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João de Sousa

Segunda-feira, Maio 23, 2022

Paralelo 38

Paulo Casaca, em Bruxelas
Paulo Casaca, em Bruxelas
Foi deputado no Parlamento Europeu de 1999 a 2009, na Assembleia da República em 1992-1993 e na Assembleia Regional dos Açores em 1990-1991. Foi professor convidado no ISEG 1995-1996, bem como no ISCAL. É autor de alguns livros em economia e relações internacionais.

Quando no princípio de 2011 me aproximei do paralelo 38, ainda no território da Coreia do Sul, recordei-me naturalmente do seu equivalente europeu – o muro de Berlim – que nos ajuda ainda hoje a situar a problemática da Coreia do Norte tal como vista a partir da Europa.

1. O muro de Berlim‘As asas do desejo’ – versão portuguesa do ‘Céu sobre Berlim’ de Wim Wenders – saído em 1987, pouco antes do desabar do muro de Berlim é um testemunho imperdível do que foi essa marca da guerra fria, alucinante e alheia a toda a racionalidade.

Da primeira vez que entrei em Berlim levei dias a ruminar o muro e tudo o que ele implicava. A autoestrada – feita de blocos de cimento tal como o antigo pavimento da autoestrada que saía de Lisboa para Monsanto (hoje a A5) e uma das duas ou três por onde as autoridades alemãs orientais deixavam circular o trânsito ocidental em direcção a Berlim Ocidental – parecia a colagem de dois mundos: à direita, os Trabant e similares orientais; à esquerda os Mercedes, BMW, Volkswagen e outros em sobranceira ultrapassagem.

Ao longo da fronteira Leste-Oeste estendiam-se altas vedações de arame farpado entrecortadas por extensas terras de ninguém, mas nada que se comparasse com a violência do muro com que deparávamos em Berlim; um muro que cortou prédios, ruas, cursos de água e mesmo o metro elevado que em Kreuzberg terminava num emaranhado desconcertante de ferros retorcidos. Outra linha de metro ocidental atravessava território oriental com estações fantasma, cobertas de densas camadas de pó e onde na penumbra se distinguiam apenas as figuras esfíngicas dos guardas orientais.

A Friederichstrasse, única passagem por onde os não alemães eram autorizados a entrar em Berlim Oriental, e também conhecida por ‘Check Point Charlie’ fazia jus aos muitos filmes de espionagem que a utilizaram.

A Friederichstrasse não deixava no entanto apreender a vivacidade das várias passagens reservadas a residentes de Berlim Ocidental, nem o ambiente das igrejas luteranas de Berlim Oriental que regurgitavam de literatura antirregime e desempenhavam o papel óbvio de centros informais da oposição.

De Berlim Ocidental apanhei boleia para Frankfurt A.M. na carrinha que fazia o transporte diário do Frankfurte Algemeine Zeitung para Berlim Ocidental e que avariou pouco depois de passado o muro, numa área de serviço perto de Potsdam, e que me permitiu fazer um quadro ainda mais vivo dos brutais contrastes com o Ocidente.

Os alemães orientais acediam livremente aos canais televisivos ocidentais mas não à imprensa escrita. No entanto, mesmo na fronteira, sucederam-se os guardas que se aproximavam da carrinha para solicitar um exemplar do jornal que escondiam debaixo do casaco. Enquanto estivemos parados em Potsdam, inúmeros camionistas fizeram o mesmo, até que tivemos de esconder os jornais caídos receando vir a ter problemas com a sua disseminação.

Nas lojas ‘intertourist’ orientais vendiam-se livremente bebidas espirituosas e tabacos de todo o género a quem pagasse com divisas, a tal ponto que, contrariamente ao que poderíamos esperar, eram os guardas ocidentais que vasculhavam as viaturas à busca de contrabando mais do que o contrário.

O ambiente era paradoxalmente mais descontraído a Leste do que a Oeste. Os trabalhadores das obras da estação de serviço passaram mais tempo em pausa de café do que com a picareta na mão; as multas por excesso de velocidade podiam ser pagas depois (e o condutor da carrinha que era multado por conduzir a 130 em autoestradas em que o máximo permitido era 100 acumulava no porta luvas um maço delas). Na verdade podiam nunca ser pagas, em total contraste com o pagamento a pronto exigido pela polícia ocidental.

Em suma, ao cabo de algumas semanas de Berlim e travessias pela Alemanha Oriental ainda nos anos setenta percebi que o anacronismo gritante do muro de Berlim estava a ser rapidamente corroído pela ‘Ostpolitik’ (política de abertura ocidental protagonizada particularmente por Willy Brandt).

A política de abertura ocidental – e que passava por pagamentos importantes às autoridades comunistas orientais – foi no entanto acompanhada por uma resposta firme nos dispositivos nucleares de defesa e numa importante presença militar americana, que retirava qualquer veleidade de conquista ou imposição militar oriental.

2. O comunismo norte-coreanoO paralelo 38 é o equivalente coreano à divisão da Alemanha pelas forças aliadas da segunda guerra mundial na guerra fria, e é por isso natural tentar encontrar paralelos entre as duas realidades.

