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João de Sousa

Sábado, Dezembro 3, 2022

Elogio às Guerreiras e Guerreiros deste Mundo

Ana Pinto-Coelho
Ana Pinto-Coelho
Aconselhamento em dependências químicas e comportamentais, Investigadora Adiction Counselling

… Anda a hipocrisia à solta. A Humanidade perdeu a consciência da sua própria consciência. E uma rajada de loucura e ódio revolve tempestuosamente o mar de lama em que a sociedade se submerge.”, escreveu-nos o mestre José Manuel Sarmento de Beires na sua utópica obra “A Cidade do Sol”, que podia bem – e à semelhança de muitas outras – ter sido escrita hoje.

O Pensamento, quando é obrigado a seguir em frente, esquecendo-se das limitações violentas de um dia-a-dia sempre a empurrar para dentro as ideias, mantém-se elevado.

Com a idade – e tudo o que ela de bom nos trás -, para além de elevado passa a ser mais puro. Mais distante das quizílias com que passamos a ver, cheios de pena, debaterem-se com veemência os que ali ficaram, soterrados no que tem de ser: no que se vê nas televisões, nas redes sociais, no que a falta de “ar intelectual” – ou algum susto de morte  – impede a evolução. Ou o crescimento. Sem um abanão, as pessoas vivem uma vida inteirinha sem se aperceberem que estão a ficar-se por ali.

É por isso que não conseguem ver mais do que um palmo à frente do nariz, mesmo que seja em 360º. E as suas vidas vão passar a limitar-se à crítica do outro, às ideias fechadas e previsíveis – sempre previsíveis – ao interesse pelo mesquinho, mas que passou a altar sagrado da importância, e ao desinteresse pela razão, pelo belo, pela existência pura do Ser.

Alguns acordam do estertor. Das revoltazinhas rascas do dia-a-dia. Acordam um dia, tristes. Vieram de uma situação traumática, de um processo de auto-destruição que venceram, de uma fuga à morte (só por mais um tempo…). Vieram de guerras heróicas com a saúde, com a Vida, consigo próprios. Chegam, guerreiros e guerreiras, cansados. Esgotados. Humildes. Perdidos.

Olham ao lado e sentem que estão sozinhos. Sentem-se sozinhos. Já nada do que faziam lhes interessa, já nada do que os outros continuam a fazer com as cabeças metidas nos seus túneis, os interessa.

Usando umas redes sociais e espirituais que desconheciam, muito embora tenham estado sempre mesmo ali ao lado, vão descobrindo mais gente assim.

Mais gente?

Descobrem que não estão sozinhos.

Esta rede de guerreiros e guerreiras – gosto de lhes chamar assim, porque conheço alguns e outros sinto-lhes o espírito à distância de um olhar ou de um click do rato – paira acima das intrigas políticas, sociais, desportistas, cheias de fome de ódio, de rancor e lassidão. Acomodaram-se. Alimentam-se daquilo. Sugam o tutano uns aos outros. Discutem. Criticam para abater. Confrontam-se e gritam sem ouvidos.

A Cidade do Sol é feita destas pessoas que vieram das “gentes”. Vão-se reconhecendo pela serenidade, pela indecisão sobre a nova moral que os move, e que não encontram em mais ninguém.  São habitantes que começam segundas vidas, nascidas de um processo penoso de morte ou de um acordar que lhes era destinado acontecer.

Como em tudo na vida, temos escolhas. Enquanto todo um mundo se agride, hostiliza e anda cheio de si próprio, de ego inflamado, um outro, mais pequeno, anda subtilmente à procura das Origens e do Grande Final, vivendo com gratidão e humildade o seu dia-a -dia.

Tudo o resto ficou lá em baixo. Lá longe. Irreconhecível.

Passa a doer olhar para aquela massa triste mas segura de si. Massa que nunca mais viu do que aquilo.

“A pessoa que possuir um mesmo grau modesto de poder psicossomático sentirá muitas vezes os pensamentos, ideias, emoções e outros estados mentais daqueles que o cercam, e conhecerá, sem ser pelo meio ordinário das palavras, o que os outros pensarem e sentirem ao mesmo tempo”, conta-nos William Walker Atkinson, no seu Practical Psychomancy and Crystal Gazing, que Sarmento de Beires possuía em tradução.

Sem surpresa. Eles andam por aí. Melhor ainda: encontram-se e reconhecem-se.

Com surpresa passam a olhar, de cima para baixo, no que andavam metidos.

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