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Quarta-feira, Maio 25, 2022

Christiane Brito, a companheira que partiu

Christiane Brito morreu na manhã desta segunda-feira (16), aos 60 anos, na casa onde morava com seu companheiro, o jornalista José Carlos Ruy. Éramos vizinhos de bairro, mas jamais a Chris e eu nos encontramos pelas ruas de Perdizes, São Paulo.

A bem da verdade, nosso contato se tornou esporádico depois que saí do Portal Vermelho, em 2011.

Quando a conheci, a história da jovem que havia entrevistado Carlos Drummond de Andrade, no já longínquo ano de 1986, era desconhecida. Com a minha mania de apelidar a todos com quem trabalho, brinquei que a chamaria de “olhos claros”, numa referência à forma como a símia Zira (Kim Hunter) se referia a Taylor (Charlton Heston) em “Planeta dos Macacos” (1968). Chris era uma daquelas pessoas cujos olhos mudam de cor – ora ficavam azuis, ora estavam mais esverdeados, ora pareciam de um castanho mais claro.

Assim que ela entrou na equipe, fui o responsável por lhe ensinar a usar a antiga – e terrível – ferramenta de publicação do portal. Depois, nos poucos meses em que convivemos diariamente – ela se sentava na mesa à minha frente –, conversamos muito sobre política e cultura. Eu tinha o hábito de pôr música em alto volume, recitar poemas e até levar vinho para a Redação – tudo para entreter uma turma que, na época, andava cada vez mais “pra baixo” em função de um de nossos superiores. Só hoje o Ruy me contou que esta era uma das melhores lembranças que a Chris tinha daqueles tempos.

Além de jornalista e escritora, Christiane Brito era muito competente numa função complexa e algo híbrida, que mistura a produção editorial, a assessoria de imprensa e o agenciamento literário. Em outras palavras, quando um autor tinha acabado de escrever um livro e queria publicá-lo, bastava falar com profissionais do tipo “faz-tudo”, como a Chris. Da escolha da editora ao lançamento da obra – passando por preparação, edição, revisão, impressão, distribuição, etc. –, era possível acioná-la.

Nos últimos anos, fui a pelo menos dois lançamentos que tiveram a marca da Chris, ambos editados pela LiteraRUA: a biografia “Sabotage – Um Bom Lugar” (2013), de Toni Carlos Pereira, o Toni C, e o romance A Mais Longa Duração da Juventude – Urariano Mota (2017). O segundo caso, por sinal, ajudou a aproximar Chris de Ruy, que assina o prefácio do livro. Em meio ao projeto, os dois jornalistas, antigos colegas de redação, retomaram o contato, apaixonaram-se e foram morar juntos. Foi inspirado nesse inesperado casal que o próprio Urariano Mota escreveu um conto sensível e esperançoso, “Um amor vermelho como antes”.

Às 14 horas deste domingo (15), Chris compartilhou, em sua página no Facebook, um vídeo em que Dominguinhos, ao lado da Jazz Sinfônica Brasil, toca e canta “Eu Só Quero um Xodó”. Foi sua última postagem nas redes sociais. À noite, contou a Ruy seus planos sobre novos artigos. Ao partir pela manhã, de forma tão surpreendente, fez lembrar os versos não do mineiro Drummond, mas, sim, do psiquiatra e escritor paulista Roberto Freire (1927-2008):

“Se um dia você for embora
vá lentamente como a noite
que amanhece sem que a gente saiba
exatamente
como aconteceu”.

 


por André Cintra, Jornalista, escritor, editor cultural do Vermelho  |  Texto em português do Brasil


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