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Sábado, Outubro 23, 2021

Pedro Soares

Helena Pato
Antifascistas da Resistência

(1915 – 1975)

Um homem exemplar na sua humanidade, modéstia e coragem. Cidadão da Resistência, que dedicou a vida à luta contra o fascismo, integrado no Partido Comunista Português, sofreu o pior da violenta repressão fascista, sem nunca vacilar ou se deixar abater. Passou 12 anos nas cadeias fascistas.Pedro Soares integrou o primeiro grupo de prisioneiros a chegar, em Outubro de 1936, ao Campo de Concentração do Tarrafal, onde iria permanecer (em dois períodos) durante sete anos. Aí, como os restantes presos, sofreu espancamentos, trabalhos forçados, condições insalubres e bárbaros castigos. Entre eles, merece especial destaque a «frigideira», para onde foi enviado por duas vezes e, a uma delas, durante 20 dias, seguiu-se a enfermaria por um período de 40 dias. Evade-se duas vezes das cadeias fascistas.

A sua vida iria terminar num trágico acidente automóvel, em 1975, quando regressava de uma reunião, acompanhado de sua mulher, Maria Luísa Costa Dias, uma médica católica, com quem partilhou a vida e a luta, desde a clandestinidade.

Homem exemplar na sua humanidade

Pedro dos Santos Soares nasceu em Beja, a 13 de Janeiro de 1915, no seio de uma família de fortes convicções democráticas e antifascistas. Com apenas 16 anos, era já colaborador de vários jornais publicados em Beja, escrevendo também no Jornal República, um dos principais jornais legais de orientação democrática. Em 1932, vai para Lisboa para aí prosseguir os estudos liceais e dá então início à actividade revolucionária: nesse mesmo ano, adere aos Grupos de Defesa Académica, que integram jovens estudantes democratas. No ano seguinte adere à Federação das Juventudes Comunistas.

Em 1934 é preso, quando participava numa manifestação de estudantes contra a «Acção Escolar Vanguarda», predecessora da Mocidade Portuguesa. Esta primeira prisão durou apenas cinco dias, mas no final desse mesmo ano, pelas actividades que então desenvolvia junto dos trabalhadores da região de Beja, é novamente preso e, na sequência desta segunda prisão, enviado para o Tarrafal[1].

Pedro Soares integrou o primeiro grupo de prisioneiros no Tarrafal

No Tarrafal, Pedro Soares esteve no limiar da morte – como muitos outros antifascistas – e nunca esqueceu a violência de assistir à agonia e à morte de companheiros e camaradas, vitimados pelos maus tratos, pela doença e pela carência de cuidados médicos[2].

Tal como sucedeu a outros prisioneiros, também ele tinha seguido para o Tarrafal após já ter cumprido – nas cadeias do Aljube, Peniche e Caxias – a totalidade da pena a que fora condenado em 1935 pelo Tribunal Militar Especial. No seu caso, o embarque rumo à ilha de Santiago, em Cabo Verde, dá-se precisamente no dia seguinte ao fim da sua pena.

Saiu do Tarrafal em 1941.


Pedro Soares (o 2º à esquerda) na conferência da Frente Patriótica de Libertação Nacional, realizada no estrangeiro. Com Mário Ruivo, Ruy Luis Gomes, General Humberto Delgado, Fernando Piteira Santos, Álvaro Cunhal e Tito de Morais

Ida para Moçambique e passagem à clandestinidade

Regressado a Lisboa, Pedro Soares retoma os estudos para concluir o curso na Faculdade de Letras. Depois de, em finais de 1941, ser um dos dirigentes da luta dos estudantes universitários de Lisboa contra o brutal aumento de propinas, é novamente preso em Agosto do ano seguinte, acusado de participar na reorganização do Partido Comunista em Beja. Na sequência de uma tentativa de fuga da prisão de Caxias, foi enviado pela segunda vez para o Tarrafal, em Junho de 1943, e libertado em Fevereiro de 1946.

Colónias portuguesas

Gravura sobre a luta dos povos das colónias portuguesas, de António Domingues

 

Em 1947 é destacado pelo seu partido para trabalho de organização em Moçambique, e parte acompanhado pela mulher, Maria Luísa Costa Dias. Aí fica durante três anos, impulsiona a organização do PCP, estabelece relações com patriotas moçambicanos, organiza reuniões com democratas e elabora panfletos sobre a independência de Moçambique.

Quando volta a Portugal, em 1950, passa à clandestinidade. Três anos depois, entra para o Comité Central ( no qual permanece até à morte). Entre as tarefas que assume contam-se as responsabilidades pelo trabalho do PCP nos distritos de Aveiro, Coimbra e Viseu e, durante algum tempo, pela redacção do « Avante!»[3].

Em Abril de 1954, é uma vez mais preso. Depois de passar por Aljube e Caxias, é transferido em Agosto para as celas da cadeia da PIDE no Porto. É daqui que se evade em Outubro do mesmo ano, juntamente com Joaquim Gomes .

