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Quinta-feira, Julho 7, 2022

Os vários tiros de Bolsonaro

Marcelo Brettas
Marcelo Brettas
Marcelo Brettas é jornalista, editor, romancista, cronista, contista e poeta. Já editou mais de mil publicações periódicas. Escreveu ainda para jornais e revistas de diversos países. Tem diversos livros publicados, sendo Tô Levitando e Florestas Imaginárias os mais recentes.

Longe dos grandes centros e dos olhares atentos da mídia, outra criança foi assassinada. Na cidade de Barreiros, na Zona da Mata de Pernambuco, no nordeste brasileiro, o pequeno Jonatas de Oliveira dos Santos, de apenas 9 anos de idade, foi morto a tiros em ataque que aconteceu em uma noite de quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022. O garoto tentava se esconder embaixo de uma cama da casa enquanto o se u pai Geovane da Silva Santos, uma das principais lideranças comunitárias da região era atacado por sete homens armados e encapuzados que se anunciavam como policiais. O pai, baleado no ombro esquerdo, conseguiu fugir, já o filho…

Mas, esse não é só mais um caso policial, ele faz parte de um roteiro dramático e perverso de incentivo e proteção às milícias e de flexibilização para a compra e porte de armas que ganhou um grande impulso desde a chegada de Jair Bolsonaro à presidência.  O pano de fundo de mais essa morte é o conflito pela posse de terras e, do outro lado, a defesa dos interesses da comunidade. Nada muito diferente da motivação para o assassinato de Marielle Franco, que já completa quatro anos, cometido por milicianos em março de 2018, sem que os mandantes tenham sido apontados até hoje. Similar também a centenas de atentados sofridos nesses últimos anos por defensores das causas populares em diferentes regiões do Brasil.

É verdade que crimes sempre ocorreram no país e que já existiam antes de Bolsonaro chegar ao poder. Mas, também é verdade que nunca antes tivemos um presidente, ou mesmo um ditador militar como os do período entre 1964 e 1985, que defendesse tão abertamente a venda de armas e a ação das milícias como ocorre hoje.

Aqui, é importante um corte para entender quem são e o papel das milícias, braço de apoio de Bolsonaro e de seus filhos. Seu embrião surgiu no período da ditadura militar, com grupos de extermínio que foram chamados de Esquadrão da Morte. Mas o formato atual, desses grupos parapoliciais, surgiu no final da década de 70, no Rio de Janeiro, com a justi fica de que seriam uma “proteção” às comunidades mais pobres frente ao grande avanço da criminalidade e do narcotráfico nessas regiões. Para se financiar utilizavam (e ainda hoje utilizam) recursos extorquidos dessa mesma população através da exploração clandestina de serviços essenciais como água, gás, internet, TV a cabo, ou praticando a agiotagem, controle sobre a venda de imóveis, cobrança de taxas de proteção e mais uma série de atividades ilegais . São formadas por policiais, bombeiros, guardas municipais, agentes penitenciários e militares, fora de serviço ou ainda na ativa. Hoje, em suas fileiras, estão ainda moradores das próprias comunidades, além de criminosos, ex-traficantes, pastores e contam com respaldo e proteção de políticos e algumas lideranças comunitárias locais. As milícias só foram criminalizadas no Brasil no dia 28 de setembro de  2012, com a lei que tipificou como crime a formação de milícia ou de organização paramilitar sancionada pela presidente Dilma Rousseff.

Jair Bolsonaro e sua família nunca negaram a sua admiração e apoio a torturadores e milicianos. Um de seus filhos, Flávio Bolsonaro, empregou em cargos públicos, dentro de seu gabinete, milicianos e seus familiares e em 2005, quando era deputado, chegou a homenagear em sessão oficial o ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais (Bope) e chefe de uma das facções mais violentas da milícia do Rio de Janeiro, Adriano Magalhães da Nóbrega, citado no esquema de “rachadinha” no gabinete de Flávio e morto de forma suspeita no início de 2020.

Dentro desse mesmo projeto nefasto, que apoia e dá suporte às milícias, Jair Bolsonaro vem criando e armando o seu exército particular. Desde que ele foi eleito o número de armas registradas por ano no Brasil foi multiplicado por quatro e a indústria armamentista é hoje uma das que mais cresce percentualmente no país. Em agosto de 2021 ele bradou: “Todo mu ndo tem que comprar fuzil, pô. Povo armado jamais será escravizado”. Para garantir isso ele já publicou 31 alterações na política de acesso a armas no Brasil desde o começo de seu mandato, em janeiro de 2019, fazendo com que o número de novos registros de armas feitos junto à Polícia Federal quadruplicasse em 4 anos, passando de 51.027 no ano de 2018 para 204.314 em 2021. Mas Bolsonaro ironiza esse aumento de armas no Brasil: “Eu quero que quintuplique”.

Seguindo o roteiro proposto por seu ídolo Donald Trump, Jair Bolsonaro que está bem atrás nas pesquisas de voto para as eleições presidenciais desse ano, já questiona a honestidade das urnas eletrônicas, convoca militares e apoiadores e parece flertar com uma louca aventura pelas armas, armas que ele tanto defende.

Fundamental que os brasileiros e o mundo estejam atentos para qualquer movimento e para os passos seguintes dessa cruel e perigosa armadilha e saibam que o dedo de um governante é cúmplice de todos esses assassinatos e do sangue que ameaça nossas ruas.


Texto em português do Brasil

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