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Quarta-feira, Outubro 27, 2021

Eu, pronome indefinido

Beatriz Aquino
Formada em Publicidade e Propaganda. É escritora e atriz de teatro. Nascida no Brasil a viver em Portugal.

Descobri que tudo o que o realmente importa está na irrelevância das coisas. O rio quando seca, o pó que levanta quando alguém bate os sapatos, o modo que o sol brilha por cima da poeira que eles fazem e só.

O absurdo é algo tão simples, tão fácil de produzir. Difícil é o métrico, o acertado, o objetivo.

Venho tentando escrever sem réguas e sem escalas assim como se respira sem recortes, sem pausas, hesitação ou espanto. Vamos à  isso:

Decerto que há um segredo na pele que cobre as unhas de cada ser vivente. Por que ninguém nunca escreveu sobre isso é que eu não sei.

Aliás, o não saber deveria ser um exercício diário, algo a ser estudado, difundido nas escolas, nas universidades e possuir uma sala inteira na Alte Pinakothek de Munique. A nossa ignorância deveria ser exibida no Louvre e saudada à meia haste na bandeira de algum país frio e civilizado. Os jovens e as crianças deveriam se dedicar ao ofício do não saber por no mínimo doze horas por dia. As outras doze eles usariam para jogar pedras na lua ou para tentar agarrar com linha de pesca a cauda de libélulas azuis.

Veja que mesmo quando me esforço para escrever a esmo, obedecendo apenas ao fluxo da minha mais genuína verdade, sou falha e corrupta. Tão cheia de preconceitos e códigos é ainda a minha escrita. Tão feita para impressionar.

Esse vício que temos de ser retumbantes é que nos mata aos poucos. Um suicídio mental tremendo essa coisa de êxito. Queria mesmo a liberdade do idiota, mas eu não possuo a grandeza da sua honestidade. Tão adicta que sou à convenções.

É verdade que quando escrevo meus dedos correm ágeis pelo teclado, mas eles não são livres. Mesmo pintados de rebeldes eles ainda obedecem ao comando das minhas sinapses condicionadas:

“Um pouco de humildade aqui, um tanto de auto comiseração ali, uma crítica velada ao fulano acolá e no final, para arrematar esse varal exibicionista de palavras rebuscadas, uma mea culpa, um quê de solidão, um olhar perdido no horizonte que somente um trio de pontos reticentes podem emprestar e bingo! Cá está!”

“Brilhante!” Dizem. “Tocante.” Comentam. E eu não vejo nada. Nada além de um monte de arames retorcidos ao bel prazer da minha vaidade.

Todo escritor que se prezasse deveria olhar para um papel vazio meia hora por dia. Não para sofrer, mas para se dar conta do seu tamanho diante da imensidão do vazio. E finalmente essa mania de pincelar de cores mortas o que já foi dito acabaria.

Não lhe parece por vezes que somos apenas um punhado de autômatos bêbados repetindo sílabas centenárias? Nunca percebeu ao se olhar no espelho barato de algum banheiro público ou no reflexo rápido da janela fosca do metrô o quanto somos ridiculamente disformes? Zumbis. Limpinhos decerto, sem essa coisa da cabeça pendendo e as vísceras à mostra porque já aprendemos a socializar, mas zumbis repetindo fatos e refatos (existe essa palavra?).

Voltaire disse assim, Baudelaire disse assado. E porque Foucault escreveu um verbo eu me dou o direito à um tiro na testa. Ou dois se possível for.

Clarice Lispector era densa e circunspecta por isso eu tomo três Valiuns à noite e cuspo nas coisas simples durante o dia. Ou as amo demasiadamente. Conseguem imaginar a cena? Eu não.

Sempre que tento escrever à esmo os dedos só imprimem loucura e escárnio. Por isso logo volto ao modo “gracinha genial” que é o avatar “moça bem educada e inteligente”, o tipo mais fácil de agradar à  todos. À todos. Pôxa…

Veja que de dedos assim tão frágeis e alvos não deveria sair nenhuma raivazinha sequer, nenhum protesto que seja, nem lamúria, nem nada, apenas o brando cinismo das coisas já refletidas pela milésima vez.

