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Quarta-feira, Janeiro 26, 2022

Publicidade a bebidas alcoólicas: chega de manipulação de conceitos

Ana Pinto-Coelho
Aconselhamento em dependências químicas e comportamentais, Investigadora Adiction Counselling

“Novo estudo confirma ligação entre a publicidade de bebidas alcoólicas e o beber na adolescência.”

Um estudo publicado na revista científica Addiction conclui que “a exposição a vários tipos diferentes de comercialização do álcool está associado tanto à quantidade como à frequência do consumo entre adolescentes na Europa.” (3 de Agosto de 2016)

Estes resultados suportam a demanda por restrições legais da quantidade de campanhas publicitárias a bebidas alcoólicas na União Europeia, onde o Audiovisual Media ServicesDirective (AVMSD) é o único regulamento da UE actualmente em vigor.

O AVMSD regula o conteúdo da comercialização do álcool nos meios de comunicação audiovisuais, mas não restringe a quantidade/qualidade de campanhas de comercialização do álcool nas televisões ou noutros suportes publicitários.

“O estudo incluiu mais de 9.000 adolescentes na Alemanha, Itália, Países Baixos e Polónia. A idade média foi de 14 anos. Os estudantes falaram sobre a frequência com que bebem, sobre o consumo excessivo de álcool, bem como a sua exposição a uma vasta gama de campanhas de comercialização do álcool, incluindo anúncios de televisão, marketing on-line, patrocínio de eventos desportivos, eventos musicais ou festivais, amostras publicitárias gratuitase exposição a ofertas de preços promocionais.”

Os dados mostraram que a exposição às campanhas publicitárias de bebidas alcoólicas de todos os tipos foi positivamente associada ao uso de álcool pelos adolescentes ao longo do tempo.

Esta interligação foi encontrada em quatro países com diferentes contextos culturais, regulamentares e de bebida.

Infelizmente, ainda não existe uma ligação causa-efeito que seja tão forte que obrigue a mudar legislação. Mas os resultados são claramente um motivo de preocupação. Pelo menos, é obrigatório admitir esta realidade.

Avalon de Bruijn,do European Centre for MonotoringAlcohol Marketing (EUCAM), diz que “a Europa é a região do Mundo que mais bebe e de forma mais pesada (heavydrinkers)”.

Diz também que o beber na juventude é particularmente problemático no nosso continente. Vale a pena ler alguns dos seus trabalhos.

Este último estudo de 3 de Agosto, que foi apresentado à imprensa, destaca a necessidade de restringir de forma drástica a quantidade de campanhas de publicidade a bebidas com álcool a que os jovens estão expostos na sua vida quotidiana.

Acrescenta também que já não se trata apenas de uma questão de restringir anúncios de televisão. Os homens das leis têm que reavaliar de forma exaustiva e contundente todo o“esquema de marketing da indústria do álcool” – porque é de um esquema que se trata, cheio de lobbies e pouca transparência e um óbvio desinteresse pela saúde pública, em especial pelos jovens.

Têm que ser desenvolvidas novas regulamentações de forma a reduzir todo o tipo de campanhas a esta droga legal, sob pena de daqui a poucos anos sermos todos confrontados pela inacreditável negligência.

Ninguém pretende ser “mais papista do que o papa”. Nem tampouco começar uma lei-sêca sem graça nenhuma onde todos são obrigados a não consumir, e as campanhas de publicidade completamente abolidas.

O que é urgente de facto é ter uma muito maior consciencialização dos efeitos reais e perversos que estas campanhas provocam. Não se pode continuar a “fugir com o rabo à seringa” para vender cervejas como se não houvesse amanhã, por exemplo, forçando permanentemente à associação com o conceito nobre da “Amizade”.

É que, se por um lado as marcas refutam esta influência negativa nos jovens e demais, não podem refutar influência. É para isso que lhes pagam e é para isso que, tecnicamente, as campanhas são produzidas e respondem ao briefing.

É indefensável qualquer tipo de ingenuidade aqui.

Já para adultos, vamos novamente à associação com amigos: desta vez são mais velhos, às vezes no formato de “eternos jovens”, sempre aventureiros, que se metem em barcos e rumam a ilhas carregados com paletes de garrafas de whiskey. Outras vezes estão no aconchego do lar, enroscados em mantas, sempre com uma áurea de quem está feliz e bem acompanhado.

Acreditem ou não, o álcool de facto acompanha. Não são os amigos. Na prática o que está subjacente é que sem esta substância (é “papista”, esta designação?), não se “quebra o gelo”. Não se está feliz, naturalmente, com outras pessoas. Não se tem amigos. Ninguém se diverte.

O pior é que com o passar do tempo e com os consumos isto PODE começar a ser verdade.

Quem se vai responsabilizar nessa altura?

Já ninguém pode afirmar que não é verdade esta causa/efeito, ou desculpar-se com a ignorância: os factos estão aí.

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