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Segunda-feira, Janeiro 24, 2022

Os grelos

José Cipriano Catarino
Professor (aposentado) de Português. Licenciado em Estudos Portugueses e Franceses pela Faculdade de Letras de Lisboa. Mestre em Linguística pela mesma faculdade.

Fui criado com mimos, de comida, de linguagem. À ceia, a que hoje chamamos jantar, os malditos grelos, em abundância, pouca batata, prontamente comida, meio ovo cozido.

– Come-me esses grelos, ladrão!

– Não gosto!

– Até tos meto pelos olhos dentro!

Fui criado com mimos, de comida, de linguagem. À ceia, a que hoje chamamos jantar, os malditos grelos, em abundância, pouca batata, prontamente comida, meio ovo cozido.

– A metade dele é maior ‘ca’ minha!

– Cortei o ovo a meio, não tenho régua na faca!

– Pois, mas a mim dá-me sempre a metade mais pequena!

– Cala-te, lambona! São iguais, mas se fosse maior, que mal tinha? Ele é homem!

– E o que é que isso tem?

Não dava já para comparar metades, que a minha tinha desaparecido com as poucas batatas, no prato ainda cheio restavam, verdoengos, agoniativos, amargos como fel, os grelos com os seus talos, paus chamava-lhes eu, que se enrolavam na boca e não atravessavam a garganta. Dia bom, as galinhas tinham posto dois ovos, coisa rara no Inverno, um para o meu pai, quando vier cear, o outro para nós. Para a minha mãe, que parte e reparte, mas como mãe fica com a pior parte, os grelos mal azeitados, azedos como ela, exasperada com as nossas brigas, sobretudo com a minha recusa em engolir o pitéu, que mais nada tinha para me dar.

Por isso volta a gritar, que coma os grelos ou mos enfia pelos olhos adentro, pelas goelas abaixo, quem manda, diz, é ela, aí vão eles à força, empurrados com bofetadas, arrepelões, safanões, passam o estreito, Ah, mas nasci torcido, hei-de ter a última palavra, e vomito-os triunfalmente.

– Malandro, não comes, vás prá cama com fome! E vou, orgulhoso, triunfante.

Traumas de infância. Este tão grave que hoje não troco simples grelos cozidos por qualquer comida gourmet da moda. E sempre, enquanto me delicio com os grelos azedos, recordo com remorsos o que fiz sofrer a minha pobre mãe, recusando comê-los naqueles tempos de penúria.

Cá se fazem, cá se pagam.


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