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Sexta-feira, Outubro 7, 2022

As desaparições de Maio

Alexandre Honrado
Alexandre Honrado
Historiador, Professor Universitário e investigador da área de Ciência das Religiões

Historiador, Professor Universitário; investigador da área de Ciência das Religiões

Impõe-se um avanço com cuidados duplos nesta matéria que agora escrevemos. Não se prende o cuidado – ou as ressalvas – com o menor tipo de autocensura e muito menos com o medo da censura, até porque do nosso lado temos a Constituição, a Lei, e uma Democracia que, pelo menos, nos proporcionou o legado da liberdade da expressão, ente outras conquistas que ainda hoje sufocam o autoritarismo e as diversas formas fundamentalistas em que se mascara.

Não desejo, ao mesmo tempo, incorrer no facilitismo das teorias da conspiração, mas muitos anos de comunicação e de informação (são coisas bem distintas) e outros tantos de cidadania obrigam-me a reflexão.

Impõem-se os cuidados do jornalismo – especular é traí-lo – e da profissão do historiador – os factos sobrepõe-se sempre à ideia que deles fazemos.

Tudo isto teve como germe um artigo publicado no Jornal Tornado, publicação online que, pelo menos no domínio da opinião, tem, felizmente, provocado o contraditório – e incomodado muitos.

Permita-se-me acreditar que o jornal nasceu para isso mesmo, como os jornais deviam nascer: para a liberdade, para o livre exercício do pensamento, para irem à praça pública e acarretarem as consequências, mas gerarem contraditório e aguentarem-se na defesa do que afirmam.

Não é isto porém o que se trata aqui – e quero afastar-me do tom de Editorial que isto parece começar a ter. Editorial, esse sim, a provocar tudo isto foi o de João de Sousa, datado de 25 de maio último, sob o antetítulo O RATO PARIU UMA MONTANHA e o título, direto a desafiador (pelo menos, a desafiar um contraditório legítimo e direto): Sr. Cardeal? É melhor ir falar com o Chefe.

Para que nem fique sombra, o Cardeal é o Patriarca português e o chefe é o do Vaticano, o popular Papa Francisco, que granjeou simpatias à sua esquerda e que tem sido um espinho – para usar metáfora cristã – na carne pecadora de muitos dos seus administrados.

Já aqui disse – e repito – que em quase todas as estruturas de crença – e religiosas – há fundamentalistas temíveis e nelas, regra geral, as boas intenções dos fiéis acabam por encontrar, mais cedo ou mais tarde, os seus piores inimigos.

Não me apetece analisar o texto do João de Sousa, com o qual discordo e concordo (estou no meu direito e as suas afirmações são generalistas e não abrangem a totalidade do que há de mais terrífico da realidade que aborda), mas o que se passou com ele.

Muita gente discordou do mesmo, mas outra tanta concordou. Como é hábito nos textos do Jornal Tornado, muitas pessoas quiseram partilhar a prosa, colocando-a online e em grupos das redes sociais – o Facebook à cabeça, claro – mas depararam com um fenómeno: o texto ou simplesmente não se deixava partilhar, ou desaparecia dos grupos que o publicavam, instantes depois de virem à leitura pública.

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Como um rastilho, o texto (que tinha o peso que tinha) passou a ter um peso muito maior – como um mártir, como um miraculado. Meia população facebookeana já tem o texto consigo e já o comentou em público e em privado (parabéns, João; parabéns hipotéticos censores, é assim que se alcança o degrau cimeiro da popularidade).

O contágio foi evidente e a suspeita enorme: alguém está a censurar (n)o Facebook! A grande mácula é que o Facebook não tem rosto – mas tem antecedentes (já censurou imagens, sons, ideias, com um moralismo surpreendente e ambíguos critérios de escolha). Uma suspeita desta índole, mesmo sem provas evidentes, não deixa de ser uma hipótese a explorar, portanto. Tanto mais porque se trata de matéria delicada: religião – e poder.

Pelo mundo, os casos de censura – mesmo nas democracias – são intensos, densos, espessos, sinistros, grilhetas ao bem comum, atentados aos direitos humanos – e ao bom senso, em primeira instância. Incomoda mais a Igreja Católica que lhe ponham um dedo acusador em cima, num jornal como o Tornado, do que vê-la manipulada noutro jornal que quer que acreditemos em milagres novos de dúvidas velhas, um sol a rodopiar e os peregrinos a saltitar, para vendas e audiências do órgão de comunicação e das lojas locais onde o “fenómeno” alegadamente ocorreu.

Religião e política são uma combinação explosiva. Mas a política religiosa é, ela por si, um paiol de munições. Neste momento, as pessoas de boa fé de um jornal de boa fé – o Tornado – procuram junto dos engenheiros informáticos e de outros especialistas, uma prova que desminta as… desaparições de maio, deste artigo do João que quisemos (em vão) partilhar nos nossos grupos de reflexão e discussão.

Os jornalistas e os historiadores (como os investigadores policiais ou judiciais) são opostos aos crentes – precisam de provas materiais para tirar as suas conclusões. A diferença é que os jornalistas e os historiadores perante a mentira não fazem justiça: mudam a história. E é com uma fé laica e não confessional, de quem é peregrino destas buscas há muitos anos, que ouso agora desejar intimamente que se tratou, e tão somente, de um desses erros informáticos de que a nova era digital é pródiga, para mal dos nossos pecados (perdoem-me a redundância).

Nota do Editor:

O Editorial referido no texto é Sr. Cardeal? É melhor ir falar com o Chefe

Este texto respeita as regras do AO90.

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