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Sexta-feira, Agosto 19, 2022

Masculinidade tóxica: vamos pensar sobre isso?

“Masculinidade tóxica” é um dos temas contemporâneos que têm ocupado cada vez mais espaço nos diferentes meios (acadêmicos, institucionais, organizações sociais) e na sociedade em geral.

O termo tem sido definido como “uma crítica aos comportamentos desnecessários e destrutivos, interna e externamente conectados a uma visão de mundo que entende o masculino como superior ao feminino”, onde o “ser homem” é não ser ou não ter qualquer comportamento dito como “feminino”.

Desde a década de 1970, os movimentos feministas e de mulheres têm questionado o padrão social hegemônico de masculinidade a partir da utilização do termo genérico universal “homem” para designar a humanidade, e colocado, igualmente em questão, os modelos de masculinidade e feminilidade como justificativa dessa suposta hegemonia. Tais modelos são tidos como resultantes de uma construção cultural profundamente injusta, repressiva e nociva, que afeta não somente as mulheres, mas, paradoxalmente, também os próprios homens.

A construção socialmente arbitrária do masculino e do feminino torna evidente que as desigualdades sociais não são inerentes às diferenças biológicas ou naturais entre homens e mulheres, mas decorrentes de relações sociais ou do modo como as sociedades vêm construindo ao longo da história as relações de gênero. Esses padrões culturais impõem barreiras difíceis de serem transpostas pelas mulheres, visto que requerem transformações na sua forma de ver, de ser e estar no mundo, sendo esta uma condição necessária para que também se produzam mudanças no mundo masculino. Ser homem e ser mulher implicam em relações sociais entre um e outro, logo a mudança de um leva necessariamente à mudança do outro.

O aumento da violência contra as mulheres, demonstrado nas diferentes estatísticas oficiais do país, tem evidenciado esse nível de dificuldade, indicando, por um lado, que são os homens os que mais cometem violência contra as mulheres (chegando, no extremo, ao feminicídio), fato que vem mobilizando o debate sobre estratégias que levem a possíveis transformações sobre o comportamento social masculino; por outro lado, estudos recentes têm reafirmado que são os homens os que mais matam as mulheres, mas também são eles, na realidade, os que mais morrem motivados pela violência ou por mortes naturais (são igualmente os que mais se suicidam, que mais correm riscos de vida e os que mais participam da população carcerária, no mundo todo, para ficar nestes exemplos).

Como superar a masculinidade tóxica?

Tais constatações têm levado estudiosos a se debruçarem sobre as mazelas decorrentes do padrão de masculinidade, imposto socialmente aos homens, denominado “masculinidade tóxica”, em busca de respostas para questões que melhor expliquem esse fenômeno. Por que isso acontece? O que explica o aumento do feminicídio e da violência contra as mulheres? Homens são biologicamente mais predispostos ao crime do que as mulheres? Ou existem fatores reproduzidos simbolicamente pela sociedade que os levam a um comportamento violento e delitivo? Por que a população masculina é a que mais morre (seja por homicídio, acidentes de trânsito, consumo de drogas, ou morte natural)? Como superar esse padrão de masculinidade tão nocivo às mulheres quanto aos próprios homens? Como esse debate envolvendo os homens ainda é recente, tais questões ainda estão em aberto e precisam ocupar o centro das reflexões, abrangendo toda a sociedade, condição indispensável para o avanço das condições de igualdade entre homens e mulheres.

Quando nascem, os homens não são “naturalmente” violentos e nem as mulheres dóceis e submissas, mas, desde então, recebem tratamento social e são modelados segundo as imagens idealizadas e as representações atribuídas à masculinidade e feminilidade para que atuem segundo um padrão de comportamento patriarcal. Além disso, é preciso que se entenda que a violência de gênero surge como “produto” de uma relação entre o homem e a mulher, a qual, para além das aparências, deve ser vista a partir das suas causas, de forma a se eliminar a ideia da mulher vítima e do homem algoz.

Masculinidades novas

Sem dúvida, a desconstrução desse padrão de identidade depende do envolvimento de homens e mulheres, mas é preciso que as masculinidades, tal qual as feminilidades, sejam vistas numa perspectiva relacional, apreendidas como um problema social e inerentes às relações humanas, em sua complexidade, uma vez que não atuam isoladamente nos diferentes contextos sociais. Parte-se do entendimento de que, numa sociedade que estimula a violência por meio do gênero, não é possível tratar de forma simplificada as consequências da violência, sem atentar para o universo simbólico sobre o que se assenta o gênero.

A construção de novas masculinidades mais livres de estereótipos opressores, e mais plurais, exigem estratégias que levem em conta as implicações do que é ser homem na sociedade ocidental, os impactos produzidos pelas mudanças nas relações de gênero, tanto no espaço público quanto no privado, as novas paternidades, a nova ênfase na estética do corpo masculino, entre outros aspectos, desde que fundamentadas numa crítica à manutenção do padrão de masculinidade de corte patriarcal e nas contradições daí derivadas.

As discussões sobre masculinidades tóxicas poderão esclarecer mais sobre as relações violentas e opressivas de gênero, liberando homens e mulheres da manutenção da imagem idealizada que os aprisiona e abrindo perspectivas de construção de novas masculinidades e novas relações de gênero que contribuirão para uma vida plena.


por Maria de Lourdes Schefler, Socióloga e assessora técnica da Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM-BA) |  Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV (Secretaria de Políticas para as Mulheres da Bahia)/ Tornado


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