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Quarta-feira, Julho 6, 2022

Poderemos ter uma nova Europa em 2022?

Arnaldo Xarim
Arnaldo Xarim
Economista

Com todas as atenções concentradas nos desenvolvimentos dos últimos anos, sejam eles as primeiras sequelas do BREXIT e a recomposição acelerada do campo anglo-saxónico, a fragilidade do governo Biden, os riscos de incumprimento da dívida (pública e privada) norte-americana, as ameaças de golpe nos Estados Unidos, a explosão da extrema-direita nas sondagens francesas, as crises (reais ou imaginadas) do Mar da China Setentrional ou da Europa de Leste e outras manifestações dos actores geopolíticos que tentam sobreviver ao século passado ou emergir no que se está a iniciar, facilmente se traçaria um futuro sombrio. Mas uma observação mais cuidada e atenta é capaz de deixar perceber algo muito mais inovador e pacificador, parcialmente originado por uma Europa muito discreta que beneficiando da pouca atenção que lhe tem sido dada poderá optar por uma via alternativa que lhe permita sair da dualidade da guerra fria (bipolar) ou do império (unipolar).

Para isso precisamos de uma UE dotada de uma visão real e adaptada aos tempos actuais, onde a França possa recuperar estatuto e importância relativamente à Alemanha e um novo lugar no conjunto europeu, onde uma Europa de Leste em plena reviravolta possa cimentar a ideia de uma defesa europeia que parece finalmente poder sair do limbo e dar corpo e substância a uma política externa em vias de se tornar realmente comum… mesmo quando subsistem divergências e inabilidades na abordagem da questão ucraniana e do “perigo” russo.

A comunidade europeia poderá não ter estado parada, como parece indiciar a escolha do alemão Olaf Scholz para o lugar de chanceler em resultado de uma coligação de tripartidária que em tempo recorde conseguiu criar um novo governo, mas precisa começar a confiar mais na sua dinâmica e nas suas capacidades para entender e preparar as mudanças em curso, especialmente agora que os últimos populistas da união parecem todos em apuros – depois do afastamento do búlgaro Boïko Borissov e do checo Andrej Babis poderá seguir-se o do polémico Viktor Orban, líder do “populismo” europeu pró-russo, nas eleições que terão no primeiro semestre do ano e onde deverá enfrentar uma oposição decidida – e quando o rescaldo do choque da Covid pode ajudar a emergir novas ideias e novas direcções à frente das sociedades.

Esta possível mudança é tanto mais importante quanto o cenário internacional permanece instável, com os americanos a insistirem numa retórica tonitruante com russos e chineses, como se pudessem envolver-se num confronto (mesmo simbólico) em duas frentes, os ingleses – cujo reposicionamento após o Brexit não deixará de ser influenciado pela circunstância do vizinho-rival francês se vir a encontrar numa posição privilegiada em 2022 com a presidência da UE e usar todo o seu peso diplomático para convencer os restantes parceiros europeus a avançar em diferentes questões – a tentarem marcar pontos e a apanharem a boleia do acordo AUKUS (que os liga aos EUA e à Austrália num pacto militar anti-China) para fazerem subir a tensão no Mar da China Setentrional, numa estratégia de contenção, como a que foi usada pelos EUA contra a URSS, com o senão de as economias chinesa e americana serem muito mais interdependentes do que as dos dois blocos da Guerra Fria e de a China ter desenvolvido outras parcerias de muito maior importância económica e financeira.

Muito do futuro próximo dependerá do primeiro semestre do ano onde a UE estará sob a presidência francesa; poderá revelar-se uma presidência muito forte de um país actualmente bem reposicionado a nível europeu e global, orientada para a reafirmação de um projecto europeu onde os principais eixos de transformação sejam: o espaço Schengen, a gestão da questão migratória, o programa de defesa europeu e o envolvimento da Europa nos Balcãs e no Norte de África, o desenvolvimento de um modelo de crescimento para esta década, a criação de um mercado único digital, a melhoria da remuneração do trabalho como factor de reequilíbrio e estabilidade social, a reforma dos critérios orçamentais decorrentes do Tratado de Maastricht e o papel da Europa num contexto de governação multilateral.

Mas só as eleições presidenciais francesas de Abril poderão responder à grande questão da continuidade de um projecto europeu de natureza humanista ou da sua subversão identitária.

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