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Segunda-feira, Julho 4, 2022

Carta à minha memória

Filipa Vera Jardim
Filipa Vera Jardim
Mantém o blogue literário “Chez George Sand” onde escreve regularmente.

XLVI. Amanhã, vou ter quinze anos outra vez.

Minha memória,

Amanhã vou ter quinze anos outra vez, vou  acordar com o sol alto e nenhuma vontade de trabalhar. Esticar o meu corpo leve e despreocupado e sair a correr. O dia vai voar e eu com ele, por dentro das gargalhadas dos amigos que deixei lá longe numa curva qualquer da vida e que  por causa deste amanhã, com quinze anos outra vez, voltarei a encontrar.

Vou revê-los um a ou nos seus rostos imberbes, nas suas promessas por cumprir, nos seus sonhos tão reais como o foram nesse tempo. Vou revê-los e abraça-los nesse abraço longo dos quinze anos que é para sempre e, ter a absoluta certeza de que nunca os irei perder. De que nunca mais os irei perder.

Com quinze anos todos os planos são para sempre e para já. O tempo cavalga  numa sinfonia arrebatada. As horas sucedem-se, é certo, mas ninguém repara nelas. Não há sinais de abrandamento nem fios de cabelo que perdem a cor. Aos quinze anos a vida agita-se em passo de corrida, ninguém se lembra de olhar para trás e daquilo que se passou. Não interessa sequer, o que passou.  Apenas  importa o que há por viver. E o que há por viver, aos quinze anos,  é quase sempre  o tempo  todo da eternidade.

Da memória, tem-se apenas uma leve e ténue lembrança. Os sonhos são curtos e os sonos demorados  e quase sempre despovoados de fantasmas.

Amanhã, depois de acordar vou ficar por aí a nadar no mar quente dos meus anseios.  Descobrir que o meu corpo afinal passa facilmente por cima do horizonte.  As pernas leves, tão leves e os braços abertos no tamanho de quase tudo.

Lembra-me minha memória, porque amanhã, eu vou ter outra vez quinze anos.  Os meus braços podem perfeitamente transformar-se  em asas de borboleta e o riso, esse riso de que nunca mais me lembrei…Vai explodir célere nas esquinas da minha cidade.

Não me lembro de correr outra vez pela minha cidade como o fiz aos quinze anos. Ora abraçando  as esquinas , já sem fôlego, ora demorando o passo nos caminhos. Cada prédio estava povoado de rostos, tantos rostros.

Amanhã, vou voltar a encontrar esses rostos exactamente como eles eram. O dia vai povoar-se de cabelos longos e correrias. De alguns poemas, que lerei  para depois recordar.

Tudo o que eu viver amanhã, ficará comigo. Bastar-me-á depois o tempo todo que me resta para poder disfrutar de um facto inolvidável e irrepetível na minha vida, como é o poder de transformar o meu presente e o meu futuro desta forma, porque amanhã, decidi eu hoje, eu vou ter outra vez 15 anos.

É possível sim, voltar a ter quinze anos. Basta para isso abrir as mãos, sem medo e deixar que lhes pouse, muito ao de leve, um brevíssimo instante de eternidade.

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