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Quarta-feira, Janeiro 26, 2022

Engels, história e entrechoque de múltiplos interesses

José Carlos Ruy, em São Paulo
Jornalista e escritor.

Engels rejeita qualquer negativismo para compreender a história; ele responsabiliza a ação humana para a solução dos problemas.

No entrechoque de vontades e interesses, a história não é um caminho róseo nem pacífico, como Engels enfatizou ao escrever que “a história é talvez a mais cruel de todas as deusas e conduz seu carro triunfal sobre montes de cadáveres, não somente na guerra, mas também no desenvolvimento econômico ‘pacífico’”. Mas ao fazer este registro, Engels não tirou conclusões pessimistas – ao contrário de Walter Benjamin (da famosa Escola de Frankfurt) que, algumas décadas depois de Engels, basearia em semelhante argumento uma conclusão fortemente negativista. Benjamin viu o “Angelus Novus” (de Paul Klee), como uma imagem da história, caminhando para frente, perplexo, sobre escombros, empurrado para diante por uma tempestade – que, diz Benjamin, “chamamos progresso” (Benjamin: 1987).

Ao contrário, Engels rejeita qualquer negativismo para compreender a história; ele responsabiliza a ação humana para a solução dos problemas. Ele prossegue, com palavras severas: “E nós, homens e mulheres, somos infelizmente tão estúpidos que nunca tomamos coragem para empreender o progresso real a menos que sejamos pressionados por sofrimentos que parecem desproporcionados” (Cit in Carr: 1982).

A história é um caminho de conquistas para a humanidade, e de luta intensa e difícil para alcançá-las – este é o ensinamento deixado por Engels.

Não há “consciência”, nem “vontade” na história – elas estão nos homens, seus protagonistas, embora de maneira condicionada pelo desenvolvimento histórico já percorrido.

O esforço para examinar a trilha seguida desde o passado, superar a “estupidez” e tomar coragem para mudar a sociedade – e a história – está na base da busca do progresso capaz de beneficiar a todos.

Alguns anos mais tarde, Lênin mostrou, em plena ação na revolução de 1917, que na época em que a história está constituída como ciência os atores sociais já não são cegos. Em setembro de 1917, ao exigir do partido bolchevique a insurreição, Lênin advertiu: “A história não nos perdoará se não assumirmos o poder agora” (cit. in Kochan: 1968).

Ele alertava para o fato de que não basta a existência de condições objetivas maduras para a revolução e a mudança social; é preciso que exista também a disposição subjetiva para isso pois a história não faz essa tarefa sozinha. Ela não faz nada, como Marx e Engels já haviam advertido: são os homens que devem encontrar o momento certo para agir. E a ciência da história é uma poderosa ferramenta para este diagnóstico, e ação.

Friedrich Engels

Esta ferramenta é o uso dos conceitos, que são reflexos no cérebro, aprimorados pela análise de processos reais e concretos. Na ciência da história são ferramentas indispensáveis de análise. Engels já havia enfatizado a importância dos conceitos na análise do processo histórico ao falar sobre a sociedade medieval europeia. Ele explicou que não se pode compreender a sociedade medieval europeia “sem o conceito de feudalismo muito embora, com a ajuda desse conceito”, sabemos “também que o feudalismo (em sua lógica conceitual) nunca se expressou ‘numa forma clássica completa’, o que é uma outra maneira de dizer que o feudalismo é um conceito heurístico que corresponde a formações sociais mais ricas mas, como acontece com todos esses conceitos, o faz de uma forma claramente purificada e lógica. A definição não nos pode dar o acontecimento real”, escreveu Engels (cit. in Thompson: 1981).

Esta longa citação de Engels indica que a construção conceitual, cerebral, é apenas o resumo que inclui aspectos comuns de objetos semelhantes. O objeto que o conceito descreve nunca existe de forma pura, nem no mundo objetivo nem na mente do estudioso, mas é um guia para orientação no mundo real. Isso impõe a exigência da análise acurada do objeto estudado para que se possa flagrar suas particularidades e especificidades.

O motor da história é a luta de classes; esta é a fornalha onde é queimado o combustível que a move. E só é possível conhecer o que ocorre no mundo concreto através da representação no cérebro do movimento real. Isto é, conceitualmente.

Os conceitos são universais que resultam da operação cerebral que analisa processos reais e concretos. Resultam da abstração que ocorre em toda ciência, sobretudo na ciência social. Marx já havia indicado ao comparar, em “O Capital“, os procedimentos de uma ciência social – a economia política – aos das demais ciências – a abstração e a imaginação fazem parte de toda investigação do mundo real. Nesse esforço de abstração, o trabalho humano – a atividade prática do homem – ocupa um lugar importante e central. Marx e Engels enfatizam que, ontologicamente, o homem fez-se a si mesmo pelo trabalho (Engels: 1974). No trabalho os homens agem coletivamente; é necessária a colaboração de outros homens. Isso leva à compreensão de que somente em comunidade, junto com os demais, cada indivíduo possui “os meios de cultivar seus talentos em todas as direções: só em comunidade, então, é possível a liberdade pessoal” (Marx/Engels: 1973).

