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João de Sousa

Quinta-feira, Agosto 5, 2021

Nunca sim ao abandono

João Vasco AlmeidaO abandono de idosos devia ser crime. PS, BE e PCP chumbam agora a proposta do PSD e CDS, que não foi a tempo de regulamentar a medida.

Não se entende. A esquerda diz que se abandonar for crime, isso desresponsabiliza quem abandona e não protege o abandonado. Que o PSD e o CDS querem mascarar com a lei o modo arrasador como trataram os mais velhos, enquanto foram governo. Que os “especialistas” dizem não.

Certo! Mas que tem a ver criminalizar um hediondo comportamento com a política estúpida da direita? Às vezes a veia do contra da esquerda estupidifica-a. E isso é mau.

O abandono de quem quer que seja, dependente e a precisar de ajuda, incapaz de se valer a si mesmo e com legítimas expectativas de auxílio, deve mesmo ser reprovado como crime. Há dias um casal japonês fez sair o filho de sete anos do carro para o “assustar”. Lixaram-se, que o puto andou perdido dias na floresta e, encontrado ontem numa cabana abandonada do exército, deve agora ser retirado – e bem – aos pais.

Se criminalizamos o abandono de crianças, se criminalizamos a recusa de auxílio, o abandono do peão atropelado, que mal terá impor como crime o abandono de nossos ascendentes, que nos deram vida e pão, numa cama de Hospital.

Não.
Não.

Sim, há casos em que é a última vingança, talvez mais-ou-menos justa: aquele idoso foi um homem de 40 anos que batia a cinto e ferros no que agora abandona.

Sovina, maldoso, bruto, esse mesmo abandonado que há muito abandonara filhas e filhos, saído do inferno que foi a infância de quem agora o abandona.

Mas não podemos olhar para isto como a regra. Por haver muitos de 40 agora mesmo, maldosos e indolentes, egoístas, que darão aos outros, mais velhos, a pira e a guilhotina do abandono.

A palavra crime quer dizer ofensa. A sociedade pode ou não sentir-se ofendida com o abandono de uma pessoa por outra. Não pode aqui haver uma guerra ideológica. Não é Simão Bolívar que está a abandonar os espanhóis no hospital dos jesuítas. É gente que abandona os seus.

E a criminalização do genocídio silencioso não exime a comunidade de ter a obrigação de cuidar do abandonado.

Às vezes a esquerda parece mais velha e conservadora, mais ressentida, mais temerosa da responsabilidade. É pena. Um dia acaba abandonada, por causa destas suas divagações nada humanistas.

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