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Segunda-feira, Janeiro 24, 2022

A jovem que entrevistou Drummond

À memória de Christiane Brito (1959-2020)

Em novembro de 1985, quando tinha 26 anos, Christiane Brito ousou escrever uma carta para Carlos Drummond de Andrade. Meio sem jeito, pedia-lhe uma entrevista, embora estivesse desempregada – e, portanto, com poucas chances de emplacar uma publicação. Explicava, na carta, que admirava como poucos os versos do poeta mineiro, em especial os de Quadrilha, lido por ela aos 11 anos, num momento de “paixão desenfreada não correspondida”. Tocada pelo poema, convenceu-se – segundo suas próprias palavras – “de que, no amor, a gente raras vezes acerta de primeira”.

Chris foi estimulada a escrever a carta por um editor, que lhe contara quão acessível era Drummond. Mesmo assim, a jovem jornalista não esperava uma resposta. Até que, certa tarde, ela encontrou “embaixo da porta um envelope manuscrito”, com “letra cuidadosa e familiar”, além de uma etiqueta no verso onde se liam “as famosas iniciais CDA e o endereço da rua Conselheiro Lafayette”. Drummond, então um senhor de 83 anos, mas ainda com a verve em dia, não mediu elogios:

“Sua carta é linda e uma carta assim é um retrato espiritual de quem a escreve (…). Mande-me perguntas por escrito e eu, na calma do escritório à noite, responderei a tudo. Combinado?”.

Mas Chris não vislumbrava essa generosidade do poeta e simplesmente “travou”, como é comum no início da carreira de quase todo repórter. A segunda carta a Drummond, com sete perguntas, só foi colada, selada e enviada após mais de um mês. Ao que o escritor mineiro reagiu, “com uma bronca discreta e uma reflexão”, numa correspondência escrita em 31 de janeiro de 1986:

“Cara Chris, já nem esperava mais receber as suas perguntas e concluí que, se elas não vieram, era porque as respostas seriam dispensáveis. Afinal, toda resposta, diante do silêncio de Jesus perante Pilatos, não é mesmo insignificante? (…) Mas você acabou me formulando sete questões e aqui estou tentando respondê-las, com o pior serviço datilográfico do mundo, perdoe.”

A entrevista – maravilhosa – teve de esperar 25 anos para sair das sombras e vir à luz. Foi publicada com exclusividade pelo Vermelho, em outubro de 2011. As sete respostas de Drummond – impressões pessoais do poeta sobre diferentes temas – assim foram organizadas por Christiane Brito:

Crônicas aposentadas

  1. “Deixei de escrever crônicas porque já me aborrecia fazê-las, depois de anos de militança. Tudo cansa, inclusive e principalmente escrever. Não busquei novos caminhos: apenas o silêncio.”

Queima de diários

  1. “Não tenho mais diário, e no Observador no Escritório deixei claro que destruí o que mantive por muitos anos, na convicção de que é inútil deixar essa espécie de autorretrato de coisas íntimas para a posteridade.”

Anos que passam

  1. “Minha relação com o tempo é a do comum das pessoas, nada simpática. Assisto à desmontagem do ser que ele construiu e que depois vai se divertindo em destruir, você acha isso engraçado?”

Sobre o suicídio (Pedro Nava, seu grande amigo, havia acabado de se suicidar)

  1. “O suicídio continua sendo para mim um dos maiores mistérios. Toda especulação em torno de suas notificações e significados continua vã, pois falta o testemunho do principal interessado, o suicida. A única coisa que posso dizer é que não o condeno.”

Sobre o amor

  1. “É um aprendizado infinito, que a vida não deixa concluir.”

Sobre agradar os fãs

  1. “Nunca tive pretensão de influir sobre qualquer público e, se há leitores que me distinguem com essa simpatia, isso ocorre por conta exclusivamente deles. Isso me conforta, é claro, mas não me anima a escrever em determinado sentido.”

Sobre Minas (onde nasceu)

  1. “Carrego Minas como um peso leve nas minhas costas, um peso de que não me livraria, mesmo que o quisesse (e não quero).”

