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Sexta-feira, Janeiro 21, 2022

Jihad na Síria e no Iraque

Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

A decisão de proceder a uma nova invasão do território sírio sob controlo das ‘Forças Democráticas Sírias’ foi tomada pela cimeira de Ankara de 16 de Setembro que incluiu, para além do anfitrião turco, os líderes russo, Putin, e o Presidente do Irão, Rouhani.

A decisão de proceder a uma nova invasão do território sírio sob controlo das ‘Forças Democráticas Sírias’ – coligação que administra uma parte importante do território do Nordeste sírio dominada pela secção síria do ‘Partido dos Trabalhadores do Curdistão” (PKK) e integrando populações maioritariamente curdas mas incluindo populações siríacas (também conhecidas como cristãs) e árabes – foi tomada pela cimeira de Ankara de 16 de Setembro que incluiu, para além do anfitrião turco, os líderes russo, Putin, e o Presidente do Irão, Rouhani.

Tal como tinha acontecido em Afrin, a invasão turca é secundada pela ocupação por grupos jihadistas sírios sob controlo turco e de uma retirada de forças ocidentais, nomeadamente as americanas, mas contrariamente a outros actos inqualificáveis de guerra na região pelos impérios jihadistas, ela levantou uma onda de indignação no Ocidente, embora sem que as Nações Unidas tenham tomado qualquer posição, força do veto russo ou, em especial, da Comissão dos Direitos Humanos, que permaneceu em total silêncio.

A indignação ocidental é bem justificada mas que não deve servir para esconder e distorcer as responsabilidades e as razões desta nova barbárie jihadista. É por essa razão que creio essencial fazer alguns reparos.

  1. Profunda derrota do Ocidente

Que tenha sido a troika Turquia, Irão e Rússia a tomar decisões nesta matéria para a qual o Ocidente não tenha sido tido nem achado mostra até que ponto o Ocidente foi marginalizado. É uma marginalização que decorre inteiramente das posições adoptadas durante a guerra da Síria pelos EUA e seus aliados europeus.

Recordemos que o Ocidente abandonou totalmente a revolução democrática síria deixando que o regime sírio desenrolasse um genocídio sobre a sua população e que a Turquia (à frente da Irmandade Muçulmana) recuperasse a oposição e a transformasse num movimento plenamente jihadista.

Presidentes Vladimir Putin da Rússia, Recep Tayyip Erdogan da Turquia e Hassan Rouhani do Irão. Ankara, Turkey, September 16, 2019. REUTERS/Umit Bektas

Concretamente, a administração Obama financiou durante anos a fio esses grupos jihadistas, estabeleceu como linha vermelha o bombardeamento químico das populações, mas deu o dito por não dito.

O Ocidente deixou que o Irão se tornasse o verdadeiro poder na Síria, chegando ao ponto de financiar o regime e realizar um acordo de defesa com esse país limitado a alguns aspectos do seu programa nuclear, implicitamente aprovando a colonização iraniana desse país que se desenrolou com toda a força na fase da assinatura do acordo.

A Turquia, ciente desta evolução, abandonou qualquer simulacro de pertença à aliança ocidental e resolveu negociar uma pequena fatia da Síria com o Irão e a Rússia, à custa das minorias que aí habitam (ou habitavam), nomeadamente curdas.

Na Europa, a única preocupação foi a de suster o afluxo de refugiados provocados pela sua inacção, tendo a União Europeia cedido a pagar um pesado tributo à Turquia para que este país não enviasse os refugiados para a União Europeia.

Tanto a União Europeia como os EUA continuam a considerar o PKK como organização terrorista, apesar da activa colaboração que têm exercido com a organização, nomeadamente no quadro da luta contra o grupo jihadista que mais se tem destacado pelos seus espectaculares atentados no Ocidente, uma cisão de 2014 com a Al Qaeda conhecida como ISIS. É obviamente uma designação que dá força à invasão turca.

