
A UE, as Nações Unidas, o NAFTA e mesmo a OTAN foram severamente abaladas e o seu futuro está em questão; o TPP (Parceria Trans-Pacífico) desapareceu; os EUA e a Rússia anunciaram uma parceria; o Presidente Republicano dos EUA substituiu os alter-mundialistas na vanguarda da guerra à mundialização e mandou às urtigas o consenso ambiental internacional.
Por outro lado, o fanatismo misógino islâmico (de várias facções) levou já um pontapé da Casa Branca e a China viu recusada a sua ocupação do mar do Sul da China.
No Médio Oriente, precipitam-se as mudanças: o mundo árabe questiona a sua manipulação pelo racismo antissemita ocidental (e aqui há noventa, não há setenta anos) e declara querer normalizar as relações com Israel, enquanto a Rússia de aliado iraniano passa a árbitro na Síria e declara apoio aos árabes contra o Irão no Iémen.
Em Davos, os dirigentes comunistas chineses apresentam-se como os líderes da globalização e do mercado livre.
Muitas destas mudanças não se vão revelar sustentáveis. Da mesma maneira que o tratado germano-soviético que tornou possível o desencadear da segunda guerra mundial não durou dois anos – os socialismos nacionais de Hitler e Estaline tinham ambições imperiais não compagináveis – muito do que foi posto agora em marcha não vai poder subsistir. Resta saber o que vai quebrar e o que vai permanecer deste caos pós tornado que se abre perante os nossos olhos.
No Ocidente, são raros os que conseguem entender o que se passa e nada mais conseguem fazer do que amaldiçoar Trump de manhã à noite, como se fazendo-o conseguissem pôr o mundo a girar como dantes. Mesmo os melhores articulistas por quem tenho a maior consideração mostram-se incapazes de reagir.
Martin Wolf, o chefe da equipa económica do Financial Times, escreveu no dia 25 um patético editorial que declamava a lição que se recebe na primeira aula de Economia Internacional sobre as vantagens do comércio livre em resposta às medidas de Trump. Como explicava um cidadão do “rust-belt” a um articulista que não entendia por que razão ele reclamava contra o fecho da fábrica numa cidade onde o hipermercado não conseguia contratar trabalhadores (cito de memória, posso enganar-me no detalhe, mas o essencial da mensagem era esta): “ganhar trinta dólares à hora numa indústria que fechou portas e reabriu no México não é o mesmo que ganhar 11 dólares à hora na Walmart”.
E esta verdade não se aprende nos bancos das faculdades. Só está disponível para quem não tenha medo de sair do seu casulo. Para que a globalização funcione, não é apenas necessário que forneça soluções mais eficientes, é também essencial que todos os parceiros possam sentir-se ganhadores com as soluções encontradas, mesmo que em proporções diversas.
Obviamente que muito do que Donald Trump prometeu (e diga-se de passagem Bernie Sanders também tinha prometido) e está a fazer, não faz sentido, e não vai ter os resultados anunciados. Abstenho-me por ora elaborar sobre este assunto porque não considero útil juntar a voz à cacofonia reinante a esse propósito.
Em vez de ladainhas ao passado, precisamos de pensar a globalização de forma diferente, assegurando que no jogo todos ganham algo e não temos apenas alguns a ganhar e muitos a perder; promovendo a prestação de contas dos que estão em cargos de decisão; acabando com a ilusão de que apenas interessa passar bem nos ecrãs de televisão sem olhar ao que de facto se faz e pensando mais na cidadania do que em tribalismos identitários.
Em vez de escarnecer Trump, melhor seria perder algum tempo a perceber por que razão ganhou ele as eleições, se não queremos ver o cenário repetido por esta Europa fora, com consequências potencialmente mais dramáticas, porque poderão passar por ver postos em causa sistemas democráticos.


