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Terça-feira, Outubro 26, 2021

Carta para a Ilhéu, doce amiga

Adrienne Savazoni Morelato, de São Paulo
Mestre e doutora em Estudos Literários pela Unesp, é professora da rede estadual de São Paulo e poeta

Foi o meu primeiro encontro com o mundo. Nas lembranças que mal cabem em minha memória, as mais rebuscadas, quando eu queria sair de casa para a estrada exterior era você que eu encontrava. Enorme tronco que magnetizava-nos por sua espessura, por seu tamanho, por suas cascas grossas provando o quanto era velha, enquanto eu pequenina não conseguia nem contar meus anos e precisava de ajuda para saber se eu tinha dois ou três de idade. Um pedaço de gente que não te via mais do que um grosso tronco em que bracinhos miúdos não podiam alcançar suas extremidades.

Suas sementes se tornaram pequenos adornos lúdicos que eu e meu irmão guardávamos como se fossem preciosidades mais incríveis de nossa pequena existência. Mais tarde, já com os olhos um pouco maiores com os quais eu conseguia ver sua extensão vertical, eu adorava correr contra o vento para colher suas folhas que dançavam pelos ares até cair em nossas mãos. Cada folha que eu e meu irmão colhíamos do alto e que vinha de você era como um sonho que se desmanchava entre os dedos, puro presente da generosidade de suas raízes. Um dia, em uma dessas brincadeiras em sua sombra tão cheia de paz, eu e meu irmão encontramos desenhado em seu tronco a letra E. Pensamos em um nome que logo se espalhou e conforme foi sendo falado, o E se tornou I e assim a batizamos: Ilhéu.

Ilhéu, pensávamos: “ quem será que tinha te plantado?” , “ quantas crianças tinham brincado como nós em seu tronco? “ E enquanto pensávamos isso, sentíamos a certeza que ali naquele momento era toda nossa, somente nossa e entregávamos nossas almas à sua copa. Nenhum lugar era mais prazeroso ou despertaria mais afeto do que embaixo de seus galhos. O tempo parava. As nuvens pairavam. O céu azul se curvava a ti, bela e imponente! Tínhamos a sensação de que você foi o ser maior do mundo, e que chegar em seus longínquos galhos, era ganhar o universo, atingir o horizonte e descobrir o exterior além dos morros. Morávamos em um vale e você nos levava para fora do precipício. Sim, éramos carregados pelos seus galhos que viravam braços que nos acalentavam. Afinal, só éramos crianças.

E para agradecer, cantávamos. Cantávamos para você uma canção tão pura, singela, simples, como simples eram as suas raízes que viravam os nossos bancos: “Ilhéu, Ilhéuzinha, você é o doce da vida, Ilhéu, com você eu vou até o céu”. E fomos. E sim, você era um doce! O doce da vida, por isso não economizamos em te enfeitar com flores silvestres. Todo o seu tronco, seus cascos. Suas frestas. Fazíamos festa de aniversário para ti, porque pensávamos que além de gigante, você era eterna, não haveria nada mais majestoso, grandioso e forte como tu, Ilhéu!

E nunca deixamos de te dar bom dia, de acordar e correr para o seu abraço, de querer dormir em sua rede imaginária, de morar para sempre em sua frondosa sombra. E conversando contigo é que não nos sentíamos sozinhos, mesmo quando a realidade parecia despencar para nós e nos víamos sem pai e sem mãe com apenas 11 anos. Você nunca nos deixou sentir a solidão. E parecia compreender nossa linguagem inocente, nossos pedidos pueris.

Um dia, uma pipa enrosca em teu galho mais longe. Cantamos. Você parecia gostar e dançar ao som do vento e das nossas vozes finas. Tudo em ti mexia. Continuamos. Nosso canto era uma declaração de amor, enquanto desejávamos que nos desse a pipa. No dia seguinte, estava lá no chão esperando-nos o seu presente e o nosso desejo; a pipa enroscada.

Por isso, nunca tivemos dúvida, você falava com a gente! Sentia. E através de você, sabíamos que as árvores guardam um espírito que só as almas descascadas, enraizadas no chão de terra podem ouvi-lo. Eu via sempre   uma ninfa linda de cabelos ondulados, coroa de flores, vestida de cetim branco sair de suas entranhas e correr ao nosso lado pelos campos. Brincávamos de esconde-esconde. Deliciávamos a brisa suavizar as nossas dores.

Ilhéu, nunca imaginei que você, que tanto nos acolheu da solidão e do descaso, da saudade e da dor, pudesse partir assim em meio a tanto sofrimento! Como acalentar o meu coração que não pôde te abraçar em seu último baile nos ares? Como posso aceitar que tenha morrido à míngua, sem nenhum canto ou flor trazida por uma criança e no mais completo silêncio? Que tenha sido vítima do próprio abandono que tanto combateu? Como posso não me sentir ínfima sabendo que, em todos estes anos de ausência, foram contadas as minhas visitas a ti? Mas tu não deixaste de me visitar e toda vez que algo te acontecia, eu sonhava contigo.

