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João de Sousa

Sexta-feira, Outubro 22, 2021

Dentro do problema da água contaminada em Flint, nos EUA

Flintwater
O site Democracy Now apresentou um relato alargado da situação da água contaminada em Flint, estado norte-americano do Michigan.

O caso remonta a 2014, ano em que o governador Rick Snyder nomeou um gestor de emergência para fazer uma mudança no sistema de abastecimento de água: a fonte, que era o sistema de Detroit há meio século, passou a ser o rio Flint. Pouco tempo depois, os habitantes queixavam-se de que a água cheirava mal e que estava com problemas na cor; cedo se descobriu que a mesma estava contaminada com trialometanos, substâncias cancerígenas, e bactérias.

Um surto de doença do legionário atingiu Flint, matando 10 pessoas. Enquanto isso, a água corrosiva do rio Flint ia desgastando o já antigo sistema de canalização e adquiriu chumbo, que pode danificar o sistema nervoso central, especialmente em crianças.

O caso veio a público, o FBI abriu uma investigação, funcionários públicos do estado do Michigan foram expulsos de funções, e tanto o governador daquele estado como membros de topo da administração podem ser acusados criminalmente, até de homicídio.

Amy Goodman, membro do Democracy Now, entrevistou várias pessoas da cidade de Flint sobre o assunto. A activista Claire McClinton, da Liga da Defesa da Democracia, que tem protestado contra a situação da água contaminada da cidade, acusou o governador de querer “privatizar serviços e vender bens públicos”, dando o exemplo da privatização dos serviços de recolha do lixo e dos parques da cidade. “Existe um esforço coordenado e agressivo para privatizar os serviços de água. E isto levou à catástrofe da água envenenada”, sublinhou Claire McClinton.

A entrevistada recorda que o discurso oficial era o de que, enquanto se faziam obras de renovação das canalizações, o abastecimento de água se faria a partir do rio, “aquele onde a General Motors despejou toda a sucata e lixos, com toxinas industriais e coisas do género”. E as acusações prosseguem: “Isto não é apenas um problema da água, é um problema de democracia. Um problema de ditadura”.

Audrey Muhammad, outra habitante de Flint e membro do movimento de protesto, partilhou a água engarrafada que comprara com outra pessoa, que explicou: “É para o meu neto, um rapaz, estou preocupada com ele”. Audrey tem de pagar a água canalizada enquanto se vê obrigada a comprar água mineral para beber água com qualidade.

8434153_1453314437.1111“Não me parece justo ”, disse Kawanne Armstrong, a quem Audrey cedeu água engarrafada. Descreveu a água da torneira como tendo “um cheiro a ovos podres” e que, quando a temperatura na cidade era mais elevada, a água tinha uma cor castanha-escura, passando a cor castanho-dourado. Quando técnicos voluntários foram a casa de Kawanne testar a água, deu positivo para chumbo.

Outro activista da Liga, Nayyirah Shariff, disse ao Democracy Now que o movimento está a distribuir de forma gratuita filtros de substituição para tentar melhorar a qualidade da água canalizada, e que “muitas pessoas pelo estado sentem que a resposta do governador a esta crise foi desadequada e, de facto, uma violação dos direitos humanos”. Shariff está disposto a assinar petições, se isso for necessário, mas sublinha que a população tem direito a estar informada sobre o problema da água e que são precisas soluções de longo prazo, independentemente de quem está à frente do governo daquele estado. “As canalizações serem repostas, cuidados médicos adequados para quem foi atingido por esta crise”, esclareceu Nayyirah Shariff.

Uma outra organização não-governamental, Crossing Water, que tem como membros bombeiros e paramédicos, vai a casa das pessoas das cidades afectadas para ver se precisam de água engarrafada ou filtros para a água canalizada; além disso, procuram também ajudar quem tenha outro tipo de necessidades, como pessoas idosas a precisarem de cuidados.

Melissa Mays, uma habitante de Flint, foi uma das vítimas da água contaminada: os três filhos menores sofrem de anemia, dores ósseas e o sistema imunitário comprometido; ela própria tem diverticulite (inflamação nos intestinos que se caracteriza por bolsas e quistos) e já se submeteu a uma biópsia ao fígado.

Quanto às declarações do mayor da cidade, que anunciou um investimento de 55 milhões de euros para substituir as principais condutas de abastecimento, esta habitante de Flint acredita que é um começo, mas no que respeita ao governador Snyder, “é um obstáculo a que consigamos os fundos necessários para ter as condutas substituídas, para termos equipas no terreno para começar isto”.

“Ele tem de sair do cargo. Não mostra qualquer preocupação real. Não se esforçou para corrigir os erros”, acusa Melissa. Recordando que, após o 11 de Setembro, um dos maiores medos da população era que os terroristas envenenassem a água da população de uma grande cidade, a habitante de Flint diz que, apesar do país não estar em guerra, “mais parece que estamos, porque uma cidade inteira viu o seu abastecimento de água contaminado pelo governo estatal. E permitiram que isto continuasse. Eles sabiam disto em Outubro de 2014”.

A 6 de Março, acontece em Flint um debate que antecede as primárias do Partido Democrata. Melissa exige dos dois candidatos, Hillary Clinton e Bernie Sanders, que digam o que vão fazer sobre este caso se chegarem à Casa Branca. “Isto está a acontecer noutras cidades, e a injustiça ambiental tem de acabar. Eles têm de pôr um fim nisto. Têm de parar de ignorar o problema, esperar que desapareça”, defendeu Melissa.

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