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Domingo, Outubro 17, 2021

O mundo está a desdolarizar-se – Parte I

Arnaldo Xarim
Economista

PARTE I

A persistência de notícias sobre guerras comerciais e boicotes económicos de duvidosa justificação merece uma observação que vá além do mero facto relatado, do histrionismo do autor ou das consequências imediatas.

Depois de já ter abordado a relação entre o dólar e o yuan ou o uso do dólar como arma silenciosa, porque não pensarmos na hipótese de amanhã só os americanos usarem o dólar?

I – Introdução

A forma como os americanos continuam a utilizar a sua moeda como meio de manipulação das economias está a tornar-se cada vez mais evidente aos olhos de muita gente e a aumentar a percepção da necessidade de actuar no sentido de contrariar o seu excessivo poder sobre as transacções monetárias internacionais, controladas que são pelos bancos americanos e pelo sistema de transferência internacional (SWIFT) que permite e facilita todo tipo de sanções financeiras e económicas decididas pelos EUA, a apreensão de fundos estrangeiros, a interrupção de negociações entre países e a chantagem sobre nações que resistam ou contrariem os todo-poderosos interesses norte-americanos; a acontecer, esta mudança deverá representar um desanuviamento de muitas das tensões internacionais e um passo importante no sentido da paz e de uma estrutura geopolítica mundial de maior igualdade.

Quando o mundo se cansar do grotesco diktat de Washington e dos esquemas de sanções para quem não quiser seguir as sua regras opressivas, estaremos em condições de abandonar o dólar e valorizar outras moedas. Iniciar trocas comerciais e pagamentos noutras moedas significa operar fora do sistema bancário dos EUA e à margem do sistema SWIFT; e já estamos a assistir a indícios dessa mudança, seja com moedas tradicionais seja com as novas criptomoedas.

A estas, apontam os analistas mais tradicionalistas ou mais afectos aos interesses do dólar, a sua fragilidade e a ausência de regulação e supervisão, como se a moeda americana (como todas as restantes moedas) fosse menos fiduciária ou minimamente supervisionada e isso tem-se visto nas sucessivas crises que tem originado. Há mesmo quem recorde que na actualidade o dólar vale menos do que o papel em que é impresso, pois os cerca de 22 biliões de dólares actual de dívida norte-americana representam já 105% do PIB norte-americano que o Banco Mundial estima em cerca de 21,1 biliões de dólares. Se a esta realidade juntarmos a reconhecida tendência de crescimento daquela dívida (a qual é parcialmente detida na forma de títulos do Tesouro e usada pelos países credores como reservas cambiais) e a quantidade incomensurável de produtos derivados (instrumento financeiro que cria o seu valor a partir da diferença especulativa de activos subjacentes, tais como futuros, opções, forwards e swaps) em circulação em todo o mundo estaremos perante o equivalente a um enorme sistema mundial de pirâmide baseado no dólar.

II – As primeiras iniciativas

Ainda assim a tomada de consciência desta ameaça real não significa que o resto do mundo possa sair rapidamente da dependência do dólar. O montante total de activos e reservas nele denominados é de tal monta que só um processo gradual de troca do dólar por outra moeda – ou por um cabaz de moedas – poderá resultar; mas existem já sinais desta reorientação, como as conhecidas experiências chinesa, russa, iraniana e venezuelana com criptomoedas, com as quais aquelas economias (precisamente as que mais têm sofrido com boicotes e sanções económicas por parte dos EUA) pretendem construir novos sistemas de pagamento e transferência fora do domínio do dólar. A Índia, outra das potências emergentes, ainda parece hesitar quanto à opção a tomar, embora represente uma parte importante do enorme mercado económico que é a Eurásia, e seja um membro activo da SCO (a Organização de Cooperação de Xangai, que é uma associação de países que acordou o desenvolvimento de estratégias pacíficas para comércio, segurança monetária e defesa, que compreende a China, a Rússia, a Índia, o Paquistão, a maioria dos países da Ásia Central e à qual o Irão está em vias de aderir) que é o embrião de uma união político-económica que representa cerca de metade da população mundial e um terço da produção económica global.

Na mesma linha de libertação do dólar estão também os “bancos de troca” indianos, que dinamizados pelas políticas de sanções norte-americanas estão já a trocar chá indiano por petróleo iraniano e como só operam em moedas locais (rials iranianos e rúpias indianas) contornam fácil e naturalmente aquelas sanções.

III – O recurso a novas tecnologias

Noutro registo mais tecnológico, as criptomoedas (moedas digitais criadas e usadas em transacções na net, sem ligação a um banco ou instituição financeira) apoiadas na tecnologia blockchain (tecnologia de registo distribuído que visa a descentralização como medida de segurança e que está na base das criptomoedas), sob controlo governamental e regulamentada, poderão tornar-se a chave para combater o poder financeiro coercivo dos EUA, para resistir a uma política de sanções que se afigura cada vez mais arbitrária e recuperar a soberania política e financeira de cada Estado.

O Bitcoin, a mais conhecida de um leque de criptomoedas sem qualquer controlo ou regulamentação, está agora em vias de enfrentar a tentativa de um dos gigantes do ciberespaço, o Facebook, que já anunciou a criação da sua criptomoeda global: o Libra. Quase tudo se ignora sobre o seu funcionamento, excepto o enorme mercado potencial que constituem os mais de 2 mil milhões de utilizadores daquela plataforma social.

Factor a considerar, prontamente denunciado por vários dos activistas ligados às criptomoedas e à criptografia, é o facto do Libra não ser descentralizado, antes estritamente dependente do consórcio Libra Association, liderado pelo Facebook e que integra outros gigantes do ciberespaço como a Uber ou o Paypal. Apresentando-se como uma criptomoeda privada e originada por quem é (Facebook), o Libra parece-se mais com uma iniciativa daqueles que mais têm beneficiado com o estatuto e o funcionamento do dólar norte-americano que com uma efectiva tentativa para o substituir e minar os efeitos de uma possível desdolarização.

 

 


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