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Terça-feira, Junho 22, 2021

‘Meteors’ do turco Gürcan Keltek foi o grande vencedor do 4º Porto/Post/Doc

José M. Bastos
Crítico de cinema

Terminou no passado domingo a 4ª edição do Porto/Post/Doc. Durante uma semana incluiu decorreu  na baixa portuense mais um festival de cinema. De acordo com a organização “diversas lotações esgotadas nos quatro espaços do Festival (Grande Auditório Manoel de Oliveira e Pequeno Auditório Isabel Alves Costa no Teatro Rivoli, Cinema Passos Manuel, Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto e Maus Hábitos). O Festival continua a crescer também como plataforma profissional, com perto de 300 que passaram pelo Porto, incluindo realizadores e produtores de filmes em competição e das diferentes secções; a imprensa nacional e internacional; e outros festivais e organismos nacionais e internacionais”.

A secção de competição desta mostra do ‘cinema do real’ foi, efectivamente, um mosaico dos problemas e ansiedades que dominam os nossos dias, vistos através de diversas concepções estéticas e formais, quase todas elas pouco convencionais. Pelo contrário, exercícios de ‘novas linguagens’. As guerras, as vagas migratórias, as questões ambientais, o acelerado processo de mudança que se verifica em algumas sociedades foram temas dominantes que acabaram, inevitavelmente, por ter presença destacada no palmarés.

De seguida deixamos algumas notas sobre alguns dos trabalhos da competição internacional cujo júri foi constituído por Lois Patiño (realizador galego) Nuria Cubas (directora do Festival Internacional de Cine de Madrid), Hilke Doering (responsável do International Short Film Festival Oberhausen), Mário Moura (designer, conferencista e crítico), Ivo M. Ferreira (cineasta, autor de ‘Cartas de Guerra’) e Raquel Castro (diretora artística do Festival Lisboa Soa).

Filmes apocalípticos

Conflito curdo-turco é o tema central do Grande Prémio Porto/Post/Doc 2017

A luta do povo curdo pela preservação da sua identidade, da sua memória e do seu território são as ideias fortes de ‘Meteors’ um documentário político, mas, se tal é possível com o enquadramento referido, também poético e filosófico. A relação do homem com o seu meio, com os animais, com os lugares e com o cosmos e a resistência contra a destruição dos sítios em que habita (seja pela guerra e pela confrontação, seja pela chuva de meteoritos…) marcam este filme que deixa no espectador a incómoda sensação de estar na antecâmara do apocalipse.

O mesmo sentimento perpassa por outos filmes que tivemos oportunidade de ver durante a semana, por exemplo, em ‘City of Ghosts’ do norte americano Matthew Helneman. Obra de um realizador cujo anterior trabalho foi nomeado para um Oscar, ‘City of Ghosts’ tem como figuras centrais os elementos de um grupo de habitantes de Raqqua que depois de, e influenciados pela chamada ‘primavera árabe’, se terem manifestado contra o regime Bashar al-Assad, viram a sua cidade transformar-se na capital do Estado Islâmico. Primeiro na sua terra e depois forçados a partir para a Alemanha têm, ao longo dos anos, vindo a travar uma batalha contra o ISIS através das redes sociais o que não impediu que alguns tenham já sido assassinados. Cenários de destruição inenarráveis pontuam a história destes homens que continuam a ter as suas famílias na Síria mas que não desistem de, através dos meios de comunicação, lutarem contra os extremistas islâmicos. Um documento impressionante.