Não estou convencido de que o PKK seja um agrupamento de meninos de coro, mas penso que teria sido possível complementar o apoio ocidental com várias condicionantes e exigências que poderiam ter sustentado o fim dessa designação ou pelo menos uma real separação da secção síria do PKK. Nada disto foi feito!

Durante anos a fio, o SDF apelou à União Europeia para receber os seus nacionais presos sob o seu controlo por jihadismo por não ter capacidade para os manter presos, havendo o risco de eles serem libertados por acções armadas (como se verifica agora). A União Europeia ignorou ou recusou os apelos feitos mas a opinião pública mostra-se agora muito surpreendida e escandalizada com as notícias de que há já muitos presos jihadistas em liberdade na sequência da invasão turca, como se não tivesse sido advertida vezes em fim que era isso o que iria acontecer se não os tomasse a seu cargo.

A generalidade dos países europeus sustentou um apelo feito pelas instâncias europeias à Turquia para cessar a invasão, apelo que foi recebido com sarcasmo pela Turquia que se limitou a dizer que faria cair uma onda de refugiados sobre a Europa se esta fizesse algo de contrário aos seus interesses, ameaça que foi recebida com um tumular silêncio pelas instituições europeias.

  1. O Irão sobe a sua parada no Iraque

Dias antes da invasão turca da Síria os iraquianos manifestaram-se no Centro e no Sul contra o poder das milícias pró-iranianas e a tutela iraniana sobre o país, tendo as forças regulares e irregulares do regime (O Basij iraquiano, sob tutela dos guardas revolucionários islâmicos) respondido com brutalidade provocando numerosas vítimas.

Apesar de o Irão dominar o poder no Iraque – só as ‘forças de mobilização popular’ contarão com 85.000 homens armados – o regime iraniano anunciou a expedição de 7500 homens de reforço sob o pretexto de defesa dos locais de culto xiita, como se a quase totalidade dos iraquianos em revolta contra o Irão no Centro e Sul não fossem eles mesmos xiitas.

Se no caso da invasão síria se tem assistido a uma grande cobertura jornalística, a invasão iraniana do Iraque tem sido completamente silenciada, numa lógica de selecção da verdade ética e profissionalmente condenável e estrategicamente suicida.

O acordo tripartido visa exactamente impor uma lógica de partilha de poder imperial, sendo que o avanço turco na faixa da fronteira funciona também como uma tácita aceitação do reforço do poder iraniano no Iraque e na Síria e permitiu também a Putin aumentar as suas actividades militares na Ucrânia sem que a opinião pública se desse conta do facto.

  1. Alternativas para o Ocidente

A administração Trump não foi capaz de corrigir de forma estratégica a lógica suicidária da estratégia política em curso anteriormente. A ideia de que o problema do Jihadismo no Iraque e na Síria se reduzia às acções terroristas desenvolvidas no Ocidente por um dos grupos jihadistas no terreno, e que uma intervenção light feita de tropas especiais seria suficiente e adaptada para o resolver, foi um logro manifesto cujas consequências estão apenas a começar a emergir agora.

A cedência no Nordeste da Síria é um péssimo prenúncio para o que se pode esperar noutros tabuleiros tão ou mais importantes, como os do Curdistão iraquiano, totalmente dependente do chapéu-de-chuva americano para fazer face a qualquer ameaça jihadista, ou de Israel.

Mecanismo em Favor dos Refugiados na Turquia

A Europa está num estado de negação consideravelmente mais grave que os EUA e não quer entender nada do que deveriam ser as mensagens óbvias vindas da frente do conflito.

Emmanuel Macron revelou-se um falhanço total como líder europeu, pronto a desencadear guerras por interesses do passado (como a guerra com o Brasil por causa do bife) e julgando poder domesticar todos os agressores com umas promessas financeiras, promessas que só lhes aguçam o apetite.

A hora exige acabar com os ridículos exercícios de retórica feitos de cegueira e demagogia; em entender porque naufragou a ordem internacional; e o que se pode fazer para fazer face a esse naufrágio.


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