Em 1958, no Porto, Pedro Soares é novamente capturado pela PIDE. Enviado para Peniche, está entre os dez dirigentes e militantes comunistas que protagonizam a heróica fuga de 3 de Janeiro de 1960. .


Pouco tempo antes do 25 de Abril, em Itália com Luísa Costa Dias, sua companheira de toda a vida

Depois da fuga, desenvolveu inúmeras tarefas partidárias: assume um papel destacado na criação e funcionamento da Rádio Portugal Livre, da qual foi o primeiro director, entre 1962 e meados do ano seguinte; participa na preparação e nos trabalhos do VI Congresso do Partido, realizado em 1965; representa o PCP na Frente Patriótica de Libertação Nacional, uma organização de unidade do movimento antifascista. O 25 de Abril dá-se quando Pedro Soares se encontrava em Itália, no desempenho de importantes tarefas partidárias.

Depois da Revolução de Abril

Com companheiros na sede do PCP, após o 25 de Abril


Regressado a Portugal pouco depois da Revolução de Abril, Pedro Soares viveu intensamente o período revolucionário do 25 de Abril: desempenhou funções na redacção do Jornal «Avante» (já legal) e colaborou com a Seara Nova; participou em comícios e sessões de esclarecimento; fez parte da mesa do VII Congresso do PCP, realizado em Outubro de 1974; integrou a delegação do PCP que entregou em tribunal o processo de legalização desse partido.

Em 1975 encabeçou a lista do PCP à Assembleia Constituinte pelo distrito de Santarém, tendo sido eleito deputado.

No dia 10 de Maio de 1975, quando regressava de uma reunião partidária em Benavente, morre num grave acidente de viação, que vitima também a sua companheira de sempre, Maria Luísa Costa Dias. No funeral, Álvaro Cunhal afirma:

feliz o Partido que ao fazer o balanço da vida dos seus militantes mortos pode dizer de um, de Pedro, que em 60 anos de vida consagrou mais de 40 à luta revolucionária, que foi preso e torturado numerosas vezes e sempre superou estoicamente a prova, que passou 12 anos nas prisões, que duas vezes se evadiu para voltar à luta, que passou longos anos de vida clandestina e que sempre esteve pronto a executar as tarefas que lhe foram confiadas e a executá-las com dedicação, com a coragem, com a alegria daqueles que na luta nada pretendem para si próprios, pois apenas querem servir o povo e o País.»

Em Janeiro de 2015, o PCP assinalou o centenário do seu nascimento.

Rádio Livre

Gravura sobre a Rádio Portugal Livre, de António Domingues

 

 

[1] Pedro Soares foi enviado para o Campo de Concentração do Tarrafal por duas vezes (1936-1940) e (1943-1946). Foi um dos 152 presos, que em 29 de Outubro de 1936 inauguraram o Campo da Morte Lenta, e que sofreram as duras condições prisionais existentes no Tarrafal, bem como a brutalidade dos carcereiros. Castigado com vinte dias de “frigideira” em finais de 1938, espancado e novamente colocado na “frigideira” em Maio de 1939, Pedro Soares teve de permanecer quarenta dias na enfermaria do campo para recuperar destes maus tratos.

O Campo de Concentração do Tarrafal, permanece como o maior símbolo da repressão fascista – pela sua localização, o modo como foi construído, pelo regime prisional estabelecido que visava a liquidação física e psicológica dos presos. No trágico balanço dos 19 anos de existência (1936-1954) registam-se: a morte de 32 presos, que tombaram de doença e por tortura; mais de dois mil anos de prisão sofrida pelos 380 presos para lá enviados, centenas de anos de prisão sofridos por presos que nem sequer chegaram a ser julgados, ou que lá permaneceram para além da pena cumprida – como foi o caso de Pedro Soares, que embarca para o Tarrafal no dia 17 de Outubro de 1936, quando no dia anterior tinha terminado a pena a que tinha sido condenado pelo Tribunal Militar Especial.

[2] A linha que no Tarrafal separava carcereiros e «médicos» era muito ténue: se o director Manuel dos Reis recebia os presos com «quem vem para o Tarrafal vem para morrer», o médico Esmeraldo Pais Prata especificava que «não estou aqui para curar, mas para passar certidões de óbito».

[3] No PCP o nome de Pedro Soares ficou também ligado ao facto de ter sido o autor do primeiro folheto do PCP (editado clandestinamente, em 1947), sobre aquela que foi a mais tenebrosa prisão política do fascismo. «Tarrafal, Campo da Morte Lenta». Relata a experiência da sua primeira passagem pelo campo, entre 1936 e 1940, foi reeditado após a Revolução de Abril e permanece como retrato da violência fascista e da tenaz e corajosa resistência que os presos sempre lhe opuseram.

Dados biográficos


 

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