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João de Sousa

Domingo, Outubro 17, 2021

“Um Ivanov ou Ensaio sobre a mentira”, encenação de Maria do Céu Guerra

Estreia de “Um Ivanov ou Ensaio sobre a mentira” de Anton Tchekhov, dia 14 de Janeiro às 19h30, n’A Barraca

Falamos a sério?

A 15 de Março de 2020 encerrámos as portas do Teatro Cinearte ao público e aos companheiros da Barraca, que até Maio se mantiveram confinados, suspendendo os epectáculos em cena: “A Torre de Babel”; as peças integrantes do nosso serviço educativo – “1936 – O Ano da Morte de Ricardo Reis” e “A Farsa de Inês Pereira”; os ensaios de “Ivanov” e a preparação da dramaturgia de “O Elogio da Loucura”.

Durante o período da quarentena, naquela solidão aterradora, fui tendo sentimentos misturados sobre a minha querida obra de Tchekhov de que a razão parecia levar-me a desistir. Rearrumei a minha biblioteca e fui pensando. Reencontrei obras sobre as pestes, reli Camus, Artaud, Jack London, Poe.

A situação tendia para substituir o que tínhamos em mãos e pensar tudo outra vez. Mas uma reflexão mais calma levou-me às razões pelas quais eu queria tanto fazer esta peça.

Afinal a pandemia só era tão assustadora porque o estado do mundo já era assustador: a pobreza, o abandono dos fracos, o aquecimento global, a saúde, o ensino, a cultura a esbracejarem de incompreensão, nos países ricos e pobres, e o mundo a calar-se ou a mentir. Milhões de pessoas a morrerem de fome e outros milhares de milhões a serem gastos por muito poucos a inventar uma rota de fuga para um novo planeta sem riscos… Mentiras. Factos alternativos. Mentiras.

Então voltei aos temas da minha peça: a revelação da mentira e da calúnia assassina como crime e a condenação do mundo que exige uma impossível coragem aos pobres, aos doentes, aos velhos, aos deprimidos. A mentira que mata e a obrigação de resistência a quem não tem onde ir buscá-la.

E reavaliei aquela opinião que gritava de dentro das televisões “é preciso fazer tudo a partir da nova situação da pandemia” e repensei “é preciso fazer tudo a partir da valorização do ser humano”. É isso, o mundo tem de ser revisto pelos olhos agudos de Tchekhov, é preciso verdade, tolerância, generosidade e justiça.

E uma espada desembaínhada contra a mentira e a demagogia.

 


Um Ivanov ou Ensaio Sobre a Mentira

Em cena de 14 de Janeiro a 28 de Fevereiro de 2021

Horário: 5ª a Sábado às 19h30 / Domingo às 17h

 


 

Carta a Souvorine sobre Ivanov

Tudo o que Tchekhov quis dizer sobre o Teatro, dezembro 1888

Eu tinha a impressão que todos os escritores, todos os dramaturgos tinham sentido a necessidade de criar um ser melancólico e que o tinham escrito todos eles instintivamente ou seja sem ponto de vista. Com o meu projecto Ivanov eu atirei a esse alvo. Ivanov é um nobre, um universitário que não tem nada de notável. É uma natureza emotiva, ardente, que facilmente se deixa levar pelas suas paixões, honesto e direito como quase todos os nobres com cultura. Viveu na sua propriedade e teve lugar na assembleia territorial. Foi um homem activo assim que acabou os estudos dedicou-se com energia às escolas, aos camponeses, à exploração racional do território, faz discursos, escreve ao ministro, combate o mal, aplaude o bem, ama, não de forma fácil ,mas sempre, os trabalhadores, os doentes mentais, os judeus, ou até as prostitutas que chega a proteger. Carrega às costas fardos para os quais não tinha força. Aos trinta e cinco anos está cansado e farto. Diz de si:” se me olharem só pelo lado de fora, a leitura é terrível, nem eu mesmo percebo o que se passa comigo. “Quando alguém dá por si nessa situação e é desonesto ou estreito de vista normalmente faz recair a culpa sobre o meio ou passa a considerar-se “um dos que estão a mais” um Hamlet, e chega a contentar-se com isso. Ivanov fala de uma falta que terá cometido, e o sentimento de culpa vai crescendo dentro dele a cada novo choque com a sociedade: “Dia e noite a minha consciência tortura-me, sinto-me profundamente culpado, mas não compreendo nunca qual é na verdade a minha culpa…”Ao esgotamento, ao tédio e ao sentimento de culpa junta-se um inimigo. A solidão. Ninguém tem nada a ver com a mudança que ele sente operar-se em sim mesmo. Está só. Invernos longos, noites longas, um jardim deserto, divisões desertas, um conde rabugento, uma mulher doente…Nenhum lugar aonde ir . Todas os minutos a mesma questão o tortura : que fazer de si e consigo? As pessoas como Ivanov deixam de resolver os problemas, afundam-se no seu peso. A decepção, a apatia, a fragilidade nervosa e o cansaço são a consequência inevitável de uma grande exaltação e essa exaltação é própria da juventude.

Passemos ao doutor Lvov. É o tipo acabado do homem honesto, direito, ardente, de espirito tacanho. Ele olha cada acontecimento, cada pessoa, através do seu quadro estreito e julga tudo de forma preconceituosa. Na minha imaginação Ivanov e Lvov apresentam-se como pessoas vivas. Digo-o de alma e consciência tranquila, sinceramente estes homens não nasceram na minha imaginação vindos da espuma do mar, de ideias preconcebidas, de “intelectualismos” ou do acaso. Eles são o resultado da observação e do estudo da vida.

Se o publico sair do Teatro com a convicção que os Ivanovs são uns malandros e os doutores Lvovs são grandes pessoas, só me resta retirar-me e enviar ao diabo a minha pena.

Arche Editeur, 2007
Trad. Maria do Céu Guerra

 

Ficha Técnica

  • Título: Um Ivanov ou Ensaio Sobre a Mentira
  • Duração: 2h
  • M/12
  • Dramaturgia e encenação: Maria do Céu Guerra
  • Tradução: Sinde Filipe
  • Música original: António Victorino de Almeida
  • Elenco: Adérito Lopes, João Maria Pinto, João Teixeira, Maria do Céu Guerra, Rita Soares, Ruben Garcia, Samuel Moura, Sérgio Moras, Susana Alves Costa e Teresa Mello Sampayo
  • Assistentes: Vasco Lello e João Teixeira
  • Direcção técnica e desenho de luz: Vasco Letria
  • Equipa técnica de operação: Ruy Santos e Ruben Esteves
  • Modista: Alda Cabrita
  • Costureira: Zélia Santos
  • Cartaz: Luís Henriques – O Homem do Saco
  • Fotografia: Maria Abranches

 


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