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João de Sousa

Terça-feira, Maio 24, 2022

Espírito Santo do horror

A população do estado do Espírito Santo não merece tamanha trágica ironia. Aquele ser que na liturgia católica se descreve como Deus, a terceira pessoa da Santíssima Trindade – Pai, Filho e Espírito Santo, hoje no Brasil significa Temer, Caos e Horror.

A Segurança Nacional, no sentido policial – pois a segurança já não mais existe em matéria de direitos trabalhistas, educacionais, saúde, previdência e cultura – solta os últimos suspiros ao privar cidadãos do direito à própria vida e sossego.

Há mais de um mês corre insegurança por quase todo Brasil, do Amazonas ao Rio Grande do Sul. Se antes se concentrava nos presídios onde cabeças de presos rolavam para fora dos muros, onde homens foram estripados, agora pulou o cerco e atinge as ruas onde moram os chamados cidadãos livres.

“Cidadãos livres”, desculpem. Não precisamos ser irônicos. As notícias mais reprimidas, que não querem causar pânico – como se o pânico não fosse a própria condição natural frente à morte bárbara – agora saem pelos poros dos jornais uniformizados.

Espírito Santo

Ao menos 58 homicídios foram registrados desde sábado em todo o estado do Espírito Santo, quando um movimento de mulheres e familiares de policiais passou a impedir que eles saíssem às ruas.

No Departamento Médico Legal, em Vitória (capital),  segundo o Sindicato dos policiais, há corpos espalhados pelos corredores da instituição por falta de espaço e de pessoal para a realização das autópsias. Existem arrastões (bandidos que atacam em grupos organizados) e arrombamento de várias lojas no comércio de rua e também em shoppings.

Uma reunião para acordo entre governo e  grevistas não resultou produtiva. “Tentaram empurrar a gente com a barriga. Todos os batalhões vão continuar fechados ”, disse a enfermeira Leide Rodrigues, 45, casada há 30 com um militar. “Não chegamos a um acordo porque quem estava ali não tinha poder de decisão. E as esposas dos policiais vão manter o movimento”, completou o major Rogério Fernandes Lima, presidente da Associação de Oficiais Militares do Espírito Santo.

Mulheres à frente

O curioso é que numa terra de machismo, os homens dizem que estão em greve porque suas mulheres não lhes permitem sair. A razão é esta: pelo Código Penal Militar, os policiais militares são proibidos de protestar, fazer greve ou paralisação. A pena para o policial que tomar parte em atos desse tipo pode chegar a dois anos de prisão. Por isso, o movimento é organizado pelos familiares e mulheres dos militares.

O site do governo estadual tranquiliza nestes termos:

“Em coletiva de imprensa realizada no Palácio Anchieta, na tarde desta segunda-feira (06), o governador em exercício, César Colnago, o secretário de Segurança Pública, André Garcia, e o comandante-geral da Polícia Militar, Nylton Rodrigues, anunciaram a chegada de 200 homens da Força Nacional e do Exército, com suas viaturas, entre a tarde de hoje (06) e amanhã (07)”. 

Precisa falar mais sobre o profundo ridículo de uma força de 200 homens para conter incêndios e número recorde de homicídios?

O governo está de tal modo alarmado, apalermado, que não dimensionou a quantidade de homens do Exército brasileiro que irá para as ruas do Espírito Santo.

O crime nacionalizou-se

O Ministro Raul Jungmann justifica, com a flagrante “nacionalização dos crimes”, o envio de tropas militares a diversos estados do país que enfrentam desde revoltas em presídios a greves de policiais militares.

O que será outro ridículo, convenhamos. Soldados são treinados para combater inimigos externos. Os jovens das Forças Armadas não estão preparados para fazer serviço de rota, patrulhamento urbano. Será o caos colorido de verde-oliva. Para os bandidos, não importa quantos recrutas estejam nas ruas. O exército, mesmo o poderoso, não foi feito para isso, apesar dos apelos dos loucos fascistas que pedem a volta dos militares em uma nova ditadura.

O genial Barão de Itararé, o grande humorista da esquerda brasileira, diria que este governo não é mais o Estado, é apenas o estado a que chegamos. O que acontece agora no Espírito Santo é sinal e anúncio do que vai se repetir em greves de policiais de outros lugares.

No Brasil, Temer passou a ser o nome próprio de um verbo: temer.

Os autores escrevem em português do Brasil

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