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Quinta-feira, Dezembro 2, 2021

O Espião Português e o Profeta Desaparecido

José Mateus
Analista e conferencista de Geo-estratégia e Inteligência Económica

José MateusCheira que pode ter tanto de ‘case-study’ como de… anedota. Ou ambos. Sendo que a incerteza ainda é muita, é mais prudente tomar a coisa pelo lado da anedota.

Uma coisa, porém, é certa. Isto tinha dado uma “ficção” notável nas mãos de “o homem mais bem informado do mundo” ou “The Spy Novelist Who Knows Too Much” e que contava (quase) tudo, antecipando-se à realidade.

Num dos seus romances, o chefe da “estação” da CIA na Mauritânia aparece mesmo com o seu nome verdadeiro (em Washington muita gente então se zangou) mas o “romancista” mandou explicar que estava no hospital (há meses) e o seu editor tinha cometido a “gaffe” de não cumprir as suas instruções para alterar o nome… Lapso do editor. Desculpas aceites e “business as usual” ou seja o “profeta” pode continuar a anunciar o futuro.

Assim, a “operação” francesa no Mali, contra o terrorismo islamista, foi profetizada, com meses de antecipação, e estava nas “bancas” e livrarias no ano anterior.

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Gérard de Villiers | 8 Dez.1929 – 31 de Out. 2013

Presidentes aproveitavam os dias de férias para, informalmente, se encontrarem com ele, governantes convidavam-no para almoços nos seus ministérios, especialistas ficavam boquiabertos ao ver como a realidade se empenhava em seguir e cumprir as suas “profecias”…

He was also considered uncannily prophetic, outlining a plot to kill the Egyptian president Anwar Sadat a year before his actual assassination in 1981, and foreshadowing the arrest of the terror suspect Carlos the Jackal in 1994. Last year he published a novel about the threat of Islamist groups in post-revolutionary Libya that focused on jihadis in Benghazi and on the CIA’s role in fighting them, six months before the raid in which the American ambassador, Christopher Stevens, was killed.”

Robert Worth, spécialiste du Moyen-Orient, scannait avec admiration le double volume du «Chemin de Damas». Avec la minutie d’un horloger suisse, Gérard de Villiers y raconte le complot ourdi par la CIA pour éliminer Bachar al-Assad et sa famille, et l’assassinat de son remplaçant potentiel par les services syriens. Un vrai «scoop» anticipé par l’auteur: il s’est matérialisé trois mois plus tard. Comme l’assassinat de Rafiq Hariri, conçu par la Syrie et exécuté par le Hezbollah en février 2005, que Villiers avait mis en scène six mois auparavant dans «la Liste Hariri».”

Mesmo as frequentes cenas de sexo correspondem a realidades e os comportamentos das senhoras são inspirados de protagonistas reais”, como aquele caso de Beirute com a princesa saudita ninfomaníaca ou o da mulher de certo banqueiro português.

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Gérard de Villiers rodeado pelas SAS Girls

As grandes paixões da sua vida foram as mulheres (casou 4 vezes…) e o “grande largo”. Com o seu melhor amigo (“Claude Lanzmann, directeur des ‘Temps modernes’ et cinéaste de ‘Shoah’…“) partilhou a paixão das mulheres. Com outros grandes amigos (“écrivains-voyageurs, journalistes au long cours, barbouzes de luxe (hier Alexandre de Marenches, aujourd’hui le général Rondot) ou magistrats de l’antiterrorisme (Jean-Louis Bruguière, Alain Marsaud”) partilhou a paixão da geopolítica, do “grande largo”.

Como ele contava não o que tinha acontecido mas o que ia acontecer, fosse o prolífico Gérard de Villiers ainda vivo e – é garantido – o “romance” sobre o pobre “espião português” tinha chegado às livrarias, pelo menos, uns três meses antes da sua prisão em Roma. E talvez assim ficássemos a saber um pouco mais sobre nós mesmos pois como bem explicou John Le Carré “L’âme d’une nation se révèle dans ses services secrets“.

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