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João de Sousa

Sábado, Outubro 16, 2021

Carta à minha memória

Filipa Vera Jardim
Mantém o blogue literário “Chez George Sand” onde escreve regularmente.

XXXII. O absurdo.

Minha memória,

Tento em vão encaixar as peças que me vais trazendo. Fragmentos de histórias que compõe a minha vida e, talvez me ajudem a dar-lhe algum sentido.

Hoje, é o absurdo de um mundo em revolta que nos sacode.

Olhamos à volta e não vemos terreno limpo, apenas acontecimentos mais ou menos destruturados por onde passamos.

É inevitável que assim seja minha memória quando se condiciona à partida a existência a uma existência em sociedade?

No entanto, não é nada disto que eu quero. Não é esta a minha escolha nem este o meu anseio.

Temo, minha memória, que o absurdo de tudo o que me rodeia me engula e não te permita, a ti, trazer-me depois recordações que me ajudem a construir ou reconstruir – e às vezes é tempo disso – a minha felicidade.

Falas-me num passado longínquo e eu, eu remeto tudo isso para uma qualquer eternidade…

O que se passou comigo nesta vida inteira terá, inevitavelmente, que fazer parte das minhas recordações e do meu futuro. Mesmo daquele que eu não adivinho, sequer. Que não sei se será e onde poderá ficar.

No entanto, minha memória, tudo isto que agora se passa ao meu redor é um absurdo. Ou pior ainda, uma colecção de vários absurdos.

Absurdo de imodéstia, de fome, de morte. Absurdo de ligeireza no conhecimento, de falta de rumo, de falta de ética, de troca do correcto pelo incorrecto, absurdo de guerra e de números que se distanciam da realidade de quem os vive, obrigatoriamente.

Acompanha-me pois, gente que não sendo da minha escolha, está presente obrigatoriamente na minha vida. São deles os fazedores de absurdos. Eles e os muitos palcos por onde sou mesmo obrigado a passar.

Ao meu lado, o absurdo vive pois, paredes meias com esta imensa vontade de mudar…

Houve um tempo diferente, minha memória. Um tempo justo em que os acontecimentos fluíam e não pesavam assim, anos mais tarde, na minha lembrança. Mesmo os acontecimentos mais tristes seguiam uma ordem definida pela justeza, pela correcção, e por vezes pelo impossível e pelo imprevisto que vai pautando a condição humana.

Agora é tantas vezes, apenas o absurdo que envolve tudo.

De onde surge? Pois nem eu sei. A maioria das vezes acoita-se num local pouco arejado, no fundo dos anseios de uma imensa minoria e, chega solene e vestido com remendos de pequenas verdades que não lhe pertencem, mas juntas, se completam numa vestimenta pouco criteriosa.

Como serão as minhas lembranças deste tempo, minha memória? Como será o meu futuro a partir destas lembranças?
Será que muito antes,  as coisas não foram também assim, construídas em retalhos de absurdos e as recordações que me trazes se foram tornando com o tempo, benévolas?

Recorda-me tu, a cada passo que o tempo é uma solenidade que se reconhece e que se transporta. Uma solenidade que também se reinventa, certamente e, eu quero acreditar que sim, para essa a minha pequena eternidade.

Vivemos e recordamos por isso e para isso: a nossa pequena eternidade. E, eu não quero que ela se envolva no absurdo feito de caleidoscópios invertidos. No entanto, são hoje já assim, algumas das tantas vivências que me vais trazendo…

 


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