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Segunda-feira, Janeiro 24, 2022

Da Síria ao Iraque

Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

A Síria foi talvez o país em que a Primavera Árabe explodiu de forma mais clara e uniforme. País governado há décadas pela facção síria do partido Baath e pelo clã Assad, a Síria tem o regime mais policial, tirânico e corrupto e com menos legitimidade de todo o mundo árabe.Em resposta a manifestações pacíficas, o regime encarcerou, torturou e assassinou dezenas de milhares de oposicionistas de todas as etnias, credos religiosos e tendências políticas, crime que ficou bem documentado em inúmeras imagens obtidas por desertores do exército sírio. E se essa repressão feroz deu lugar à luta armada que quase tomou conta do país, contrariamente ao que aconteceu em outros casos, o regime sobreviveu graças a dois expedientes.

Expedientes de Assad

O primeiro foi o do apoio armado do regime iraniano, do qual a Síria se tornou progressivamente totalmente dependente. O Irão mobilizou para a Síria combatentes das suas brigadas internacionais constituídas por libaneses, afegãos, iraquianos, paquistaneses e iemenitas coordenados por comandantes dos seus guardas revolucionários, e formou milícias sírias. No seu conjunto, este é o principal destacamento de combate em defesa de Assad.

O segundo foi o da jihadização da sua oposição. Em 2011 os opositores sírios jihadistas foram libertados, tendo formado grupos armados que rapidamente se tornaram dominantes na oposição ao regime.

A Al Qaeda no Iraque que, tal como vários outros grupos terroristas, tinha a sua sede operacional na Síria, foi então também muito útil. Com a bênção do líder Al-Zawahiri, permitiu numa primeira fase aos seus militantes sírios a constituição de uma força autónoma para a luta armada na Síria, Al-Nusra. Numa segunda fase de ruptura com Al-Zawahiri, esta autonomizou-se da Al-Qaeda e entrou como força autónoma na guerra civil onde se tornou a principal força militar exterior ao regime.

ISIS, a queda de Mossul e a redeclaração do Califado

A oposição laica, liberal e não sectária (ou seja, não organizada numa base eteno-confessional) foi totalmente esmagada no processo, e essa foi a primeira e fundamental vitória de Assad. Para isso contribuiu também muito a Irmandade Muçulmana e os seus principais apoios contemporâneos na região, que são a Turquia e o Qatar, e a política suicida do Ocidente que esteve sempre a Leste da realidade no terreno.

Em 2014, com a queda de Mossul e a redeclaração do Califado (na verdade, o líder histórico do que viria a ser o ISIS, o jordano Al-Zarkawi já se tinha autointitulado de califa) a fisionomia geopolítica da região viria a ser vista de forma radicalmente diversa.

Essa queda – em que um grupo estimado em menos de um milhar de guerrilheiros consegue pôr em fuga dezenas de milhares de soldados que deixaram atrás de si tudo, de tanques e artilharia pesada a bancos cheios de ouro e divisas – continua hoje por elucidar. Ela fez do ISIS uma força de primeiro plano, e foi o principal argumento com que o Irão convenceu a Rússia a participar na invasão da Síria e o Ocidente a não apoiar qualquer oposição síria, apoiando mesmo as milícias iraquianas organizadas por Teerão.

A participação do Ocidente face aos atentados do ISIS

Os atentados terroristas com os quais o ISIS deu uma pequena imagem no Ocidente do que desde 2003 faz todos os dias na região, foram o ingrediente necessário para convencer todos de que fazia sentido apoiar – ou em todo o caso não hostilizar – o Irão e os seus satélites, tidos como sendo ‘a barreira ao jihadismo sunita’.

À sombra dessa détente, o Irão conseguiu um dito acordo nuclear e a indiferença internacional perante a sua expansão e apoio ao terrorismo no Afeganistão, Iémen, Paquistão, Líbano, Síria e Iraque

A resistência oferecida pelo ISIS desde 2014 é impressionante e poderá ter envolvido muitos milhares de bombistas suicidas. Mossul – cidade que outrora foi a segunda maior do Iraque – foi conquistada casa a casa numa campanha de muitos meses, e na fase final as forças militares pró-iranianas terão executado todos os que encontraram, incluindo mulheres e crianças.

O papel das as forças curdas na luta contra o ISIS

Entretanto, as forças curdas – tanto aquelas sobre as quais Teerão tem um ascendente, como as do PKK e do PUK, como aquelas que se lhes opõem, como as do PDK e PDKI – desempenharam um papel fundamental na luta contra o ISIS e outros grupos jihadistas. Mais preocupante ainda para Teerão, os EUA fizeram entrar em cena tropas especiais em apoio das diversas facções curdas e quebraram as práticas anteriores de condicionar o apoio em armamento à anuência de Ankara e Bagdade.

Com as operações ofensivas contra o ISIS tuteladas pelas forças americanas, todo o cenário se altera. O Hezbollah – secção libanesa dos guardas revolucionários iranianos – acorda com o ISIS a transferência de centenas dos seus combatentes da fronteira libanesa para a fronteira iraquiana, Al Bukamal, que desde 2003 foi a sede operacional do grupo para operações no Iraque.

A manobra militar iraniana destina-se aparentemente a conter o avanço das forças especiais americanas e seus aliados árabes e curdos da Frente Democrática da Síria – que parecem inclinados a descer o Khabur, perto da fronteira sírio-iraquiana, ameaçando cortar o corredor Irão-Mediterrâneo.

Como sairá Teerão desta conflito?

Mas este recurso ao ISIS por parte de Teerão põe de novo a nu onde estão os seus interesses essenciais. A transferência das forças do ISIS organizada pelas forças leais a Teerão é publicamente defendida por Nouri Al Mailiki – o ex-Primeiro Ministro iraquiano responsável pela queda de Mossul e totalmente alinhado com Teerão – mas é violentamente criticada pelos principais actores xiitas iraquianos, Moqtada al-Sadr, líder da mais importante força política homogénea iraquiana, o Primeiro-ministro al-Abadi ou o principal líder religioso Xiita iraquiano, Ali al-Sistani.

E assim, ao mesmo tempo que parece ganhar militarmente na Síria, Teerão arrisca-se a perder diplomaticamente a sua principal conquista, o Iraque, sendo que continua a não ter assegurado o seu principal objectivo estratégico de ligação ao Mediterrâneo.

Mais do que a missão apoiada pelos EUA ao longo do Khabur, o principal palco da confrontação vai voltar a ser agora inevitavelmente o Curdistão. Iremos voltar a esse tema.

 

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