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Quinta-feira, Outubro 21, 2021

Palavras…

João de Almeida Santos
Director da Faculdade de Ciências Sociais, Educação e Administração e do Departamento de Ciência Política, Segurança e Relações Internacionais da ULHT

Poema de João de Almeida Santos.
Página de “O Livro de Cesário Verde”,
ilustrado por João Vieira.

PALAVRAS…

“Pinto quadros por lettras, por signaes,
Tão luminosos como os do Levante,
Nas horas em que a calma é mais queimante,
Na quadra em que o verão aperta mais”

(Cesário Verde)

P’ra que serve
Este poema,
Meu amor?
“- Para nada!”,
Dizes tu,
“- São as palavras
Que usas
P’ra te sentires
Menos nu”.

P’ra que servem
Estas palavras
Se forem
Ditas em prosa?
Para nada,
Digo eu,
São retratos
De uma vida
Quando ela
Esmoreceu
E foi triste
A despedida.

Palavras
São como vento,
Vão,
Voltam
E mudam
D’intensidade,
Sopram forte
Ou de mansinho,
São volúveis
De verdade,
Vão p’ra sul
Ou para norte,
Mas cruzam
O teu caminho
Tenhas tu,
Ou não,
Vontade!

São intangíveis,
São sinais…
…………….
Podem ferir
Como espada,
Às vezes
Como silêncio
Outras vezes
Como nada…
…………………
Nas despedidas
Do cais.

As palavras
Têm eco,
Se as lanças
Logo voltam
E de forma
Inesperada,
Ganham vida,
Que é fugaz,
Mas tornam-se
Uma cilada
Se com elas
Fores audaz
E a mensagem
Não cifrada.

Elas servem
P’ra dizer
O que não
Quero calar,
Mas nelas
Posso esconder
O que não
Vou revelar…

Dizem sempre
O que eu sinto
Sem ter que
Isso dizer,
Às vezes
É proibido,
Mas outras
É por não
Querer.

E assim são
As palavras!
Parecidas
Com a vida,
Até servem
P’ra chorar
Tristezas de
Despedida.

“ – P’ra que serve
O teu poema?”,
Dizes tu,
Para acabar.
Sublima
A emoção
P’ra da dor
Me libertar.

Eu digo sempre
O que sinto,
Escrevendo
Com o vento,
Mas nele
Eu até minto
E o vermelho
É cinzento!

É palavra
Inocente
Que chega
Ao seu destino
Como o Sol
Vai a poente
Num poema
Cristalino.

P’ra que servem
Estas palavras
Se elas não
Me dão cura?
Pelos menos
São sinais
De quem
Te vê
Com ternura.

São palavras,
Meu amor!


Ilustração: Página de “O Livro de Cesário Verde”, ilustrado por João Vieira (Lisboa, Tiragem, 2005, p. 93)

Primeira publicação no blog do autor 

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