ria com riso de peixe ou riso de pássaro a fugir, sempre a fugir. Como se a vida fosse um galope desconcertado à espera de chegar e à espera de ir, num vaivém de água que transporta, que resiste, que insiste.

O ocaso desse tempo chegou um dia…

E a partir desse dia, cheirou a lavanda, a urze e a jasmim de montanha, de bosques quase impossíveis de imaginar, pradarias e confins. Tudo numa amalgama de procura incessante, quem sabe, se por mim.

A memória transformou-se em flores. Como se as flores permanecessem mais do que um fugaz olhar pela janela do comboio.

O cheiro da urze toma sempre os comboios de assalto e aconchega-se de mansinho ao lado de quem viaja. A lavanda é cor e também frescura numa qualquer passagem.

Todas as viagens que recordo cheiram a flores. Mesmo as que não passaram de olhares fugazes e paisagens repentinas. Um dia acabei de chegar. Cheirava a rosas na gare e o sol pareceu-me uma laranja…

Uma laranja redonda e amena com gomos sorvidos sem pressa num mesmo lugar.

Foi o tempo em que o limoeiro acordou de novo e ajudou o sol a embalar-me os sonhos cítricos e doces.

Foi um tempo muito curto, quiçá um único dia ou um instante… As memórias evoluem assim, em espaços pouco definidos na maioria das vezes. E, de repente, já não havia sol e já não se via o limoeiro no fundo do jardim. A noite avançava devagar, com cheiro de noite e a minha vida encheu-se de breu e de algumas estrelas.

Cheirou sempre a noite, aos cesto nocturnum que plantei às braçadas apesar do medo dos morcegos me invadirem os sonhos e despentearem de vez todas as histórias.

Amanhã, talvez me tragas minha memória o único cheiro que teimas em nunca me recordar:

esse cheiro a mim.

 


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