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Sexta-feira, Outubro 22, 2021

Os velhos são “o outro”

Rui Galiza
Jornalista

Corria o passado mês de novembro, deste ano da desgraça de 2020, para o seu final, quando o país despertou em sobressalto. O caso não foi para menos. Afinal, na proposta preliminar duma comissão de especialistas da Direção-Geral de Saúde (DGS), sugeria-se que os nossos concidadãos com mais de 75 anos não tivessem acesso prioritário à vacina contra a covid-19.

O Presidente da República referiu-se à proposta como “uma ideia tonta”. Já o Primeiro-ministro, recusando adjetivos, recusou liminarmente tal sugestão. A coisa ficou por ali e, tudo indica, o grupo etário que constitui a maioria das vítimas mortais da pandemia vai mesmo ser dos primeiros a ser chamado à campanha de vacinação que já se avizinha.

Na ocasião, o grupo de especialistas da DGS apresentou alguns dados técnicos para apoiar a sua proposta. Fazendo o resumo do resumo, uma pequena diferença percentual na eficácia da vacina em organismos menos jovens justificaria a tal recomendação. Mas outras exclusões, menos técnicas e mais político-sociais, cada vez mais presentes nas novas dinâmicas sociais, afiguram-se bem mais tontas. E perigosas. Desumanamente perigosas.

Os velhos estão a morrer. É de sua natureza, poderão argumentar muitos. Mas há mortes e mortes. Há o passar os últimos momentos nesta vida rodeado de apoio familiar e há o morrer isolado do contacto de filhos e netos. Há o morrer por chegar naturalmente ao fim da vida ou porque a medicina já mais nada pode fazer, e o morrer porque o Serviço Nacional de Saúde está a passar o não-covid para segunda prioridade. E, principalmente, há o morrer na tranquilidade própria de quem passou uma vida de sacrifícios para proporcionar às gerações mais jovens aquilo que nunca teve, e o atravessar os últimos momentos da sua vida acossado pelas mesmas gerações mais novas herdeiras dos sacrifícios de quem as antecedeu, de arcar com as culpas pelos males do mundo.

Da “peste grisalha” mais associada às hostes neoliberais, passando pela culpa por qualquer-coisa-de-estrutural mais própria dos redutos identificados com a esquerda pós-moderna, os opostos (???) parecem atrair-se na condenação dos velhos, esse grupo que constituí um novo “outro” desprovido de humanidade e carregado de “pecado”, que acaba assim por constituir um peso. Um peso económico nocivo para a saúde das finanças públicas ou um peso que constitui um travão à implementação das novas normas sociais. O outro. Os velhos. Um peso. Dispensáveis em prol de um mundo melhor.

Talvez se imponha assim proceder a um exercício, com a frieza própria de quem recorre aos números para retirar algumas conclusões, para tentar perceber quem são afinal os “nossos velhos”. Fica desde já a promessa de não exagerar nos números. Afinal para ambientes desprovidos do calor próprio dos sentimentos humanos, chegarão as conclusões do conjunto de especialistas da DGS, as teorias economicistas próprias do neoliberalismo ou as conclusões moralistas impregnadas de culpa dos herdeiros do pós-modernismo.

Entre 1960 e 1970, quando os agora velhos entravam na idade adulta, a percentagem de população com ensino superior completo no país não chegava a 1% (0,9%), a esperança média de vida não chegava ao 65 anos de idade, o analfabetismo afetava mais de um quarto da população, o número de médicos por 100 mil habitantes cifrava-se nos 79 e a mortalidade infantil e à nascença era a mais elevada da Europa, morrendo-se de doenças já então controláveis através de campanhas de vacinação ou causadas pela subnutrição.
Por falar em Europa, atualmente, em alguns dos indicadores referidos, a média do país supera a europeia.

Saindo dos números e percentagens, estamos perante uma geração que nasceu em ditadura e repressão, atravessou períodos de fome e miséria, apanhou a incorporação para uma anacrónica guerra colonial, saiu em massa do país, na condição de clandestinos, para fugir à miséria e à guerra numa terra distante que nunca foi deles e de cujas riquezas nunca beneficiaram. Os que por cá ficaram, sujeitaram-se à fome, ao pé descalço, à sardinha com ovo cozido a dividir por sete, à vigilância e repressão da polícia política e dos tribunais plenários, à quarta-classe (com raiz quadrada!), à fome no campo ou nos bairros operários. A lista poderia continuar. Das mulheres que trabalhavam a dias em casa dos “senhores” onde entravam por acessos de serviços, aos homens contratados “à jorna” por qualquer espécie de senhor feudal, mas fiquemos por aqui.

Em 1941, Soeiro Pereira Gomes dedicou uma das obras maiores do neorrealismo português – “Esteiros” – aos filhos dos homens que nunca foram meninos. Por uma questão de cronologia tais filhos são hoje os nossos pais e avós que, por sua vez, também nunca foram meninos (a frieza dos números…), mas foram sem dúvida aqueles cujos filhos já beneficiaram do privilégio de uma infância que cumpria “os mínimos”. Digamos que foram os primeiros a criar as condições para o direito alargado à infância plena em Portugal.

Talvez não fosse má ideia que outros meninos herdeiros destes sacrifícios, meninos que entretanto cresceram, educados sob os cânones das academias de economia e gestão de inspiração neoliberal, ou das academias de ciências sociais made in USA, deixassem de “ser meninos” e reconhecessem o que devem aos que estão a morrer sozinhos acossados por uma pandemia. Os que são um peso para as contas do estado ou um obstáculo às novas normas sociais são os qu

e deram os passos decisivos para a existência de um estado social e à abertura da sociedade. Afastá-los, excluí-los, culpá-los não é apenas profundamente errado e racionalmente estúpido: é cruel. E não serão eles, os velhos, o outro que está a morrer, a deixar no mundo uma marca de crueldade…. Seria, talvez, conveniente que os seus descendentes seguissem esse exemplo.
Pensem nisso.


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