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Terça-feira, Julho 23, 2024

Álcool. Associação à socialização e às amizades

Ana Pinto-Coelho
Ana Pinto-Coelho
Aconselhamento em dependências químicas e comportamentais, Investigadora Adiction Counselling

Nele relata a sua vida enquanto “party girl” e, mais tarde, fazer as mesmas coisas em sobriedade. Sem dramas.

De resto, é muito simples a forma como expõe o que geralmente acontece:

“Já alguma vez bebeu, teve uma ressaca muito desagradável e pensou para si mesmo :
* Isto já não é nada divertido.

* O que é que estou a fazer com a minha vida?

* Eu não quero mais viver assim!

* Por que eu não posso beber normalmente?

Bem, você não é o único!”

Quando se está habituado a tirar fotografias antes de uma interacção social, seja qual for, e já habituado e beber nem que seja um copo antes disso acontecer, a sensação de estar sóbrio num lugar deste tipo parece estranha. E impossível.

Já noutro artigo referi isto: socializar é algo histórica e culturalmente associado ao álcool. Kelly escreve: “enfrentemos: se já viu televisão, navegou na Net ou folheou as páginas do Facebook, já viu anúncios da indústria do álcool.

Já pensou no que podia estar a fazer numa sexta-feira à noite. E isso podia ser sobre com o que podia misturar a sua vodka nessa noite, e como isso podia levar a conhecer pessoas bonitas num bar ou discoteca. Essa é uma das razões porque demorei tanto tempo a tentar a sobriedade.

Eu pensava, verdadeiramente, que era a única maneira de conseguir socializar. Levou-me algum tempo para conseguir ajustar a vida. Quando se associa qualquer tipo de interacção social a, pelo menos, dois ou três “shots” antes de o fazer, sentimo-nos como um estranho a aparecer sóbrio nestes lugares.

Cada evento e situação em que eu entrei e participei sóbria foram uma oportunidade de aprendizagem que acabaram por me provar que é muito melhor socializar sóbria do que “com os copos”. Porquê?

socialização-mentira
José Malhoa – “Bêbados”

 

8 razões porque socializar sóbrio é melhor do que socializar bêbado

1. É genuíno

Eu era sempre aquele tipo de bebedora que sentia estas conexões quase espirituais profundas com os amigos/as que também bebiam. Conheceria alguém num WC de uma discoteca, por volta das duas da manhã, e seríamos besties para o resto da noite. Tive toneladas de camaradas de festa, pessoas que podia chamar a qualquer hora do dia e convencer a beber comigo.

Desde que fiquei sóbria tenho vindo a perceber como eram falsas estas conexões. É preciso muito mais do que beber shots de tequila ou whiskies para se ficar realmente íntimo de outro ser humano. A sobriedade mostrou-me que as conexões genuínas são feitas com a cabeça clara.

2. Não requer ressaca!

Enquanto socializava “ no activo” em relação ao álcool, tinha uma ressaca sempre presa a mim. Isso porque não soube socializar sem consumir álcool. Não vou mentir: diverti-me muito alguns dias, enquanto bebia, mas o preço que pagava era uma sórdida ressaca. Não importa quanta diversão tinha: no dia seguinte estava a pagar por isso. Socializar sóbria não requer a moeda de troca comercial que é uma ressaca. Hoje, quando vou a um evento, consigo acordar fresca.

3. Desenvolvem-se relações com substância

As relações que tinha com outras pessoas que também bebiam não tinham substância. Quando fiquei sóbria, deixei para trás muitos amigos porque percebi que não tínhamos efectivamente nada em comum. O que tínhamos em comum era a bebida e o drama. É muito mais fácil encontrar pessoas que têm a mesma visão do mundo quando estamos sóbrios. Entendem o que procuramos na vida e criamos relações efectivamente reais.

4. Deixar de ter com que me preocupar ou envergonhar

Os meus anos a beber foram uma longa história de situações embaraçosas. Conheço pessoas que bebem e que não são alcoólicas, mas que mesmo assim tiveram que se envergonhar mais do que uma vez por terem bebido. A beleza de socializar sóbrio é que nunca mais vai ter que se preocupar ou envergonhar.

