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Quinta-feira, Janeiro 20, 2022

Outros antepassados do pós-modernismo na história

José Carlos Ruy, em São Paulo
Jornalista e escritor.

Embora Claude Lévi-Strauss não fosse físico, mas antropólogo, sua visão da história era igualmente reducionista e decorria da fidelidade a um paradigma científico semelhante ao de Popper: o velho modelo galiláico-newtoniano da física. Um importante antropólogo inglês, em polêmica com Lévi-Strauss, escreveu que sua visão da história era “esquiva” (Leach: 1973), com dois traços característicos.

Um é a desvalorização da história ante a antropologia, com ênfase na linguagem como o elemento que define o homem e a sociedade, desconsiderando as relações sociais e econômicas que formam o metabolismo social e condicionam o desenvolvimento histórico. (Pace: 1992).

O outro traço característico da concepção de Lévi-Strauss é o relativismo que decorre do desprezo às condições materiais de organização da vida e, a pretexto de combater o eurocentrismo, iguala as sociedades sem reconhecer as diferenças de desenvolvimento que há entre elas.

Ao comentar as relações entre etnologia e história, na introdução ao livro “Antropologia Estrutural” (1949), Lévi-Strauss formulou o que chamou de “drama interior revelado” da história: a fragilidade ou impossibilidade de seu conhecimento objetivo. Ele distinguiu duas dimensões no trabalho do analista, a diacrônica e a sincrônica. “Pretender reconstruir um passado do qual se é impotente para atingir a história, ou querer fazer a história de um presente sem passado, drama da etnologia num caso, da etnografia no outro, tal é, em todo caso, o dilema no qual o desenvolvimento delas, ao longo dos últimos cinquenta anos, pareceu muito frequentemente colocá-las”, escreveu naquele texto em que emite uma sentença condenatória contra toda historiografia elaborada na primeira metade do século XX. (Lévi-Strauss: 2008).

Estas teses foram reafirmadas em “Raça e História” (1952) onde diz que o relato histórico não corresponde aos fatos ou a processos, mas às expectativas do historiador. E este é outro ponto de contato com Popper, incorporado depois por outro escritor, Michel Foucault, da mesma extração. “A historicidade, ou mais precisamente, a factualidade de uma cultura ou de um processo cultural é assim função, não das suas propriedades intrínsecas, mas da situação em que nos encontramos em relação a ela, do número e da diversidade dos nossos interesses nela apostados”. (Lévi-Strauss: 2000).

Daí o relativismo extremo de sua visão. Na mesma introdução ele descreveu como são diferentes as visões de um aristocrata e a de um plebeu sobre a tomada da Bastilha, na Revolução Francesa de 1789. Lévi-Strauss extrai daí a tese de que o conhecimento histórico é impossível. “Tudo o que o historiador e o etnógrafo conseguem fazer, e tudo o que se pode pedir-lhes para fazer, é alargar uma experiência particular às dimensões de uma experiência geral ou mais geral, e que se torne, por isto mesmo, acessível como experiência a homens de um outro país ou de um outro tempo” (Lévi-Strauss: 2008).

Eis a mesma incompreensão que há em Popper da relação dialética entre o particular e o universal, aqui encarado como um particular alargado.

Há uma nítida influência de Lévi-Strauss na obra de outro notável pensador francês que aproximou estruturalismo e marxismo, Louis Althusser. Em ferina polêmica contra esse pensamento que incorpora as teses de Lévi-Strauss, o historiador marxista inglês E. P.  Thompson notou que Althusser parte de uma premissa semelhante à de Popper e a radicaliza quando olha com desprezo o fato isolado e considera seu relato como contaminado pelo pecado do empirismo. A noção de que o reconhecimento já está “no objeto real que deve conhecer” é para Althusser a fonte da  ilusão do empirismo “abstracionista” que leva o pesquisador ao engano de tomar como descoberta empírica a própria ideia que traz, na mente, do objeto examinado; aquelas que o pesquisador traria no pensamento antes mesmo de iniciar o processo de investigação, e que atribuiria ao objeto investigado. (Thompson: 1981).

