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Quarta-feira, Dezembro 8, 2021

Tática da terra queimada e o coronavírus

Carlos de Matos Gomes
Militar, investigador de história contemporânea, escritor com o pseudónimo Carlos Vale Ferraz

As medidas que os governos europeus estão a tomar para lutarem contra as opiniões públicas em pânico real ou deliberadamente induzido quanto aos perigos das hordas bárbaras armadas com o coronavírus Codiv-19 são uma adaptação da velha tática da terra queimada.

O governo português aderiu a essa modalidade de resposta a uma ameaça. Aplaudimos, mas haverá uma conta a pagar. Convém ter consciência de que a conta não será paga em banhos de sol e cervejas nas praias de Carcavelos, ou do Algarve, nem em rolos de papel higiénico, já agora!

Parece terem sido os chineses (sempre os chineses) os primeiros a utilizar a prática de queimar as colheitas para negar ao inimigo fontes de alimento. Em Portugal a prática foi utilizada durante as invasões napoleónicas, por exemplo, e as tropas de Napoleão já haviam imposto a mesma resposta aos russos na desastrosa invasão que tentaram. Os russos tiveram de repetir a destruição dos seus bens de sobrevivência na II GM, para dificultar a invasão nazi da União Soviética. Hitler tinha lido a campanha de Napoleão, com pouco proveito, aliás. Dois loucos com os mesmos truques. Mas já os gauleses de Vercingetroix  a utilizaram contra os romanos. Nada de novo. Sendo certo que a prática da terra queimada tem merecido historicamente a resistência dos povos, sendo imposta pela força.

A novidade desta repetição a propósito do Covid 19 é o apoio dos povos! No caso dos europeus a explicação deve residir na ideia da bondade e capacidade dos Estados de bem-estar do pós-II Guerra tratarem deles e lhes pagarem os bens queimados. Não estou seguro dessa bondade e capacidade, que até um troca-tintas como um Ventura, que andou a vender um programa político de desmantelamento dos serviços públicos – incluindo o de saúde e de previdência social – agora parece apoiar. Ficamos a saber que o coronavírus não ataca os aldrabões!

Alguns governos europeus decretaram medidas do tipo: Fecha-se tudo! Mesmo à custa de destruir o aparelho produtivo, para negar alimento ao Codiv-19. A sociedade, tal como os povos historicamente sujeitos às políticas de terra queimada viverão das reservas até ser possível e depois sucumbirão, não ao inimigo que causou a automutilação, mas à tática utilizada para o afugentar.

Estamos no mundo da ilusão e da demagogia. Populismo em estado puro.

O Codiv 19 merece uma política de terra queimada? Que devastações já provocou o dito nos territórios e povos por onde passou? Quem atacou? O que destruiu? Com que outras hordas de inimigos é comparável?

Há estudos já disponíveis sobre a sua mortalidade, velocidade de propagação, grupos de risco. O que sabemos sobre o Covid 19 exige que seja decretada e imposta a política de terra queimada e os sacrifícios que por ela fatalmente pagaremos?

Em termos de decisões militares, a da terra queimada é a mais desesperada. Em termos políticos parece ser a mais fácil de tomar para responder ao pânico dos populistas e demagogos.

Uma entrevista na RTP 3 ao tal deputado Ventura para quem toda a fossa é alimento, é esclarecedora: para ele o decreto da terra queimada já vem atrasado. O governo já devia ter colocado os portugueses a comer e a beber por conta do Estado há muito. Desde a primeira notícia do aparecimento do bárbaro Covid 19 na China que se estava mesmo a ver que isto ia dar no desastre em que vivemos (mas vivemos em situação de calamidade, ou de pânico?). Para quem defende o fim dos serviços públicos essenciais, saúde, educação, segurança social a afirmação é apenas mais uma prova de canalhice de um capaz (um capado) de tudo, até de ir espalhar vírus desde maternidades a lares de idosos.

Há dias os portugueses discutiam a necessidade democrática de um referendo para não ser considerado crime o auxílio a uma morte digna a quem está sujeito a um sofrimento intolerável – a descriminalizar a eutanásia e não a torna-la obrigatória –, agora aceitamos com normalidade e até aplauso uma política de terra queimada e até damos voz a um irresponsável troca tintas comentadeiro de futebol que critica o atraso das queimadas das colheitas e das reservas de um país!


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90


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