Notem que basta olhar de um ângulo específico que todo mundo se parece. Da Bavária ao Piauí no fundo todo mundo tem as mesmas fuças, o mesmo ar desorganizado e perdido.

Que martírio essa coisa de ser. De saber então nem se fala. Desde que o infeliz do primata inventou de jogar aquela tocha de fogo pro alto e dar o grito de independência da sua ignorância que o então homem conheceu o sofrimento.

“Ah, mas ele inventou maravilhas desde então.”.
Me dirão.

Decerto. Decerto. A roda, a penicilina, o café, a pinça e o pudim de leite (é tudo que consigo pensar como evolução humana). Mas com tudo isso veio a obrigação do empreender, e o pior, a obrigação da compreensão das coisas. De todas elas. Das coisas da terra, do ar, do mar e do universo. Que maçada. Não há nada mais frustrante do que a falta de capacidade de não saber.

Desde então tem sido uma peleja essa coisa de ser homo sapiens. Um segundo de maravilhamento para uma tonelada de dúvidas. Isso sem contar a sina diária de ter que assistir à outras trocentas mil criaturas que acham que são sim a própria maravilha, a própria quintessência cósmica. Putzgrila, uma pessoa dessa não deve ir ao banheiro ou se vai, pratica algum tipo de meditação quântica que o exime de estar consciente durante o humilde exercício de limpar o traseiro. Eu digo que se não nos distraíssemos tanto com os espelhos pomposos dos nossos banheiros e com toda a parafernália anti-humana que inventaram para nos dar a impressão de que somos semi-deuses-auto-limpantes-com-odor-de-flores-do-campo-ao-som-de-mozart, seríamos sem dúvida muito mais reais do que somos. A higiene é por vezes um problema grave para o ser humano. Basta ele botar umas gotinhas de água de colónia e receber um tapinha nas costas pra criatura sair se sentindo o deus do olimpo ou o dono do morro da esquina.

Mas o fato é que cá estou eu novamente sentando o pau na raça, coisa corriqueira pra mim. Talvez mais um modo de despistar algo que eu realmente quero escrever, mas que o cinismo não deixa.

Por isso eu confesso que tudo que sai aqui por mais que pareça cru e verdadeiro é nada menos do que mais uma esfarrapada desculpa. Mais uma elaboração que tento encontrar para essa minha imensa inadequação com tudo e com todos.

Mas eu dizia que o irrelevante mesmo é o que conta, o absurdo é que é fácil. O duro mesmo é essa coisa do meio, essa mania que temos de andar com um pé na lama e o outro no meio fio. Porque já nascemos devendo um parecer. Que mania. Pra que explicar quando tudo o mais já é uma grande desculpa? O que são os livros senão tentativas desesperadas de entendimento? E os prêmios literários não são um modo de reunir esses desesperados em torno de algo em que alguém possa abraçar?

As fogueiras são as mesmas. Só mudam os aditivos de combustão. No final estamos todos correndo feito loucos pelas ruas tentando agarrar o tempo com as mãos. E ele ri em nossa cara uma gargalhada cansada e já sem graça. Nem os milênios que as estrelas carregam aguentam a nossa já batida presunção.

Sim, no fundo estamos todos em volta da mesma fogueira, coçando a cabeleira neandertal farta de piolhos.

Eu penso que um dia acordaremos dessa imensa egotrip evolucionista e voltaremos aos dias de antes, à estaca zero, ou melhor, à estaca nenhuma já que até ali ninguém havia estabelecido parâmetros.

A agonizante corrida do “ser ou não ser” finalmente acabaria, o fogo seria apenas algo quente, eu daria um grunhido pra você que tanto poderia dizer vamos dormir, ou vamos trepar (não sabem o quanto custou aos meus dedos digitar essas duas últimas palavras).

Então viraríamos pro lado depois do ato e comeríamos felizes a carcaça de algum bicho, esse sim sábio, tenro e apetitoso. E pronto. Dormiríamos o sono tranquilo dos ingênuos.

Ah, o não saber…


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