Sonhei por diversas vezes que você me esperava naquela ponta do caminho, eu andava alegre e cantando pela estrada vermelha, porque estaria indo ao teu encontro. Às vezes, nos sonhos, eu nunca chegava e você lá longe, me esperando com os galhos abertos. Às vezes eu já sonhava estar perto de ti, usufruindo o teu cheiro de paz e profundidade. Havia um sonho em que tu andavas. Havia um sonho em que voltávamos a brincar. E esses encontros eram sempre cheios de alegria e bondade nos corações em franco sorriso. Parecia que tínhamos uma espécie de telepatia e que descontávamos em sonhos, a beleza do reencontro que não pudemos dar na dimensão do real.

Eu só queria te dar meu último abraço! Cantar sua música novamente antes de sua partida. Mas em sonho, você já me avisava: não aguentaria a saudade e o silêncio. O silêncio se fez tão avassalador como motoserras em teu caule e a saudade te fez secar plenamente. A espera era longa e penosa. Os sonhos insuficientes para dar a verdadeira intensidade de seu sofrimento. E eu preocupada em viver materialmente neste mundo de cá que tu me mostrastes. Não conseguia entender o meu choro de criança que também sentia tua falta como um vazio lasso e com braços perdidos.

Eu sabia que você me esperava… Eu acreditei que ainda eu teria esse tempo.

Dia 22 de agosto de 2021, um incêndio atingiu o Parque Estadual do Juquery em proporções nunca vistas. Eu acreditei que tu estavas preservadas como também todo vale. Que o fogo não chegaria a ti, pois ainda resistia em mim; a ideia de que tu fostes tão eterna quanto imensa. E que tu sobreviverias ao fogo, porque tua forma altiva e generosa era o símbolo maior da atemporalidade. Fiquei com essa crença e isso me confortou frente a dor de tanta destruição com esse incêndio. Até que veio o primeiro sonho. Neste, você estava bamba, apenas me esperando para tocá-la. O vale onde eu morei se cobria de água e tu estavas fora, mas pensa. O segundo sonho, foi muito estranho. Eu sabia que tu irias cair e eu corria para dentro de casa. Você fez de tudo para não desabar em cima da gente, saiu do seu próprio lugar para cair mais longe, de forma atravessada e em linha cruzada e parou bem em frente ao meu portão. No terceiro sonho, você já não existia mais e em teu lugar, um grande buraco que não cabia mais o sentimento de desamparo que agora eu sinto.

Faz dois dias que recebi de um dos meus irmãos da terra, fotos tuas exatamente como estavas em meu sonho. Caída no chão, estirada de maneira cruzada em frente à casa em que moramos. Tudo me leva a crer que o fogo te consumiu lentamente, por dentro, pouco a pouco. Até não lhe sobrar mais imensidão. Até não lhe sobrar mais forma. Até não lhe sobrar altura. Até se extinguir as suas raízes.

Hoje, é um grande toco lenhado fazendo coro de que ali existiu um espírito de árvore protetora e gloriosa. Sigo tentando entender como podem ter te dado esse fim? Tu que só eras amor? Não consigo parar de chorar e nada me consola. Eu e meus irmãos queríamos apenas abraçar-te, te tocar pela última vez. Queríamos ter tido a oportunidade de te dizer: “ eu te amo”. Os outros de fora acreditam ser bobagens, que das cinzas tudo volta a renascer, que enfim, era só uma árvore! Patéticos! Custo a entender a falta de sentimento que reina nesse mundo de cá, a falta de bondade, a falta de generosidade, de canto, de flor, de pureza e poesia. São tantos descaminhos sem ao menos conhecer a ingenuidade e a amplidão. A deliciosa brisa que você ventava em nosso rosto.

Não pude devolver a ti nada, nenhuma coisa, nem o merecido descanso com seus galhos e troncos secos e os últimos passarinhos encontrando abrigo em seu tronco ainda grosso. Imaginei tu tão seca, mas de pé para apreciar o céu que tanto te curvou e o barulho do vento gostoso das lembranças. Os pica-paus a comer suas casquinhas, fazendo troça de seu nariz enrugado, de seus braços muchos. Mas você foi acabar como um pau de lenha na dor e no sacrifício. Como te conheço, sei que tu deves ter se oferecido à morte inteiramente para proteger outras árvores e outros seres vivos do fogo. Não tenho dúvidas disso. Espero que sobra para mim e    meus irmãos o direito de velar-te com lágrimas, música mais linda do planeta a ninar-te pela última vez, ornando suas brasas com flores:

Ilhéu, Ilhéuzinha

Você é o doce da vida Ilhéu

Com você, eu vou até o céu.

E eu poderei dizer que eu conheci o amor mais puro e eterno, aquele que se tem pelo nome de árvore.


Texto original em português do Brasil

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