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Quinta-feira, Julho 7, 2022

O logro das “oportunidades” de sucesso

Arnaldo Xarim
Arnaldo Xarim
Economista

A proliferação da muito liberal ideia de sucesso e da oportunidade de sucesso que conduzirá os mais aptos ao nirvana do bem-estar poderá ser fortemente atractiva para muitos, mas não passa da repetição da ideia que há décadas alimenta a desigualdade e que mais não faz que oferecer mobilidade social a um pequeno grupo enquanto os padrões de vida da maioria das pessoas continuam a degradar-se.

O completo desajustamento do conceito das oportunidades de sucesso, tal como é definido pela ortodoxia liberal e neoliberal, não se resume ao disfuncionamento da agenda de mobilidade social nem ao agravamento do problema trazido pelo aumento da precariedade laboral; o foco da ilusão é também a apresentação dos grandes centros populacionais como modelo de prosperidade e desenvolvimento, escondendo que estes são invariavelmente focos de desigualdade, e a constante tentativa de levar as regiões mais desfavorecidas ou despovoadas pela atracção dos grandes centros a escolher a via por eles seguida.

Os sinais positivos transmitidos pela evolução da estimativa da desigualdade medida pelo coeficiente de Gini – indicador de desigualdade na distribuição do rendimento que pretende traduzir o valor da assimetria dessa distribuição, varia entre 0 (quando todos os indivíduos têm igual rendimento) e 100 (quando todo o rendimento se concentra num único indivíduo) – aplicado à realidade nacional revela uma tendência de melhoria mas também a sua grande fragilidade face às conjunturas adversas recentemente registadas.

Fonte: https://portugaldesigual.ffms.pt/evolucaodasdesigualdades

Refira-se ainda que esta melhoria de modo algum pode servir para disfarçar que no universo europeu ombreamos com os piores, que ela não deverá conhecer significativos progressos, uma vez que o aumento do salário mínimo não foi acompanhado por aumentos equivalentes nos níveis salariais médios agregados (com os salários médios nominais e reais a apresentarem uma progressão muito menos pronunciada) e que a situação resultante dos efeitos da pandemia sobre as economias não pode ter melhorado.

Fonte: https://portugaldesigual.ffms.pt/evolucaodasdesigualdades

Não será, pois, novidade que as ideias de nivelamento social como têm sido habitualmente formuladas não venham a resultar em qualquer melhoria dos padrões de vida da esmagadora maioria das populações; do mesmo modo que nem outra coisa se poderá antever além do completo fracasso das políticas que deliberadamente preservam os interesses económicos e empresariais, cujo principal objectivo é precisamente o de fomentar as divisões que lhes asseguram a sua hegemonia, quando até os conservadores mais primários reconhecem a existência de um claro desejo público para reduzir as desigualdades mas actuam para protegerem as grandes empresas e os seus accionistas.

É assim que a questão da mobilidade social entrou na agenda política e a acelerou, até porque, como a realidade o tem demonstrado, as promessas não precisam de ter sucesso para pagar dividendos eleitorais, bastando um ou outro caso bem publicitado para ecoar nas manchetes da comunicação social. Assim, a correcta percepção de quem realmente beneficia de um sistema económico manipulado deve estar na primeira linha das preocupações de qualquer resposta que efectivamente pretenda enfrentar a questão dos desequilíbrios sociais e económicos do nosso tempo.

Ao contrário, a realidade tem-se mostrado pródiga na produção de relatórios e estudos sobre as melhores soluções para problemas como o da desigualdade de oportunidades (mesmo quando isso muitas vezes de resume a questões mais específicas como as das desigualdades de género ou étnicas) ou até o da desigualdade na distribuição de rendimentos; já os seus escassos efeitos registados, pouca ou nenhuma reflexão têm merecido. É que para as populações que há décadas vivem o dogma da infalibilidade do mercado e da privatização de serviços básicos essenciais, a formulação de perspectiva de banda larga gratuita, de um New Deal Verde ou da criação de empregos genuinamente estáveis pode, compreensivelmente, parecer bom demais para ser verdade e construir a credibilidade nessa mudança não pode ser atingido num curto ciclo eleitoral, exige um reflexo sobre a vida das pessoas que não parece ao alcance das figuras que até agora nos têm conduzido, nem dos demagogos que actualmente se apresentam revestidos de um sebastianismo serôdio.

 

O logro das “oportunidades” de sucesso – Parte I

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