O brilho do pensamento de Louis Althusser foi intenso nos anos 1960 e 1970, quando sua obra teve grande prestígio e repercussão. Que decorria da posição política assumida por ele contra a forte onda de revisionismo que prevalecia então. Entretanto, apesar dissso, não escapou da forte distorção filosófica que marcou seu pensamento – que rejeitava a história como ciência. Para ele, o pecado original do historicismo está no erro de atribuir ao processo histórico o sentido e o propósito que existem, segundo ele, previamente na mente do investigador.

Assim, o marxismo de escassa dialética e sem história de Althusser se encontra com os pensamentos de Popper e de Lévi-Strauss, na mesma afirmação da impossibilidade do conhecimento da história e, portanto, da recusa em aceitar seu caráter científico.

Esse materialismo precário trai e abandona o materialismo moderno (dialético) de Marx e Engels e seu lugar é ocupado pelo materialismo metafísico, mecanicista, próprio do século XVIII, que os fundadores do marxismo criticaram, e superaram, nas Teses sobre Feuerbach (1845) e em Anti-Duhring (1878) (Marx: 1979; Engels: 2015).

Marx havia feito a crítica de ideias semelhantes nas cartas a Annenkov (28/12/1846), e a Schweitzer (24/01/1865) (Marx: 1982), em que criticou o idealismo de Proudhon. Seus argumentos podem ser usados na polêmica com Althusser. As categorias são construções cerebrais que refletem a práxis, a experiência concreta dos homens. Mas,na concepção mistificada de Proudhon (que Althusser repete) são “elas, e não os homens, fazem história”, diz Marx. Embora não passem de reflexos de experiências que, ocorrendo no mundo real e concreto, são elaboradas no cérebro, na forma de ideias. Entretanto, na concepção de Proudhon, como na de Althusser, a teoria (que reflete no cérebro o mundo objetivo) ocupa o lugar da realidade concreta refletida pelo pensamento. Nesta concepção mistificada, a ideia é considerada como o ponto de partida, e substitui a realidade em si. Marx explica que Proudhon (como Althusser, um século depois) partilha as ilusões da filosofia especulativa na medida em que fantasia as categorias como “idéias preexistentes, eternas”, chegando outra vez “ao ponto de vista da economia burguesa”: “Quando os economistas dizem que as relações presentes – as relações da produção burguesas – são naturais, dão assim a entender que são relações em que a criação de riqueza e o desenvolvimento das forças produtivas se consumam em conformidade com as leis da Natureza. Deste modo, estas relações são elas próprias leis da Natureza, independentes da influência do tempo. São leis eternas que sempre têm de reger a sociedade. Assim, houve uma história, mas já não há mais”, polemiza Marx. (cit. in Thompson: 1981).

De fato, para Althusser a história só existe como a aplicação de uma teoria que, ela mesma, também não existe, criticou Thompson. “Devemos – escreveu Althusser em “Ler o Capital” –  encarar a sério o fato de que a teoria da história no sentido rigoroso não existe, ou que só existe para os historiadores, que os conceitos de história existentes são, pois, no mais das vezes, conceitos ‘empíricos’, isto é, fortemente mestiçados com uma ideologia que se dissimula sob suas ‘evidências’” (Althusser: 1980).

Esta concepção tem consequências teóricas relevantes. Ela repete o velho e ultrapassado materialismo mecanicista, criticado e superado por Marx e Engels, e que separava radicalmente sujeito e objeto, e transformava o conhecimento num reflexo inerte do objeto na mente do sujeito, como se fosse uma imagem no espelho ou uma cópia fotográfica, passiva. Concepção que diverge do materialismo moderno, dialético que reconhece a unidade entre sujeito e objeto.

