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João de Sousa

Quarta-feira, Outubro 27, 2021

Estudantes deslocados de casa clamam por voto electrónico

Voto dos Estudantes

Porque é que os estudantes no estrangeiro praticamente não votam?

E porque é que, querendo fazê-lo, se lhes complica tanto a vida, quando são afinal eles quem leva realmente a sério uma carreira profissional, investindo em estudos superiores? E mais: saindo do país.
E os que estudam cá mas fora das suas cidades? A

Os estatutos resumem isto tudo a quatro linhas, mas pelo menos são honestos: tem mesmo que se votar antecipadamente e conhecer os meandros. Diz assim:

“Sou estudante no estrangeiro e, por essa razão, não posso deslocar-me ao meu local de voto no dia da eleição – posso votar antes?

Sim.  Para votar antecipadamente, deve dirigir-se  às representações diplomáticas, consulares ou às delegações externas dos ministérios e instituições públicas portuguesas previamente definidas pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, entre o 12.º e o 10.º dias anteriores à eleição, indicar o seu nome e número de eleitor, identificar-se e apresentar um comprovativo do impedimento de deslocação à assembleia de voto no dia da eleição. Após isso, vota e é-lhe entregue um recibo.”

Portanto, jovem estudante ou similar, toca a fazer contas ao tempo já, mesmo que tenhas acabado de aterrar num mundo novo, estranho e exigente.

Terem de calcorrear quilómetros. Quem lhes paga o comboio ou o autocarro para irem à sua área de residência votar? Ninguém. E, portanto, não votam.

Vamos somar todas estas pessoas e vamos falar de abstenção forçada. Não é porque não queiram. É porque não podem, é complicado, é caro. Porque obriga a um agendamento, deslocações, faltas e perda de ritmo. E, para somar a toda esta dificuldade, nem tempo têm para se certificarem da sua decisão, pois o tempo urge e é obrigatório o envio do voto muito antes do término das campanhas e dos últimos trunfos de parte a parte.

Chama-se  Patrícia

“Às delegações do quê? Onde são, como lá chego, quem me atende, que idioma falam? Ainda mal conheço isto, tenho que me focar nos estudos…Eu até queria votar, mas honestamente não posso perder tempo a interpretar isto, quanto mais a fazer esta produção”, conta-me Patrícia, estudante na Edinburgh Napier University, Escócia”.

“ Se houvesse voto electrónico votaria com toda a certeza. Quanto às campanhas, não me servem como esclarecimento. Não há tempo. Nem sei de nada”.

Chama-se Rodolfo

“Sou eleitor pelo distrito de Santarém. Estudava e residia em Guimarães. Como as deslocações para ir votar eram caríssimas e demoravam imenso tempo, contactei por email a Câmara Municipal do concelho onde sou eleitor. Pediram-me cópias dos meus documentos de identificação, certidão do estabelecimento de ensino e documento do voto antecipado devidamente preenchido assinado.
Um mês antes da data das eleições reuni a documentação pedida e enviei tudo
por  email.  Recebi a documentação que me permitia votar uns dias depois e fui contactado pela Câmara Municipal de Guimarães de forma a acordar um horário para poder efectuar o meu voto.
Votei uma semana antes da data de eleições e sei que o meu voto foi o primeiro a entrar na urna da freguesia onde sou eleitor. Devo confessar que fiquei com algumas reservas sobre a manutenção do segredo de voto. Mas pior: como estava indeciso à data (antecipada)  houve aspectos da campanha, nessa última semana, que poderiam ter alterado o meu sentido de voto.”

E este é o Vitor, de Leiria…

“Sou estudante universitário. Estudo em Lisboa e moro em Leiria. Devido à burocracia envolvida, apesar de votar a 130km de onde vivo regularmente prefiro  fazer todo o trajecto a tentar votar antecipadamente.” Quanto gasta o Vitor, para poder votar, só porque escolheu ir para a Universidade?

E a Matilde, no caminho inverso, é de Lisboa e estuda no IPL, em Leiria. A Matilde vai tirar da sua curta mesada dinheiro para ir e voltar a Lisboa. Faz questão de votar. Mas custa-lhe caro ter essa consciência cívica. Noutra altura vai provavelmente fazer parte dos números da anstenção.

Cecília, aluna de Psicologia na Universidade de Coventry, em Inglaterra, também não vai conseguir votar. “Seria obrigada e deslocar-me cerca de 300 quilómetros para me registar e mais 300 para ir e vir a Manchester votar”, explica. “Não se percebe como é que ainda não é possível o voto electrónico”.

A Patrícia ainda não pensou muito no assunto, mas não lhe desagradaria ficar em Edimburgo, onde “as pessoas são mais felizes” e onde se adaptou bem à residência e à cidade, que adjectiva com um sorriso. Votar seria uma forma de a manter um bocadinho ligada ao seu País e às grandes decisões políticas. Mas ninguém a ajuda. “No fim de contas, acho mesmo que daqui a uns anos em Portugal vão morar apenas velhos e imigrantes. A exclusão dos que estudam agora nas Universidades, no estrangeiro, começa no acesso ao voto e termina onde eu quiser…”, diz já sem pena.

Resta concluir que existem 270.530 residentes no estrangeiro que podem votar. E que o total de alunos no ensino Universitário e Politécnico soma 362.200 (dados de 2014, PORDATA).

Alunos no Ensino Universitário no Estrangeiro, fora do Erasmus, não estão sequer contabilizados. Provavelmente não existem. Tal como a abstenção a que são obrigados, dadas todas as circunstâncias e que não se comenta.

É que estudar fora não é sinónimo de Erasmus há muitos anos.

E Votar é um direito que lhes devia assistir sem complicações.

Dever cívico é fazer o voto electrónico ser possível para toda esta gente pensante e activa que decidiu seguir o caminho dos estudos superiores. E que por isso não está em casa para ir às urnas do costume.

Um direito que lhes é negado num mundo totalmente digitalizado em que tudo corre e se faz à velocidade da luz. Votar electronicamente é eficaz, limpo, livre e, acima de tudo, a expressão de um futuro. Mesmo que esteja a estudar fora de portas por qualquer motivo.

 

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1 COMENTÁRIO

  1. […] Os milhares de estudantes universitários que se encontram fora do país são, de facto, o principal…, já que, para os autores, os jovens “querem participar activamente no presente e futuro do seu país com a única arma de que dispõem: o voto”. Contudo, exercer este direito fundamental “é tão complicado que o estudante ou trabalhador desiste”. […]

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