A Coreia do Sul, tal como a Alemanha Ocidental, investiu bastante em iniciativas económicas (como a zona franca na zona fronteiriça) e em diálogos protagonizados por grupos religiosos sul-coreanos, enquanto o Ocidente – e em especial os EUA – fez dádivas substanciais, tanto em bens alimentares destinados a combater a fome (que terá feito milhões de vítimas e tornado o país um caso crónico de doenças de subnutrição) como em pagamentos destinados a compensar o pretenso não desenvolvimento de um programa nuclear.

Esta política – aparentemente semelhante à que foi desenvolvida na Alemanha – tem no entanto redundado em fiasco, encontrando-se o mundo nestes dias em que escrevo mais perto do que alguma vez já esteve de um desastre nuclear e químico de imprevisíveis dimensões.

Na verdade, as diferenças sobrelevam as semelhanças no paralelo entre a Alemanha Oriental e a Coreia do Norte. A Coreia do Norte – apesar de dever a sua existência ao apoio militar chinês – manteve-se fundamentalmente independente, equilibrando primeiro a sua dependência da China e da União Soviética e, depois do colapso soviético, resistindo a tornar-se completamente dependente de Pequim – mesmo que à custa de deixar morrer os seus cidadãos à fome – e equilibrando essa dependência com uma aliança com Teerão.

A monarquia comunista coreana manteve-se como uma das mais cruéis tiranias do mundo e refinou o sistema de apartheid político comunista para níveis sem precedentes. A Alemanha Oriental era território soviético ocupado, e os alemães tinham disso plena consciência. O regime em que viviam era dominado por uma omnipresente Stasi e claro pela prisão do muro, mas em tudo o resto incomparavelmente mais livre do que o da Coreia do Norte.

A dinastia Kim da Coreia do Norte – contrariamente ao que

fizeram os comunistas vietnamianos por exemplo – não realizou uma abertura condicionada a Ocidente para contrabalançar Pequim e a ausência soviética, mas pelo contrário, tornou o regime cada vez mais fechado e paranoico.

Em parceria com o Irão, a Coreia do Norte desenvolveu um programa nuclear baseado na rede Khan paquistanesa, e conseguiu passar à produção da bomba sem que o ocidente se desse conta disso em tempo oportuno, estando hoje a um passo de poder chantagear o resto do mundo.

Pior do que isso, os sinais de que o actual soberano comunista exibe sinais de socio-psicopatia, abundam. Mandou matar tio e irmão, como se temendo qualquer golpe palaciano e fez desaparecer a mulher que durante uns tempos foi vista com ele em público. Aparentemente diverte-se a ver as suas vítimas ser despedaçadas a tiro de canhão, e já condenou à morte quem era suspeito de seguir com menos atenção as suas palavras.

As suas ameaças de fazer o mesmo a quem no Ocidente lhe ouse fazer frente começam, também por isso, a ser tomadas a sério, e a colocar-nos perante a perspectiva de um holocausto nuclear.

3. Um quadro de conflito eminenteA política ocidental de ver o paralelo 38 como um muro de Berlim revelou-se um rotundo fracasso, tendo permitido à Coreia do Norte tornar-se uma potência nuclear e ameaçar todo o mundo.

A ruptura feita pela actual administração americana da política de apaziguamento seguida pelas suas antecessoras parece-me ser assim de um elementar bom senso. Não há rigorosamente nada a ganhar com a continuação de gestos apaziguadores com Pyongyang e os riscos tornam-se agora enormes.

Sobre as possibilidades de conseguir travar a ameaça química e nuclear norte-coreana, poderemos apenas especular. A questão decisiva parece ser a capacidade ocidental em sabotar ou interceptar os mísseis balísticos coreanos. Se essa possibilidade está longe de ser segura para o arsenal de terra, ela é mesmo remota para os mísseis baseados em submarinos.

É no entanto duvidoso que as autoridades norte-coreanas tenham conseguido prover os seus submarinos de mísseis nucleares e é incerto que eles tenham o potencial devastador requerido se munidos de gás Sarin ou outro agente químico semelhante.

Neste momento, parece também duvidoso que os aliados iranianos da Coreia do Norte possam ajudar em matéria de mísseis – em que parecem estar mesmo mais atrasados – sendo que tão pouco é provável ver a China empenhar-se em evitar uma resposta militar forte ocidental.

Posto isto, os riscos são enormes e ninguém poderá estar tranquilo quando as possibilidades de um confronto se vão aproximando. A opinião pública mundial vai reagindo com compreensível nervosismo, temendo o impacto de um conflito descontrolado.

Os próximos dias vão ser decisivos. O confronto será adiado se a Coreia do Norte conseguir prosseguir incólume a sua escalada, realizando novos testes nucleares e levando a cabo com sucesso lançamentos de mísseis ou se não o conseguindo fazer, conseguir um compasso de espera. O confronto pode por outro lado assumir uma forma controlada ou tornar-se uma escalada.

A Coreia do Sul – em profunda crise política depois da destituição da sua presidente – estará em situação difícil para encontrar uma resposta firme e decidida. Os sinais vindos da China também não são claros, sendo que apenas o Japão parece ter apostado sem reservas na sua aliança com os EUA.

Para o mal e para o bem, estamos por isso nas mãos dos estrategas do Pentágono, e só nos resta esperar que eles tenham um bom conhecimento da situação norte-coreana e uma estratégia eficaz para lhe fazer face.

 

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