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João de Sousa

Sábado, Junho 22, 2024

o homem feliz, mas que sonhava em ter um terno

agnaldo saiu cedo pra roubar, como faz há uns quinze anos: o despertador tocou, 6 da manhã, lavou o rosto, passou pelo quarto da pequena brigitt, voltou pra dar uma lambidinha nas coxas da sônia e rumou pro centro, seu ponto.

são três conduções até o largo, uns 50 minutos. e tudo pronto. cumprimenta o pessoal da banca, dá um beijo na mão da mariah, a cartomante, e sai pra região do porto. gosta de viajantes. encontra sua vítima. caminha perto. boa desenvoltura. anos de malandragem.

vasculha as bolsas sem ser percebido, pega uma carteira, algum dinheiro, alguma bijuteria. age com rapidez, no empurra empurra da calçada apertada. não rouba senhoras idosas. vai acumulando tudo ali na blusa e, perto das onze, encosta no largo novamente pra contar o resultado e comer algo.

outros ladrões estão na área, hora de descanso, se conhecem de vista, de passada no meio das gentes, mas não se fala nisso. os assuntos são sempre os mesmos: o flamengo, a política, o transporte. depois, jogam uma bola na areia da praça, trabalhadores todos juntos, o agnaldo joga num time de operários de um prédio em frente. nos intervalos, dominó e damas.

a praça se ilumina com os sorrisos dos guerreiros da cidade grande. ganha vida. quatro da tarde começa tudo novamente. desta vez no metrô. carteiras sequestradas. bolsas abertas. dinheiro trocado. notas grandes. vez em quando um salário todo sacado, na borrachinha, ou um macinho de dinheiro. uma multidão de cartões de crédito, carteirinhas, identidades, cpfs. tudo ele coloca num saquinho e joga na lixeira, fora de alguma estação, pra ser achado e devolvido.

pelas oito e meia da noite ele chega em casa. anda sempre de chinelo e bermuda longa. gosta de camisetas de clubes. a sônia está no sofá vendo a novela, pés pra cima por causa do pequeno pedro que chega em setembro e lhe incha as pernas, brigitt quer contar dia na escola. bom pai. jantam. oram. dormem. na madrugada ele sempre acorda, olha pro teto. sonha de olhos atentos. queria ser advogado. ou bancário. pra poder trabalhar de terno. mesmo assim, pensa, é feliz.

As frases todas iniciadas em letra minúscula é uma opção estética do autor

Por Luiz Henrique Dias, Escritor  | Texto em português do Brasil

Exclusivo Editorial PV / Tornado

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