Isto é, é somente no contato constante, criativo e produtivo com seus semelhantes que cada pessoa, cada indivíduo, desenvolve plenamente suas potencialidades. Como registra o “Manifesto do Partido Comunista“, “o livre desenvolvimento de cada um é a condição para o livre desenvolvimento de todos” (Marx/Engels: 1975).

Esta é uma frase que tem amplas consequências para a compreensão da história como ciência. Ela afasta, desde o início dos escritos de Marx e Engels, as ideias burguesas de que há uma competição inata entre os homens, como pretendem Kant e, mais tarde, Freud, a Escola de Frankfurt e outros escritores e ideólogos.

Enfatiza, ao contrário, aquilo que a psicologia moderna, materialista, de Vygotsky e seus colaboradores, indicou: o papel fundamental da cooperação para o desenvolvimento humano. Que está na base da formação da própria consciência humana. Assim, a tese marxista de que o ser social determina a consciência se reflete de maneira decisiva na teoria materialista dialética da história. A divisão entre o campo e a cidade já havia levado a diferentes maneiras de encarar o mundo, com reflexos no desenvolvimento da capacidade mental dos homens.

A divisão entre o trabalho intelectual e o manual, que se acentua na manufatura e na indústria moderna, fazem parte destes fatores que condicionam o desenvolvimento do potencial humano, e fragmentam o tipo humano, que no início era uno, “em vários tipos nas diversas classes sociais”, escreveu Engels (2015).

Segundo ele, as faculdades físicas e espirituais são sacrificadas a partir do momento em que cada ser humano é forçado a se dedicar apenas a uma espécie de atividade. “Todos são mutilados pela educação que os treina para uma certa especialidade, pela escravização vitalícia a esta especialidade, mesmo que esta especialidade seja não fazer absolutamente nada”, como ocorre entre muitas pessoas das classes dominantes (Engels: 2015).

Os acontecimentos históricos resultam do entrechoque entre múltiplas vontades individuais, escreveu Engels numa carta a Joseph Bloch (21/09/1890). Engels explicou que os fatos históricos são o efeito de uma multiplicidade de condições especiais de vida (Engels: 1980), na qual, como Marx pensava, o acaso tem um papel decisivo.

Em uma carta de 1877 Marx desenvolveu essa ideia: “Acontecimentos surpreendentemente semelhantes, mas ocorrendo num cenário histórico diferente, levam a resultados completamente diferentes”. E chama a atenção para o fato de que o reconhecimento do papel do acaso não autoriza nenhum misticismo nem torna a história incompreensível ou inacessível ao conhecimento. Ao contrário, diz, estudando “cada uma dessas evoluções separadamente e então, comparando-as, é fácil encontrar a chave para a compreensão destes fenômenos; mas nunca é possível chegar a esta compreensão usando o passe-partout (chave-mestra) de alguma teoria histórico-filosófica cuja grande virtude é permanecer acima da história” (cit. in Carr, 1982).

  • Benjamin, Walter. “Sobre o conceito de história“. In: “Obras escolhidas“, Vol. 1. Brasiliense, São Paulo, 1987
  • Carr, Edward H.. “Que é história?” Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982
  • Engels, Friedrich. “Cartas sobre el materialismo histórico”, 1890-1894. Moscou, Editorial Progreso, 1980
  • Engels, Friedrich. “Anti-Dühring”. São Paulo, Boitempo, 2015
  • Engels, Friedrich. “O papel do trabalho na transformação do macaco em homem”. In “Dialética da natureza”. Lisboa, Presença, 1974
  • Kochan, Lionel. “Origens da Revolução Russa, 1890-1918“. Rio deJaneiro, Zahar, 1968
  • Marx, Karl, e Engels, Friedrich. “A Ideologia Alemã” (Introdução). In Marx e Engels. “Obras Escogidas” em tres tomos, Tomo 1. Moscou, Editorial Progreso, 1973
  • Marx, Karl e Engels, Friedrich. “Manifesto do Partido Comunista“. In “Obras Escogidas“, T. I. Madrid, Editorial Ayuso, 1975
  • Thompson E. P.”A miséria da teoria – ou um planetário de erros (uma crítica ao pensamento de Althusser)“. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1981
  • Vygotsky, L. S. “A formação social da mente. São Paulo.” Editora Martins Fontes, 1988
  • Vygotsky, Lev. “La psique, la conciencia; el inconsciente”. In “Obras Escogidas”,  tomo I. Moscou, Varnitso, 1930

Texto em português do Brasil


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