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João de Sousa

Sexta-feira, Outubro 22, 2021

Carta à minha memória

Filipa Vera Jardim
Mantém o blogue literário “Chez George Sand” onde escreve regularmente.

XL. Recomeçar.

Minha memória,

Hoje farei “reset” a todas as minhas lembranças. A todas, sem nenhuma excepção. Verificarei se estão de acordo com a minha vida que se pretende a partir de agora e, daqui por diante, totalmente plena e feliz.

Todos os dias se necessário, minha memória, farei novamente “reset” a todas as minhas lembranças. O meu arbítrio será o limite da tua vontade. A minha esperança, o travão da influencia dos acontecimentos que insistes em me trazer uma e outra vez, mesmo sabendo que isso me faz mal. E ris-te. Ris-te porque sabes que é assim e, que independentemente desta minha vontade de mudar, continuarás a lembrar-me aleatoriamente, espero eu, daquilo que me aconteceu e nem sequer foi positivo.

De tudo o que não é positivo podemos extrair conhecimento. Com tudo o que não é positivo, crescemos.

Eu sei que pensas assim minha memória, e que por mais que eu te diga que doravante será diferente, tu sabes que não vai ser assim.

E tu a ris-te e pareces dizer-me: Constrói por cima de tudo o que te aconteceu. Não há “reset” na alma nem no coração. Os calos que se fizeram nas tuas mãos e no fundo da tua resistência não desaparecem com nenhum “reset”. Recomeça se quiseres. Recomeça todos os dias mas conta sempre com a minha presença. Recordar faz parte integrante da tua vida, dos teus sonhos e de qualquer das tuas construções.

Não me entendes minha memória… São acontecimentos, rostos, passagens que devia ter evitado. Situação que não devia ter vivido. Angustias que me fizeram passar noites em claro a tentar perceber se havia uma razão. Outras angústias, porque percebi que a razão, a existir, não era nada daquilo que eu conhecia. Foi tudo um engano minha memória. O meu engano e o dos outros, que chegaram tantas vezes a saberem exactamente o que queriam, e partiram sem sequer eu perceber porquê…

E ris-te minha memória. Como se do meu sofrimento, que insistes em me recordar e recordar e recordar, houvesse motivos para congratulação e alguma coisa que se aproveitasse para este meu recomeço…

Vou recomeçar minha memória, hoje e todos os dias da minha vida. O teu riso assusta-me mas não me demove.

Recomeçar é uma tarefa urgente que me exige acordar todos os dias e balouçar o meu empenho na tua varanda, plena de recordações. Depois, fechar com força as portadas e partir. Muitas vezes sem rumo e sempre com o teu riso a acompanhar-me cada um dos meus passos.

Tu ris-te minha memória e eu, eu talvez um dia consiga perceber…

 


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