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O Problema da Política Identitária de Direita e de Esquerda

Em uma época como esta, em que o processo eleitoral é marcado por um debate acirrado entre as pautas de esquerda e de direita, vale resgatar o artigo de Gilad Atzmon, que trata de como a pauta identitária está relacionada à atentados de extrema direita como o ocorrido em Charlottesville, no estado da Virgínia (EUA), em agosto de 2017. Ele nos dá pistas sobre o que causou o avanço da onda ultra reacinária no Brasil.

  • 17 Outubro, 2018
  • Jornal Tornado
  • Colocado em Internacional
  • 4
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No meu recente livro Being in Time – a Post Political Manifesto, ressaltei que o Ocidente e especialmente os EUA têm sido levados na direção de um duelo identitário. Nesta semana no estado da Virgínia (Charlottesville) vimos uma amostra disso.  No livro argumento que a transição política da esquerda tradicional para a neo-esquerda (New Left) pode ser entendida como a defesa feroz de ideologias desagregadoras e sectárias. Enquanto a antiga esquerda esforçou-se para aglutinar todos: gays, negros, judeus ou brancos em uma luta política contra o capital, a neo-esquerda tem conseguido nos dividir em segmentos identitários. Somos adestrados a falar ‘como um…’: “como um judeu,’ ‘como um negro,’ ‘como uma lésbica.’ A neo-esquerda ensinou a nos identificarmos com nossa biologia, com nosso gênero, orientação sexual e cor da pele, desde que não seja ‘branca’, naturalmente.

No Being in Time (livro do autor deste artigo ainda não traduzido para o português), observei que era uma questão de tempo para as pessoas brancas também decidirem identificarem-se com sua biologia. E isto foi exatamente o que vimos na Virgínia no fim de semana passado.

Tragicamente a política identitária é um jogo político muito perigoso. Ele é concebido para separar as pessoas. Existe para causar conflito e divisão. Política identitária não oferece uma perspectiva harmoniosa da sociedade como um todo. Pelo contrário, leva a uma realidade social cada vez mais fragmentada. Tome como exemplo a evolução progressiva do grupo LGBT. Está constantemente se expandindo para incluir subgrupos cada vez mais sectários sexualmente (LGBTQ, LGBTQAI e até LGBTQIAP ).

Na realidade social da neo-esquerda, nós, as pessoas, somos enfiados em um gueto identitário definido pela nossa biologia: cor da pele, orientação sexual, mãe judia, etc.

Ao invés do que precisamos fazer: lutar juntos contra os endinheirados, os banqueiros, as megacorporações, lutamos entre nós, aprendemos a odiar uns aos outros. Até atropelamos uns aos outros com nossos carros.

Me oponho a todas as formas de políticas identitárias, quer seja branco, negro, judeu, gênero ou orientação sexual. Mas, naturalmente se judeus, gays e outros estão habilitados para se identificarem com sua ‘biologia’, as pessoas brancas estão habilitadas a fazerem o mesmo. Acho que costumávamos chamar a isso de universalismo, quando ainda nos importávamos com honestidade intelectual.

O problema criado pela política identitária é extremamente grave.

A política identitária não oferece uma perspectiva de paz e harmonia. Dentro do contexto da política identitária não podemos contemplar uma resolução pacífica do conflito vigente. Alguém pode vislumbrar a comunidade LGBT incorporando os ativistas da Ku Klux Klan em sua noção de ‘sociedade pluralista?’ O mesmo pode ser dito da KKK, irão eles abrir seus círculos para os marxistas culturais?

Política identitária é igual a duelo identitário, um conflito insolúvel, sem fim, a destruição total da civilização americana e, em certa medida, da civilização ocidental. Isso pode explicar porque o George Soros e sua Open Society estão comprometidos com esta batalha. Enquanto os trabalhadores estão se digladiando, ninguém se importa em desafiar a causa-raiz da atual distopia, nomeadamente os bancos, o capitalismo global, Wall Street, o mamonismo e assim por diante.

A solução é evidente. Os EUA e o Ocidente devem, imediatamente, romper com todas as formas de políticas identitárias. Ao invés de celebrar o que nos separa, devemos almejar o que nos une e nos faz um povo. Estou preconizando uma transição espiritual radical, ideológica e metafísica. Gostemos ou não de admitir, estes momentos de unidade são frequentemente invocados por ondas de patriotismo, nacionalismo e figuras religiosas. Mas também poderiam ser inspirados pelo espírito de justiça, igualdade, compaixão e amor. Nem a neo-esquerda ou a direita alternativa (Alt Right) oferecem isso. Ambas estão comprometidas com ideologias identitárias. O triunfo eleitoral de Trump, Corbyn ou até de Sanders ou Le Pen indicam um esgotamento geral do ser humano. A disposição para mudança está no ar.

A inflexão identitária e a primazia do sintoma

(Being in Time – a Post Political Manifesto, página 49)

A política identitária se manifesta como um conjunto de estratégias de identificação grupal. Ela submete o ‘eu’ em favor de identificadores simbólicos: o brinco na orelha apropriada, o piercing no nariz, o tipo de gorro, a cor do lenço e assim por diante.

Dentro do cosmo político-identitário, novas ‘tribos’ emergentes (gays, lésbicas, judeus, negros, brancos, veganos, etc.) desfilam para o deserto, levados em direção a uma atraente ‘terra prometida’, onde a primazia do sintoma (gênero, orientação sexual, etnia, cor da pele etc.) deverá desenvolver-se em um mundo próprio. Mas esta utopia liberal[1] é na prática um amálgama de guetos sectários e segregados que não se enxergam. Nada tem a ver com o cosmo inclusivo universal prometido.

“O pessoal é político,” como as feministas usuais e os pregadores liberais[1] tem difundido desde os anos 60, é uma frase concebida para dissimular o óbvio: o pessoal é na verdade a antítese do político. É, de fato, a disparidade entre o pessoal e o político que faz o humanismo um progressivo intercâmbio conhecido como história. No discurso identitário, o assim chamado ‘pessoal’ substitui o individualismo verdadeiro e genuíno pela falsa identificação com o grupo – suprime todo senso de autenticidade, enraizamento e pertencimento, em favor de um simbolismo e coletivismo imaginário que é apoiado por rituais e chavões vazios. Por que estamos dispostos a nos sujeitarmos à política baseada na biologia, e quem escreveu esta nova teologia encontrada em panfletos e em crescente número de livros didáticos sobre estudos identitários? Há um Deus contemporâneo? E quem criou a ‘coluna de nuvem’ que todos devem seguir?

É nítido que elementos da neo-esquerda, junto com progressistas judeus e a intelligentsia liberal[1], tem estado no âmago da formação da fundação ideológica da política identitária. Pelo menos, tradicionalmente, ambos judeus liberais[1] e a esquerda estavam associados à oposição à qualquer forma de agenda política exclusiva baseada em biologia ou etnia. Ainda assim, alguém pode perguntar-se por que a neo-esquerda abraça uma agenda tão exclusivista, sectária e biologicamente motivada?

 

Notas

[1]liberal nos EUA equivale a ser de esquerda

 

Texto original em português do Brasil | Traduzido por Língua Geral

Exclusivo Editorial Rádio Peão Brasil / Tornado

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