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João de Sousa

Quarta-feira, Outubro 27, 2021

Conversas de papel

Eduardo Águaboa
Escritor, Ensaísta, Comentador político especializado em ideias gerais

tango-2

Uma rapariga nova, talvez vinda das aulas universitárias, de mochila às costas, roupa de adolescente com aqueles rasgões nos joelhos e nas coxas, fui direitinha à casa de banho e de lá saíu outra mulher.
Impecavelmente vestida de negro e sapato alto. Pronta para a dança, pronta a acolher parceiro à altura.

Que transfiguração!

Enquanto admirava aquela «mulher» cheia de corpo, lembrei-me da namorada que não tenho, que um dia destes também deve ter escovado a alma com Colgate a criou novas babilónias a erguerem-se do pó.

Aí deve ter considerado que a música é para tristes, sobretudo para homens tristes, e enviou-me um tema do Daniel Melingo, um tipo com voz de garrafão, mas que agarra a voz e os dizeres como tenazes. Não sei se foi ela que as escreveu no seu mundo de cetim e no do meu vinho marado.

A namorada que eu não tenho, sempre me disse que gostaria de viver dentro de um romance, ou de uma canção, que, pelo menos lá, passaria por coisas emocionantes.

Nesse dia a namorada que eu não tenho acordou para me deitar de um enorme tango abaixo.

Então, quando se sente só, atira-se a compor poemas de cabeça.

Eu amo a namorada que não tenho.

Ela dá-me a harmonia e o caos.

Mas desta vez fez-me apertar as partes vitais da minha anatomia, coitada, que não tinha culpa de nada.

Há letras e músicas que têm esse condão.

São umas doidas e eu gosto.
Até parece que gosto de divergir de mim mesmo, e gosto.

E aqui me vejo a olhar para o meio do salão de onde foram retiradas quase todas as mesas procurando avidamente a moçoila universitária, em vão.
Sinto um toque no ombro. Era a gaja.
– Vem dançar comigo.
Levantei-me e vi-me ao nível dos ombros dela.
– Não posso, como afocinho no teu pescoço? Como alegro essas orelhinhas? Esta dança é tão sensual, tu és tão sensual, e com este desnível acabaria mordido por ti, quando deveria ser o inverso.
Ela agarrou-me e com força colou-me a si.
O resto, meus caros, digamos que foram conversas de papel que ficam no papel para o papel conversar com outros papeis.

Nota do Director

As opiniões expressas nos artigos de Opinião apenas vinculam os respectivos autores e não reflectem necessariamente os pontos de vista da Redacção ou do Jornal.

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