A crônica “Duas cartas e sete perguntas para Drummond” ganhou uma continuação, a “parte 2”, igualmente memorável. Drummond morreu em 17 de agosto de 1987, apenas 12 dias depois da morte de sua filha, Maria Julieta. Em 1988, já como repórter da revista Elle, Chris foi ao Rio de Janeiro e tentou entrevistar Dolores, a viúva do escritor, que era irredutivelmente avessa à imprensa.

Mas a repórter, agora mais experiente, marcou uma conversa com Pedro Augusto Graña Drummond, o neto mais novo do escritor mineiro. No encontro, Pedro reconstitui os dias que se passaram entre as mortes da mãe e do avô. Drummond, atordoado, não escondia o inconformismo com a perda da filha. Passado o enterro, foram todos – parentes e amigos – para seu apartamento.

A certa altura, o poeta “pegou uma garrafa de vinho, safra especialíssima, para mostrar a alguém e ela se arrebentou no chão”. Pedro relatou a Chris que a garrafa “estava sendo guardada para uma ocasião feliz, que fosse muito especial… O Carlos sabia que essa ocasião jamais viria e talvez por isso a tenha quebrado sem querer”.

Pedro ainda declarou a Chris que o octogenário Drummond, embora casado, mantinha um caso extraconjugal de conhecimento da família, mas não do público. A “namorada do Carlos” se chamava Lygia. Chris recorda: o neto de Drummond “falou dela com intimidade, pareceu-me que se frequentavam, que a situação era perfeitamente familiar. Não tive, confesso, vontade de perguntar nada. Ele não me pediu segredo, mas contou com tanta naturalidade que certamente se sentiu seguro. A repórter em mim retirou-se definitivamente da cena, por pudor, ética, susto, não sei”.

De volta a São Paulo, Chris confidenciou a revelação-bomba ao editor, mas preferiu suprimir o caso na matéria que escreveu. A escolha desagradou ao chefe, que insistia na revelação do mexerico. “Era um cara querido, que eu respeitava muito, e que talvez estivesse certo na insistência comigo. Dizia que eu tinha um furo em mãos, que o Pedro não pedira segredo e que só me cabia escrever a respeito”.

Dias depois desse entrevero – mas um pouco antes da publicação do artigo –, Pedro telefonou para Chris. “Achei que teria novidades para a matéria, mas não. Falamos sobre tudo, começamos uma amizade.” Assim, involuntariamente, o neto de Drummond confortou Chris, que se sentiu mais convicta de que acertou ao não expor ao mundo a história de Lygia, a amante de nosso poeta maior.

De quebra, o vínculo de Chris com o neto de Drummond permaneceu vivo por anos. “O Pedro começou a me escrever: cartão de feliz ano novo enviado diretamente de Buenos Aires (onde nasceu e onde passava férias), postais de relançamentos do Drummond (criados pelo próprio Pedro, que é artista plástico e gráfico; na época, também atuava, no Teatro Tablado, e fazia cenários para o Miguel Falabella) e livros relacionados ao Drummond”.

Um presente que chegou pelos Correios foi ainda mais especial: “Em um dia inesquecível, recebi uma aquarela que ele pintou para mim. Era um lápis de cor que decolava como ‘espaçonave’ da terra para as estrelas e, no verso, uma dedicatória com o desejo de que nossa amizade também voasse longe”.

Pedro se tornou o guardião do vasto espólio drummondiano – um acervo que, até hoje, tem crônicas e poemas inéditos, além de um sem-número de anotações. Em 2017, por exemplo, ele organizou o livro Carlos Drummond de Andrade, uma Forma de Saudade – Páginas de Diário, lançado pela Companhia das Letras. O neto caçula do poeta mineiro vive no Rio de Janeiro e tem 60 anos.

Christiane Brito passou por redações de grandes editoras e também da mídia alternativa, como o Portal Vermelho. Além do jornalismo, dedicou-se a projetos culturais e editoriais. Chris – a jovem que entrevistou Drummond – tornou-se uma ótima jornalista e escritora, cheia de ideias e planos, sempre criativa e minuciosa. Morreu nesta segunda-feira (16), aos 60 anos.


por André Cintra, Jornalista, escritor, editor cultural do Vermelho  |  Texto em português do Brasil


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