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Domingo, Outubro 17, 2021

Vivemos um tempo de guerra sem limites… E pouco nos damos conta disso

José Mateus
Analista e conferencista de Geo-estratégia e Inteligência Económica

Tanto a China como a Rússia entenderam, ainda no final do século XX, a sua incapacidade para, qualquer das duas, sair-se bem num choque frontal com os USA. Entender isso não significou, porém, para os estrategas russos e chineses, qualquer tipo de resignação ou de aceitação passiva dessa realidade.

A publicação no Ocidente, pela CIA, do novo manual militar chinês, com o título de “Guerra Irrestrita” (“Guerra Sem Limites” teria traduzido melhor o título chinês…), veio alertar para essa atitude dos estrategas chineses. Num outro registo, a actuação e as narrativas emitidas por Putin tinham o mesmo significado.

Obra ainda do século XX, o “Guerra Irrestrita” defende já um modelo de operações de que o “11 de Setembro” é “tirado a papel químico” (como ainda se dizia na altura) ou o ataque químico no metro de Tóquio ou…

Numa das suas mais recentes (e raras) entrevistas, o autor de “Guerra Irrestrita”, o general Qiao Liang, continua alertar para o erro que seria qualquer iniciativa chinesa que levasse ao choque frontal com os USA… Para perceber o subtexto deste pensamento chinês é preciso conhecer bem Sun Tsu mas, sobretudo, os “36 Estratagemas” (creio que não há tradução portuguesa… muito lamentavelmente!) e, acima de tudo, o “Da Guerra Prolongada” e outros “Escritos Militares” do fundador do comunismo chinês, Mao Tsé Tung.

O pensamento estratégico de Mao está muito bem estudado por um aluno de Raymond Aron, André Glucksmann, na sua tese doutoramento, depois adaptada a edição com o título “Le Discours de la Guerre” e serve muito bem como uma introdução ao estudo do pensamento estratégico de Mao, embora estudos posteriores, como os do ex-dirigente maoísta Christian Harbulot ou os do sinólogo François Julien, sejam também de consulta obrigatória (ver aqui: Stratégie indirecte et matrice culturelle chinoise).

A disputa pela hegemonia mundial está, pois, relançada. Mas não (ainda…) na conhecida forma de “bloco contra bloco”, num conflito frontal, que caracterizou a chamada Guerra Fria entre a URSS e os USA. O tempo agora é “ataques laterais”, de guerras “híbridas”, “económicas” e outros conflitos de desgaste da hiper-potência americana.

Um tempo em que, para arruinar a potência dos USA, tudo vale, tudo mesmo, menos o choque frontal. Leia-se a “Guerra Irrestrita” para limpar qualquer dúvida… e, depois (ou antes…) o estudo de Harbulot sobre o conceito chinês de estratégia (réplica ao “Traité de l’Efficacité” de François Julien). E todo o Mao, é claro.


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