‘City of Ghosts’, de Matthew Helneman

Histórias de refugiados

‘Taste of Cement’, co-produção dirigido por Ziad Kalthoum

‘Stranger in Paradise’, de Guido Hendrikx

Um dos filmes presentes na competição que aborda o tema dos refugiados é ‘Taste of Cement’, co-produção entre Alemanha/Líbano/Síria/EUA e Quatar, dirigido por Ziad Kalthoum e ao qual nos referimos na sua passagem na SEMINCI/Valladolid. Vencedor neste Porto/Post/Doc do Prémio Biberstein Gusmão (para autores emergentes) e candidato aos prémios europeus do cinema (a atribuir no próximo sábado) ‘Taste of Cement’ é um documentário que tem como pano de fundo a guerra que se desenrola na Síria e que leva muitos homens a procurar refúgio no Líbano. Aí trabalham na construção de grandes edifícios, enquanto na sua terra as suas casas vão sendo atacadas e destruídas. Mas no seu lugar de exílio são também prisioneiros porque as autoridades libanesas não os deixam sair do local de trabalho. O ‘recolher obrigatório’ faz com que os prédios que constroem sejam também o local em que comem, dormem e vivem a sua vida.

Bastante formal, outro filme sobre o tema dos refugiados: o holandês ‘Stranger in Paradise’ de Guido Hendrikx, uma irónica peça em três actos, ficção de base documental, em que um actor tem posições  distintas perante grupos de refugiados africanos – primeiro um discurso conservador, xenófobo e anti-imigração, depois um olhar liberal e humanista e finalmente a confrontação com a rigidez e a burocracia das regras que regulam a concessão de autorizações de residência na Holanda (e, seguramente, noutros países europeus).

O mundo em mudança e a preservação da memória

‘The First Shot’, de Federico Francioni e Yan Cheng

‘Era uma vez Brasília’, de Adirley Queirós

‘Dragonfly Eyes’, de Xu Bing

Nova referência ao palmarés para citar ‘Dragonfly Eyes’ do chinês Xu Bing que recebeu uma menção honrosa. Este é um filme de ficção, com uma história concebida pelo autor. Só que as imagens que a sustentam são as recolhidas ao longo do tempo por várias câmaras de vigilância de locais públicos ou semi-públicos, engenhosamente montadas para dar a necessária consistência à história que é contada. Temos portanto uma ficção com imagens reais o que é, no mínimo, um trabalho de grande imaginação criadora. Será que se pode catalogá-lo como ‘documentário’?

Sobre a China, o contraponto entre uma sociedade ancestral que está a desaparecer e a febre da construção e da mudança, é ‘The First Shot’ de Federico Francioni e Yan Cheng, um filme de resistência e de tentativa de preservação da memória de um tempo e de lugares em acelerado processo de transformação. Afinal uma ideia central da edição deste festival que agora chegou ao fim: o Arquivo e a Memória.

Uma citação final para um curioso filme brasileiro que também foi premiado em Locarno: ‘Era uma vez Brasília’ de Adirley Queirós, um documentário sobre a actual e nebulosa situação política do Brasil travestido de história de ficção científica.

E para terminar o palmarés do Porto/Post/Doc 2017

Grande Prémio Porto/Post/Doc – Meteors’ , Gürcan Keltek, 2017, Holanda/Turquia

Menção Honrosa – Dragonfly Eyes’, Xu Bing, 2017, China/EUA

Prémio Biberstein Gusmão (para autores emergentes) – Residência artística Moinho da Fonte Santa

Ziad Kalthoum por ‘Taste Of Cement’, 2017, Alemanha, Líbano, EAU, Qatar

 Prémio Cinema Novo

  • Melhor filme – Proxima’, Igor Dimitri, Gabriel Martinho, 2017, Argentina
  • Menção Honrosa – De Madrugada’, Inês De Lima Torres, 2017, Portugal

Prémio Teenage

  • Prémio atribuído por um grupo de alunos de escolas do Grande Porto a um filme de um conjunto transversal a vários programas –   ‘Makala’, Emmanuel Gras, 2017, França
  • Menção Honrosa‘Drib’, Kristoffer Borgli, 2017, Noruega

 Prémio Arché

  • Prémio para o melhor projeto da Oficina Arché. Residência artística Moinho da Fonte Santa
  • ‘A Olhar Para Ontem’ , Nevena Desivojevic

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