Claro que é possível cometer um erro ou dizer disparates sem beber, mas nunca existe a extensão às vezes dramática do que acontecia quando bebia. Posso tomar a decisão consciente de me comportar de determinada maneira em vez de me deixar ir até “áquilo” em que me torno, quando bebo.

5. Passar a lembrar de todas as conversas

Chega a doer saber que não me lembro de detalhes cruciais da minha vida devido ao meu hábito. E não só. Que coisas sérias aconteceram, como cirurgias, mortes e outros acontecimentos importantes aconteceram e eu quase não consigo recordar.

6. Encontrar novos interesses e pessoas de que se gosta realmente

Socializando sóbria encontrei passatempos novos que não sabia que gostava. É de facto uma percepção errada aquela que temos, de que nunca nos iremos divertir estando sóbrios e que socializar vai ser duro.

A verdade é que acabamos por encontrar novas maneiras de o fazer. Eu comecei a fazer Crossfit e conheci pessoas novas naquela comunidade. Mas podia ser outra coisa qualquer. A sobriedade oferece tempo para encontrar actividades e pessoas novas.

7. A amizade está fundamentada em valores: não beba se quer fazer amigos!

Nunca tinha percebido o quanto a minha vida estava baseada no álcool até deixar de beber. Pensava que estava a beber como qualquer outra da minha idade, mas a verdade é que procurava sempre companhia de pessoas que bebessem também.

Hoje o bom senso diz-me que as amizades sóbrias estão baseadas em valores reais, como a lealdade, honestidade e confiança.

8. Ter escolha para socializar ou não

Nunca percebi isto até ficar sóbria, mas socializar era algo forçado para mim. Enquanto beber era associado a socializar, socializar era associado a beber. Eu não tinha escolha sobre esse assunto. Sentia-me como se estivesse a pôr uma máscara, fosse a de “vida de festa” ou de um outro acto qualquer em que tinha que interagir com outra pessoa.

Agora sóbria, consigo escolher quando quero socializar ou não.

E também nunca mais comparei socializar com beber.”

Fazer a separação entre beber e socializar faz sentido. Até porque socializar sóbrio é muito mais agradável: cada um pode ser quem realmente é. Vai quando quer e porque quer, o que faz aumentar a auto-estima e a certeza de que decide o que quer da sua vida.

Kelly chegou a esta conclusão, como muitos outros alcoólicos depois de um longo processo em que muitas situações graves aconteceram, e, tal como ela própria afirma, muitas delas embaraçosas, tristes, perigosas ou até humilhantes.

O facto de a sociedade continuar a fazer associar as festas, o divertimento, a socialização e até – pasme-se – a amizade, ao álcool, em nada ajuda.

Num outro artigo prometi que voltava a falar disto, porque é grave e retrata exactamente o que uma sociedade ainda atrasada faz. Deixo uma “curta” que Ricardo Belo de Morais, um grande amigo e homem atento a questões culturais sociais escreveu aqui há tempos no seu mural do Facebook, com razão e alma.

“Importa cada vez mais que a (marca de cerveja) saiba que os amigos não precisam da sua cerveja para maximizar os bons momentos. Com bebedeiras de cerveja, a marca ou outra, não há bons momentos, há momentos de merda a estragar a saúde. Já agora, também dava jeito que a marca de cerveja soubesse que ao patrocinar festas de estudantes universitários, como esta última desta semana em Santos, o pode fazer sem ter de instalar dezenas de dispensadores metálicos de jola, a bombar o conteúdo de centenas de barris numa só noite. Nojo de gente, que nos anda a arruinar gerações de jovens.”

Jovens e adultos. Homem feito, que deste tipo de crenças irracionais começou a fazer-se gente, associando a bebida a este tipo de conceitos.

O drama é que mais tarde torna-se muito mais difícil fazer parar esta enorme roda gigante que é uma vida comandada pelo álcool, sem que a pessoa se aperceba disso.

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