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Sábado, Dezembro 3, 2022

Crise em Angola | Cada vez menos comida nas prateleiras dos supermercados

Cada vez existem mais jovens à procura de alimentos nos contentores de lixo Foto: Jorge Monteiro/PortaldeAngola/D.R
Cada vez existem mais jovens à procura de alimentos nos contentores de lixo
Foto: Jorge Monteiro/PortaldeAngola/D.R

Situação social muito difícil em Angola

Segundo a Agência Lusa noticiou, “as prateleiras das grandes superfícies de Luanda apenas as primeiras filas estão preenchidas e falta de tudo um pouco, por entre os desabafos de clientes que se queixam que todas as semanas os preços sobem”.

Numa ronda pelos principais hipermercados de Luanda, o título de capital mais cara do mundo começou a ganhar um valor redobrado nas últimas semanas. A crise do petróleo e as dificuldades na importação de vários produtos pela falta de divisas, está a deixar a população angolana desesperada, sobretudo os habitantes capital.

Segundo o repórter da Lusa, “numa das unidades da maior rede de hipermercados angolana, o grupo Kero, não se via arroz ou ovos, enquanto o leite é praticamente todo de uma marca portuguesa e chega aos 270 kwanzas por litro (1,5 euros)”.

Prateleiras vazias e carros inactivos nas portas dos hipermercados em Luanda Imagem (c) José Peixe
Prateleiras vazias e carros inactivos nas portas dos hipermercados em Luanda  |  Imagem (c) José Peixe

Produto que já este ano chegou a ser limitado na quantidade a levar por cliente, como acontece em vários pequenos supermercados e armazéns na periferia de Luanda, para outros bens alimentares. Alguns pequenos estabelecimentos comerciais liderados por goezes ou chineses, vão aproveitando a crise para aumentar, ainda mais os alimentos elementares.

“Ainda no centro da capital, numa das lojas da Maxi, do grupo Teixeira Duarte, havia ovos, mas cada dúzia valia 798 kwanzas (4,5 euros) e pelo único tipo de arroz à venda, também de marca portuguesa, o cliente tinha de pagar 633 kwanzas (3,6 euros) por um quilograma (kg). E mesmo assim pouco mais de uma dezena de pacotes estavam à venda, espalhados de forma a ocupar a prateleira”, esclarece a agência noticiosa portuguesa.

 

Nas cantinas da cidade, um saco de 25 kg de arroz custa 12.500 kwanzas (69 euros)

 

“É duas vezes mais do que custava antes de Dezembro e não pára de aumentar”, desabafa à porta da loja um cliente, queixando-se, além do preço, das limitações impostas por quem vende.

“Estão a vender pouco para guardarem para eles e assim fazerem subir os preços”, disse ao repórter um outro interlocutor que pediu para não ser identificado.

Oficialmente, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE) angolano, a inflação superou os 14% em Luanda durante o ano de 2015, mas têm sido apontadas discrepâncias entre os preços que constam do cabaz analisado pela instituição angolana e o preço real de venda ao público.

Já o salário mínimo em Angola está fixado desde Junho de 2014 entre os 15.003,00 kwanzas (85,7 euros) e os 22.504,50 kwanzas (128,6 euros), consoante o sector de actividade.

Ainda assim, nesta ronda feita pela Lusa, foi possível encontrar numa loja da rede Kero um vinho português Conde Vimioso, de 75 centilitros (cl), por 995 kwanzas (5,6 euros) e logo ao lado um vinho Quinta Pinhanços (Dão), com o mesmo volume, mas por 43.500 kwanzas (245 euros).

Num país onde a água engarrafada é a única alternativa segura de consumo, uma garrafa de litro e meio mais do que duplicou de preço nos últimos meses, mesmo as de produção nacional, e já chega aos 119 kwanzas (67 cêntimos de euro), enquanto as marcas portuguesas dificilmente são vistas nas prateleiras.

Panorâmica da célebre baía de Luanda Foto: José Peixe
Panorâmica da célebre baía de Luanda  |  Imagem (c) José Peixe

Pouco mais custam as cervejas de lata (33cl), que rondam os 120 kwanzas (67 cêntimos de euro) para as marcas de produção nacional e os 140 kwanzas (79 cêntimos de euro) para as importadas de Portugal.

“Um dia destes é mais barato beber cerveja em vez de água”, ironizam, em conversa, dois clientes, junto à preenchida secção cervejeira.

Um litro de óleo custa por estes dias à volta de 700 kwanzas (quatro euros), enquanto 75 cl do tradicional azeite português vale 2.279 kwanzas (12,8 euros) e um pacote de massa esparguete, da pouca oferta existente, já chega aos 245 kwanzas (1,4 euros).

Por apenas um quilograma de pera rocha cobra-se atualmente à volta de 550 kwanzas (3,3 euros) e só a banana nacional, em abundância nesta altura, fica em conta: 158 kwanzas (89 cêntimos de euro) por cada kg.

 

Salários congelados na função pública

Além da falta de divisas, face à diminuição das receitas com a exportação de petróleo, necessárias para garantir as importações angolanas, a população enfrenta o problema da desvalorização do kwanza, quase 40% face ao dólar norte-americano no espaço de um ano, utilizado como argumento para fazer disparar os preços, ao agravar o custo das importações.

Em contraponto, os salários da administração pública continuam congelados, precisamente pelas dificuldades orçamentais do Estado, que viu as receitas fiscais com a exportação de petróleo caírem mais de metade em 2015.

 

Carta aberta ao Presidente de Angola

«Bom dia.
Sua excelência camarada Engenheiro José Eduardo dos Santos, Presidente da República de Angola.

Sua excelência, antes de tudo espero que esteja de Boa Saúde, bem como toda a sua família e bem como aqueles que o rodeiam.

Excelência, escrevo esta carta, porque a situação em Angola é mesmo crítica. O povo Angolano está a sofrer, no mercado paralelo os preços dos produtos básicos sobem de maneira assustadora. Um saco de arroz que custava até uma semana atrás 3000kz,hoje, está a 10000kz; o pão pequeno que era 4 cinquenta, hoje, é 3 cem, e tem muitos outros produtos que eu podia citar, mas apenas citei estes como exemplo.

Sua excelência, o que mais preocupa a população é o silencio das entidades competentes. Elas não dão esperança ao povo que as coisas vão melhorar. Pior ainda, cada dia acordamos com novos preços. Hoje me pergunto onde andam o Ministério das Finanças, do Comércio, da Agricultura, da Indústria e mesmo até a polícia económica?

A fome está demais. Façam qualquer coisa por favor.

CAMARADAS, me desculpem se feri a sensibilidade de alguém, mas eu precisava mesmo desabafar. A barriga já não aguenta de tanta fome. Espero sinceramente que esta CARTA chegue ao CAMARADA PRESIDENTE DA REPÚBLICA, Eng.º José Eduardo dos Santos.
Ajudem-nos!».

Domingos Filipe Camues Filipe

Nota:Carta publicada no www.portaldeangola.com

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