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Terça-feira, Maio 24, 2022

Cegueira emocional

Maria do Céu Pires
Maria do Céu Pires
Doutorada em Filosofia. Professora.

Maria do Céu PiresNa verdade, com o acentuado descrédito dos grandes modelos inspiradores, quer os religiosos, quer os políticos, as sociedades europeias das últimas décadas do século XX e início do século XXI apresentam claros sintomas de um profundo mal-estar. O individualismo egoísta, o consumismo, o hedonismo, a quebra dos laços de solidariedade, a superficialidade e o reino do efémero, instalaram-se gerando um vazio de sentido que, associado à crise financeira está a tornar-se um túnel de difícil saída.

Os sinais são muitos e bem evidentes: “Crianças consomem mais de 5 milhões de psicofármacos em Portugal”, “Consumo de antidepressivos em Portugal está a aumentar”. Uma sociedade doente, a precisar de cuidados urgentes para recuperar algum equilíbrio!

Estes sintomas tornam-se ainda mais visíveis na tragédia humana diariamente vivida no Mediterrâneo, na Síria e no Iraque, transformados em campos de morte.

Perante essa calamidade humana, muitos desviam a cara, precisamente os mesmos, que de imediato se mobilizam nas redes sociais quando qualquer bicho é maltratado. É claro que devemos tratar bem os animas mas, também devemos manter a noção das prioridades.

A prevalência do individualismo e do esquecimento sobre o que significa “ser humano”, reduzindo as pessoas a números e a “coisas” que apenas interessam como peças da engrenagem capitalista que não olha a meios para atingir o seu fim, “o máximo lucro possível”, conduz à indiferença generalizada perante o outro.

O predomínio de uma racionalidade instrumental que, no meio académico, se traduziu pelo desprezo relativamente às Humanidades, levou a que, progressivamente as pessoas se esquecessem da importância da partilha com os outros, da atenção aos que, num determinado momento estão em situação de fragilidade.

Foi, igualmente, esquecido que cada um de nós é, por natureza, também frágil e carente, em muitos momentos, de apoio dos outros.

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Adela Cortina

Adela Cortina tem razão. Estamos a ficar “cegos”, incapazes de nos emocionar com o sofrimento dos outros, de nos indignar com a injustiça.

A crescente insensibilidade (moral, ética, política e até estética) surge como uma ameaça ao que foram patamares de desenvolvimento e de humanidade conseguidos na segunda metade do século XX.

Descemos a um nível infra-humano e, sob o domínio da tecnologia, a que se juntam as diferentes formas de alienação e de perda de memória, parece que voltamos, uma vez mais, à caverna.

E, a confundir as sombras com a realidade!

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