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Quarta-feira, Setembro 29, 2021

Jornalista queima em directo passaporte Marroquino

Isabel Lourenço
Observadora Internacional e colaboradora de porunsaharalibre.org

No dia 18 de Dezembro o Sr. Mohamed Radi Ellili, jornalista saharaui, com asilo politico em França transmitiu em directo no Facebook a destruição do seu passaporte Marroquino pegando-lhe fogo.

Todos os saharauis que vivem nos territórios ocupados do Sahara Ocidental ou em Marrocos são obrigados a ter a nacionalidade Marroquina, sendo lhes negado a sua própria nacionalidade.

Ao longo dos últimos anos e durante vários conflitos internos marroquinos, foram publicados vídeos em que cidadãos marroquinos incendeiam os seus passaportes no acto extremo de rejeição do poder feudal de Mohamed VI sustentado pelo temível Makhzen[1]. Estes Vídeos nunca foram mostrados na imprensa Europeia que parece ser o aliado eterno do reino do terror marroquino silenciando sistematicamente as barbaridades e atropelos de direitos humanos cometidos em Marrocos contra os marroquinos e a violenta e ilegal ocupação do Sahara Ocidental e repressão sobre os cidadãos saharauis.

A última queima pública de um Passaporte marroquino foi a do Jornalista saharaui Mohamed Radi Ellili, que recebeu asilo politico em França em 2018.

Esta decisão de Radi Ellili foi tomada após um aumento da campanha de difamação e perseguição nos últimos meses pelo Makhzen contra ele e a sua família imediata que ainda reside nos territórios ocupados do Sahara Ocidental e em Marrocos.

O Estado marroquino através da Direcção-Geral de Segurança Nacional (DGSN), a Direcção-Geral de Vigilância Territorial (DGST) e a Direcção-Geral de Estudos e Documentação (DGED) apresentou queixas contra particulares residentes no estrangeiro, entre os quais figura Mohamed Radi Ellili, acusado, segundo uma declaração conjunta das três instituições, ao Ministério Público do Tribunal de Primeira Instância de Rabat por “insultar funcionários públicos no exercício das suas missões” e “desacato aos órgãos constituídos”, bem como por “denúncias caluniosas”, “crimes fictícios” e “divulgação de alegações e factos falsos” e, por último, por “difamação”.

Ellili que é o primeiro da lista dos acusados segundo a imprensa marroquina, tem denunciado e comentado diariamente na sua pagina de facebook os acontecimentos em Marrocos e no Sahara Ocidental ocupado, alcançando centenas de milhares de visualizações nos dois territórios e na diáspora.

A 13 de Novembro de 2020, dois homens apresentando-se como equipa de reparações chegaram à casa da família de Ellili, onde reside a sua esposa e quatro filhos. Estes indivíduos iniciaram a filmar e a discutir com a esposa de Ellili. Apesar da esposa de Ellili ter apresentado uma queixa às autoridades marroquinas, o caso não foi investigado.

No dia 16 de Novembro as filmagens foram publicadas no youtube.

Em Dezembro 15, 2020, um grupo de 4 homens, supostamente policias, foram à casa da mãe de Ellili na cidade de Guelmim no sul de Marrocos, mas segundo Ellili tratava-se de indivíduos ligados ao Makhzen.

A mãe, uma senhora idosa com diabetes e falta de visão deixou entrar este grupo o qual também incluía um jovem saharaui (Sid Ahmed Bayrouk). que está ao serviço da administração interna marroquina. A equipa começou a interrogar a mãe de Ellili, sobre as opiniões politicas do filho, a sua opinião sobre o regime de Mohamed VI, sobre o Sahara Ocidental, a sua vida privada e a sua família directa. Tudo isto aconteceu sem quaisquer precauções de segurança em relação ao Covid. A “entrevista” foi gravada sem autorização e publicada dois dias depois online e nos dias subsequentes foram publicados mais vídeos atacando a dignidade da família.

Todas estas filmagens e abordagens de familiares de Radi Ellili fazem parte da estratégia de intimidação do. Makhzen que através das ameaças à família pretende calar Radil Ellili que a partir de Pars tem continuamente denunciado os crimes cometidos pelo Estado marroquino não parando mesmo após a queixa apresentada ao tribunal de Rabat.

A família de Ellili necessita de protecção mas está totalmente à mercê das acções do Makhzen e devido a total ausência de independência judiciária em Marrocos as ameaças ficam totalmente impunes.

 

Quem é Radi Ellili

Radi Ellili trabalhou durante mais de uma década para meios de informação marroquinos em Marrocos e no estrangeiro, foi apresentador da TV estatal marroquina do telejornal em horário nobre com mais de 4.000.000 de espectadores diários e é o único jornalista a quem foi dado um certificado de nunca ter aceite subornos, um caso Sui generis que faz correr muita tinta em Marrocos. Apesar de ter estudado e trabalhado em Marrocos nunca deixou de ser Saharaui diz, primo de vários ex-presos e presos políticos, optou por tentar viver e perseguir a sua carreira da melhor forma possível.

Após o protesto pacifico de Gdeim Izik[2], a estação de TV estatal onde Ellili trabalhava iniciou uma perseguição laboral que “disfarçava” a perseguição politica, Ellili diz nunca acedeu a dizer mentiras e difundir a propaganda que foi lançada nos dias após o desmantelamento do acampamento de Gdeim Izik.

O congelamento do salário foi apenas uma das formas que atingiu o jornalista até que foi dispensado.

Ellili iniciou uma “ronda” de entrevistas e debates em que denunciava a sua situação, mais de 57 em Marrocos e também no estrangeiro, até que foi para França e decidiu pedir Asilo Politico. Já em segurança, em Paris, deu várias entrevistas, denuncia o reino de terror de Mohamed VI e a verdadeira situação vivida tanto em Marrocos como no Sahara Ocidental algo que em Marrocos era impensável. Estas denuncias levaram Marrocos através dos seus “agentes” a recorrer a divulgação de calúnias e difamação a nível pessoal recorrendo a inventados casos de cariz sexual, um modos operandi conhecido e recorrente contra quem ousa denunciar a verdadeira face do regime marroquino.

Dias após a obtenção do asilo, meios de comunicação marroquinos divulgaram que a “culpa” da “perseguição” de Ellili deveria ser imputada à directora da estação de TV, uma manobra clara e manipulativa do Regime de Mohamed VI para desviar a atenção e “sacudir a água do capote” colocando a culpa longe do Palácio e fabricando assim mais uma vitima do regime, desta vez a directora. O congelamento de salários só pode ser ditado pelo estado numa estação estatal e as ordens vêm do ministério que é que emite os pagamentos. A decisão do tribunal francês foi um duro golpe para Marrocos que conta com França como sua maior aliada na grande encenação do “Marrocos democrático e desenvolvido” que usufrui de dezenas de milhões de apoios da União Europeia para o desenvolvimento dos direitos humanos.

 

[1] Makhzen – o verdadeiro estado marroquino –  processos e sistemas arcaicos e tradicionais do sistema político e da monarquia, de que fazem parte, entre outros o poder de decisão dos conselheiros do rei e dos altos funcionários nomeados por este e controlam tudo em Marrocos.

[2] acampamento de protesto pacifico que reuniu dezenas de milhares de saharauis nos arredores de El Aaiun nos territórios ocupados que durante um mês exigiram os seus direitos sociais, económicos e políticos e que foi brutalmente desmantelado a 8 de Novembro de 2010 com centenas de detenções e pessoas torturadas às mãos das autoridades de ocupação.



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