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Quinta-feira, Dezembro 2, 2021

“Maio, maduro Maio”

Maria do Céu Pires
Doutorada em Filosofia. Professora.

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Neste retrocesso civilizacional em que nos encontramos ao mesmo tempo que são postos em causa direitos fundamentais, são igualmente contestadas formas de organização historicamente ligadas à luta por esses direitos.

Os sindicatos perderam força e, segundo certas perspectivas, perderam também legitimidade e sentido. Será que a função dos sindicatos está ultrapassada?

Maria do Céu PiresEmbora já na Idade Média existissem corporações ligadas aos ofícios, foi sobretudo a partir da Revolução Industrial, em Inglaterra, que os trabalhadores se juntaram em sociedades de socorro mútuo para fazer face a situações de doença e de desemprego, as trade unions.

Com o advento do capitalismo surge uma nova classe social, os proletários, desprovidos de qualquer propriedade ou bem a não ser a sua força de trabalho. Esta era usada pelos proprietários das fábricas que possuíam as instalações, máquinas e matérias-primas de forma a retirar o maior lucro possível.

E isto sem ter em consideração o tempo e as condições em que o trabalho era realizado.

Os sindicatos surgem, assim, como associações criadas pelos operários com vista a negociar condições de trabalho, dado que estavam sujeitos a tratamento desumano e a horários que iam, muitas vezes, até às 16 horas. A luta pelas 8 horas de trabalho, uma das primeiras a ser realizada, remonta a meados do século XIX.

Leo Huberman na sua obra “História da riqueza do homem” cita o depoimento de uma criança de 11 anos a uma comissão do Parlamento inglês em 1816:

“Se adormecíamos batiam-nos sempre. O capataz costumava pegar numa corda da grossura do meu dedo polegar, dobrá-la e dar-nos com ela. Uma vez, trabalhei toda a noite.”

Infelizmente, passados dois séculos, ainda é possível ouvir, em muitas partes do mundo, depoimentos deste tipo! O trabalho infantil continua a ser uma dura realidade para muitas crianças nas mais variadas zonas geográficas: segundo a Organização Mundial do Trabalho são cerca de 168 milhões de crianças a trabalhar.

Portugal é o país da Europa onde os sindicatos chegam mais tarde. Contudo, muito antes da sua legalização, já há notícia das primeiras greves (1732), designadas ainda como “motins” ou “bernardas”. Nalgumas regiões, por exemplo, no Alentejo, até final dos anos 50, a jornada de trabalho continuava a ser de sol a sol.

Em França foi reconhecida a legalidade dos sindicatos em 1884 e nos Estados Unidos por volta de 1827 tendo sido constituída em 1886 a Federação Americana do Trabalho (AFL). E, progressivamente, ao longo do século XX os sindicatos foram alargando o seu âmbito não só aos proletários mas a muitas outras profissões.

Como noutras associações, os sindicatos vivem da contribuição/quotas dos seus associados. O objectivo é, através da negociação colectiva, conseguir melhores condições de vida ao nível profissional, económico e social para os que trabalham e, dessa forma, contribuir para uma sociedade mais equitativa.

Quando os processos de negociação não resultam, há o recurso a outras formas para influenciar os decisores políticos ou empresariais como por exemplo, as greves.

Nestes dois séculos de história, os sindicatos, enquanto parte significativa da sociedade civil, têm contribuído de forma claramente positiva para os avanços civilizacionais, e, portanto, para uma maior humanização das sociedades.

O reconhecimento deste dado histórico não invalida uma análise crítica daquilo que tem sido a actividade dos sindicatos no Portugal pós-74. Análise que deve estender-se a toda a Europa e à destruição do Estado Social que aí acontece.

De igual modo, para ser fiel a esse papel histórico, seria fundamental que, hoje, à luz das novas condições sociais – desemprego, precarização do trabalho, deslocalização de empresas, globalização económica- se discutisse qual a melhor forma de organização para responder à selvajaria do capitalismo.

Criatividade e reflexão são cada vez mais urgentes para contestar um mundo onde as desigualdades sociais aumentam e onde cresce também o trabalho escravo e o “trabalho à peça”.

Eu sei que é mais fácil ir hoje às promoções de um certo supermercado mas seria melhor lembrar os “mártires de Chicago”. E pensar um pouco.

Porque estamos a ser “mártires” e nem sequer nos damos conta!

Depois de várias revoluções tecnológicas e da Internet voltamos a um tempo que não é de liberdade mas de manipulação e, Maio que já foi maduro volta a ser verde.

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