Na trilha da compreensão inaugurada por Spinoza, que diferenciou “objetos reais e concretos” de “objetos do pensamento”, Hegel deu o passo adiante que, seguido por Marx e Engels, foi fundamental para a formulação do materialismo moderno, que é dialético e rompe com a visão reducionista que predominou no materialismo antigo. E fundou a compreensão mais avançada que encara o processo de conhecimento como a articulação sujeito/objeto, na qual o que está na mente do sujeito não é uma reprodução morta, mecânica, automática, imediata, do objeto e do mundo objetivo. Mas sim um concreto pensado, uma construção cerebral a partir dos impulsos provocados pela percepção do mundo objetivo, percepção viva, mediada, filtrada pelas concepções, crenças e visão do mundo de que o sujeito é portador. Daí o caráter incompleto, provisório e aproximativo, mas nunca relativo, do conhecimento. (Spinoza: 2010; Chauí: 2000; Lênin: 1972; Lênin: 1979).

É surpreendente que Althusser – tendo examinado em detalhe, em “Ler o capital”, o texto seminal que é o capítulo “O Método da Economia Política” (de “Introdução à crítica da economia política”), onde Marx trata dessa questão teórica, não tenha compreendido como esta concepção materialista e dialética se aplica à história.

Esta séria limitação de seu pensamento o levou a buscar na “estrutura” o esteio da história, como escreveu em “Ler o Capital”: “A verdade da história não pode ser lida em seu discurso manifesto, porque o texto da história não é um texto em que fale uma voz (o Logos) mas a inaudível e ilegível anotação dos efeitos de uma estrutura de estruturas” (Althusser: 1980) – uma frase de inegável ressonância  heideggeriana.

Foi a essa “estrutura” aprendida pela leitura da obra de Lévi-Strauss que Althusser atribuiu o caráter “material” (à maneira positivista e reducionista), a ossatura, da vida humana organizada. E fundamenta seu entendimento da história como um “processo sem sujeito” que Althusser supõe ser a “base de todas as análises em ‘O Capital’” (Thompson: 1981).

  • Althusser, L., Balibar, E., e Estabelt, R. “Ler O Capital“. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1980
  • Chaui, Marilena. “Paixão, ação e liberdade em Espinosa”. Folha de S. Paulo, 20/08/2000
  • Engels, Friedrich. Anti-Duhring. São Paulo, Boitempo. 2015
  • Lênin, V. I. “Cuadernos Filosóficos“. Buenos Aires, Ediciones Estúdio, 1972
  • Lênin, V. I. “Em torno a la dialectica“. In “La Literatura y el arte”. Moscou, Editorial Progreso, 1979
  • Lévi-Strauss, Claude. “Antropologia Estrutural”, São Paulo, Cosac Naify, 2008
  • Lévi-Strauss, Claude. “Raça e História”. Lisboa, Editora Presença, 2000
  • Marx, Karl. Carta a J. B. Von Schweitzer, 24 de janeiro de 1865. In “Obras Escolhidas em três tomos“. Lisboa, Edições Progresso, 1982
  • Marx, Karl. Tesis sobre Feuerbach. In Marx/Engels, “Obras escogidas“, T. II, Madri, Editorial Ayuso, 1976
  • Marx, Karl. Introdução à Crítica da Economia Política. In “Contribuição para a Crítica da Economia Política“. Lisboa, Editorial Estampa, 1973
  • Peace,David. “Claude Lévi-Strauss: o guardião das cinzas“. Rio de Janeiro, Editora Bertrand Brasil, 1992
  • Spinoza, Baruch de. “Ética – demonstrada à maneira dos geômetras”, Parte II. Belo Horizonte, Autêntica, 2010
  • Thompson E. P.”A miséria da teoria – ou um planetário de erros (uma crítica ao pensamento de Althusser)“. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1981

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