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Quinta-feira, Dezembro 9, 2021

Tomem cuidado com os aparecedores

Onélio Santiago, em Luanda
Bacharel em Ensino da Língua Portuguesa pelo Instituto Superior de Ciências da Educação de Luanda, é jornalista do semanário angolano Nova Gazeta.

mana-madoEmbora não se possa dizer que foram eles que a inventaram, os humoristas do grupo Tuneza são os principais difusores desta palavra.

Através da divertidíssima personagem Mana Madó, que adora fazer-se passar pelo que não é, o grupo nacionalizou um adjectivo que era de uso exclusivo de alguns luandenses.

Aplicável inicialmente apenas ao pessoal dos musseques, aparecedor é hoje um título disputado por gente dos mais variados estratos.

Apesar da frequência com que vão surgindo, nem sempre é fácil, no entanto, identificar os novos aparecedores. Pois, se antes o faziam avontademente, adoptando os mais básicos métodos de aparecimento, agora são mais dissimulados, usando doses bem calculadas do politicamente correcto.

Os casos mais graves da mania do aparecimento são aqueles em que o aparecedor, em vez de dar o show dele sozinho, arrasta os outros para lhe fazerem o papel de plateia.

Foi o que me tentaram fazer há uns dias.

Um amigo virtual identificou-me num ‘post’ do facebook: “Os trabalhadores do supermercado T****** estão há três meses sem salário. A direcção promete resolver o problema em breve, mas alguns trabalhadores têm levado os produtos do stock em casa como forma de compensar o tempo de espera. Acha justa esta atitude? Comente!”, lia-se na publicação.

aparecedor

Normalmente, não costumo aderir a estes debates das redes sociais porque, em muitos casos, os “contendores”, além de se acobardarem por trás de perfis falsos, recorrem à ofensa gratuita quando se lhes é apresentada uma visão diferente.

No entanto, no caso do supermercado T******, tive de abrir uma excepção, pois tenho uma tia a trabalhar lá e, olhando bem, até seria uma oportunidade de pressionar os donos da loja, caso estes também tivessem acesso àquela publicação.

Com esse argumento, e tendo cuidado para não expor a minha tia, comentei: “Mais do que questionar a atitude dos funcionários, devíamos incentivar a empresa a pagar o que deve. Com a crise que nos devora, é complicado ficar três meses sem salário. A atitude dos funcionários é apenas o desespero de um pai de família que tenta garantir um chá com pão aos filhos.”

Ao meu comentário, seguiu-se uma resposta que me limito a transcrever tal como foi escrita: “Pai de família!!! Com que então, sr. Onélio, na loja só trabalham homens, né! Esse vosso machismo retrógrado tem os dias contados.”

Esta resposta, que teve dezenas de ‘likes’, viera de uma mulher cuja foto de perfil me pareceu ser de alguém com não menos de 30 anos. Enquanto pensava numa forma de contrapor, recebi outras dezenas de notificações.

Fui verificar e dei com um novo comentário da mesma jovem. A moça virava agora as baterias do seu xinguilamento contra o facto de o “sr. Onélio , com uma leviandade ridícula, incentivar os funcionários do supermercado a pilharem os produtos da empresa.” Este último comentário – que além dos ‘likes’ amealhou um bom par de ‘amei’ e ‘uau’ – foi sucedido de mensagens privadas com ameaças do tipo “sabemos onde vives!”, “vamos te caçar a qualquer altura, seu coelho!”.

No dia seguinte, à saída da faculdade, uma carrinha com cinco matulões encapuçados estacionou mesmo à minha frente. Apontando-me uma pistola, um deles convidou-me a entrar no carro.

Levaram-me numa casa que me pareceu ser um matadouro. Depois de uma sessão de interrogatório intercalada por umas boas chapadas, os homens ataram-me os pés e penduraram o meu corpo num ferro a um metro do solo. Tinha a cabeça virada para baixo, mas consegui distinguir uma sexta pessoa a abrir caminho entre os cinco matulões.

Estava também encapuçada, mas o vestido que lhe definia as curvas demonstrou-me que se tratava de uma mulher. Pegou numa pistola e, com o objecto, percorreu o meu corpo. Quando me alcançou a zona dos testículos, manipulou a pistola. No exacto momento em que a moça ia disparar, acordei assustado na cama lá do cubico.

O autor escreve em PT Angola

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