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Terça-feira, Maio 28, 2024

“European Dream”?

João de Almeida Santos
João de Almeida Santos
Director da Faculdade de Ciências Sociais, Educação e Administração e do Departamento de Ciência Política, Segurança e Relações Internacionais da ULHT

Goya, El sueño de la razon produce monstruos

Um “Sonho Americano”, sim, mas mais austero, cinzento, zangado! Não o do ouro a rodos de Donald Trump, que certamente seduziu tantos americanos com o seu “way of life” – dos dourados do elevador e do apartamento na Trump Tower aos douradinhos do Air Trump One, ou até mesmo ao exuberante e testado novelo  capilar do Neo-Presidente! Não!

A extrema direita europeia é mais austera, menos americana, mais contida na exibição dos gostos pessoais, do luxo, da riqueza, do dinheiro, claro. E das palavras! As sedimentações históricas da Europa obrigam a mais cuidado. Portanto, uma reinterpretação à boa maneira europeia, se exceptuarmos algum exibicionismo maneirista do Berlusconi de Arcore ou da Costa Smeralda, na Sardenha (para não falar do último Silvio). Mas, de qualquer modo, está fascinada e mobilizada com esta vitória do Tycoon americano. Bons ventos! Bons augúrios! Vê nela a prova de que é possível chegar ao poder com ideias parecidas, contra a política educadinha do centro-direita.

Não se afirmou ele contra a elite do seu próprio partido, que até o abandonou, envergonhada? Mas também ninguém acreditava que o BREXIT vencesse! O bom senso viria ao de cima no momento decisivo! Mas não veio, e venceu. E não foi também pela exuberante cabeleira de Boris Johnson! Foi o isolamento protector, em tempos de globalização! No Reino Unido, como agora nos USA de Trump! Fechar as fronteiras ao outro (ou mandá-lo embora aos milhões), à ameaça, ao livre comércio – para pôr mãos à tarefa da Reconstrução Nacional!

O panorama europeu

 Farage viu bem as afinidades e foi o primeiro a ser recebido por Trump. Sente-se pioneiro na magnífica tarefa de isolar o Reino Unido! Viu-se bem naquele sorriso escancarado a descer (ou a subir) o elevador dourado da Trump Tower! E logo lhe pediu que voltasse a pôr o Busto de Winston Churchill na Sala Oval, repondo no seu devido lugar as afinidades electivas do Reino Unido! Tony Blair viu bem no que deram essas afinidades com Bush (e, já agora, Aznar e Barroso, cada vez mais afim)! Afinidades duplas, neste caso: transatlânticas e ideológicas! É subir ao céu em elevador dourado! Mas, antes de Farage, já o holandês Geert Wilders lá estivera a apoiá-lo.

Que é como quem diz a apoiar-se a si próprio para as eleições de 2017, que quer ganhar. Ano de todos os perigos, este 2017, bem antecipado pelo 2016 do BREXIT e da Nova Trumplândia! Começa com a Holanda e com Geert Wilders e vai por aí adiante. Wilders já afia as unhas para ganhar as eleições e, depois, promover o NEXIT, a saída da União (foram os holandeses que aprovaram um dos dois referendos para chumbar a Constituição Europeia, em 2005).

Etapa seguinte e deveras muito importante será a de França, com a direita (Juppé ou Sarkozy) e a extrema direita (Marine Le Pen) a disputarem na segunda volta o Eliseu, depois de um desastrado mandato de François Hollande. Na Alemanha, a queda da CDU/CSU (na média das últimas cinco sondagens, de Agosto-Setembro, cai de 41,5% – obtidos nas eleições federais de 2013 – para 33%) não é reabsorvida pelo SPD (que cai, também ele, 3,3%, agora para 22,4%), beneficiando os Verdes (em +3 pontos, agora com 11,4%) e sobretudo Alternative fuer Deutschland (AfD), da Senhora Frauke Petry, que passa de 4,7% para 12,5%. Na Áustria, as possibilidades de a extrema-direita ganhar as presidenciais de Dezembro, sob o impulso da vitória de Trump, são também cada vez maiores. Já esteve à beira de as ganhar e, agora, com o que aconteceu nos USA as possibilidades crescem.

Em Itália, o Movimento5Stelle mantém-se em boa posição para em 2018 disputar taco-a-taco as eleições com o Partido Democrático de Renzi (com 28,42 contra 31,56 do PD, na média das últimas cincos sondagens de Outubro), embora este seja um caso diferente, apesar de ancorado no carisma de Beppe Grillo, o nume tutelar do movimento. E poderíamos continuar para radiografar a difícil situação da Europa e o perigo real de a União Europeia se vir a esboroar, num movimento contrário ao da história! Reinventar a democracia representativa? Não, Presidente Sampaio! É nova demais e muito exigente! Só existe desde que há sufrágio universal. O que temos, isso sim, é de olhar para o que está a mudar, repensar a nossa concepção do mundo, o modo de fazer política e a nova cidadania que emerge!

Os efeitos da vitória de Trump

A vitória de Trump tem, pois, este significado: alimenta com suplementos vitamínicos a expectativa populista e o nacionalismo na Europa e põe em crise o projecto europeu. Sob a bandeira americana de Trump os populismos europeus vão alimentar e aumentar as suas bases eleitorais ao mesmo tempo que credibilizam, também por esta via, os seus protagonistas e as respectivas propostas. E, na verdade, quando as coisas não correm bem, a solução populista e carismática é sempre bem acolhida, trazendo consigo a crítica do establishment, o nacionalismo, a rejeição do outro e o empolamento da ameaça externa. Tudo ingredientes que temos perante nós.

O problema dos refugiados e da imigração, a ameaça do fundamentalismo islâmico, o desemprego, os efeitos da globalização, a deslocalização de empresas e de centros económico-financeiros, a crise do sistema financeiro e a evidente fragilidade política das lideranças europeias, incapazes de relançar o projecto europeu e de encontrar soluções para os problemas incumbentes, a começar pelo gravíssimo problema dos refugiados.

Veremos que políticas a Administração Trump irá implementar, mas sobretudo que fio condutor as orientará. E vê-lo-emos de imediato quando fizer a escolha definitiva de nomes para o seu executivo, em particular a partir das suas ligações com o poder financeiro. E, ao que parece, para a área do tesouro e finanças já se estão a posicionar o incontornável banco de investimento Goldman Sachs (Steven Mnuchin) e o JP Morgan. Se a isso juntarmos o recuo na política ambiental, o desmantelamento do ObamaCare, a regressão nos acordos internacionais sobre comércio, o recuo em relação à NATO e por aí adiante, estamos conversados.

Enquanto isto acontece, a esquerda europeia perde pontos e não repensa o seu próprio futuro. Não me lembro de uma única acção noticiada da Internacional Socialista, a não ser para fazer prova de vida. E o panorama dos partidos socialistas europeus não é melhor!

“European Dream”? Não creio, a não ser que seja um “Sueño” inspirado em Francisco de Goya.

Nota do Director

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