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Terça-feira, Outubro 4, 2022

Sobre as águas da vida o silêncio dói

Vítor Burity da Silva, Angola
Vítor Burity da Silva, Angola
Ph.D em Filosofia das Ciências Políticas. Pós Doutorado em (Educação e Psicologia). Doutor Honorário em Literatura e Filosofia. Professor Honorário de Filosofia da Educação. Professor Catedrático. Investigador da Universidade de Évora. Membro da Sociedade Portuguesa de Filosofia. Membro da Associação Portuguesa de Escritores. Escritor.

Ainda me lembro, Maria, tinha acabado de chegar de África e os zunidos frios se tornavam quentes, aquela praia fervia uma paz que tanto precisava, a tropa matou-me de dentro para fora e para dentro os restos de bombas estilhaçadas no cansaço de tantas memórias.

LXI

Ainda me lembro daqueles dias Maria, do teu Dodge azul-cinzento estacionado na primeira praia da manhã onde discutíamos o sexo dos anjos e a maré crescia em direcção aos pneus pretos e belos do Dodge que, ao ralenti, descansava e nós ainda nas nuvens a murmurar o que nunca soubemos, não havia covid, não havia sida, não malária porque não havia televisão, ainda bem sabes?, hoje, a mesma praia estacionada e o Dodge na enfermaria-oficina-cemitério de carros antigos olha para mim, penso comigo mesmo nem sei que pensar, nada lhe digo e apenas o observo velho, penso em mim velho, vejo televisão e descubro que com televisão há tudo, menos a forma bela como naquele tempo conversávamos como irmãos na zona mais a sul de Lisboa em que íamos sem pressa e voltávamos devagar a decorar de veludo as belezas transparentes, sim, as que existiam só para nós porque era o que queríamos. Que ninguém soubesse que a beleza existia. Que a vida existia. Que a felicidade existia. O Dodge novo brilhava o seu azul-cinzento que mais parecia céu que verdade.

Ainda me lembro, Maria, tinha acabado de chegar de África e os zunidos frios se tornavam quentes, aquela praia fervia uma paz que tanto precisava, a tropa matou-me de dentro para fora e para dentro os restos de bombas estilhaçadas no cansaço de tantas memórias. A floresta feita selva e a guerra mandava, havia códigos que fingiam saúde e eu numa enfermaria de pressas a curar esquecimentos, traumatismo!, dizia o soldado que carregava as macas todos os dias para dentro de mais uma vida de solidão, carregar-nos a cabeça com tantas lembranças, escuro e claro ou claro e escuro que importava, a g3 encostada à entrada e a tiracolo uma Valter velha, a nossa tropa só usava materiais velhos porque queriam velhos mesmo antes da adolescência e assim lá, agora nem lá nem cá ou o contrário sei lá, a praia daqui, entre vidros e retrovisores desmiolar de maços o verde da água ali, ela dança como sempre gostaste, não é?, que horas são?, chegamos e partiremos na mesma calma que nos trouxe até aqui e o horizonte ainda no olhar despertado, ouço as melodias e as danças que vejo e a praia que baila há tanto não via. Será que sabia que afinal havia vida? Talvez não saiba ainda hoje, porque a cabeça sem televisão naquele nos desligava de mentiras vendidas para o share na concorrência, e de que vidas se preocupam afinal, o dinheiro alegra, Maria?, nunca tive dinheiro, o que tinha eram feridos para curar e vê-los morrer. Não sei se terei morrido também, mas consigo ainda assim descansar o olhar e a vista nesta bela praia de manhã.


Como aperitivo à deliciosa prosa de Vítor Burity da Silva, apresentamos novo capítulo do livro Sobre As Águas Da Vida O Silêncio Dói


 

 

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