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Quinta-feira, Fevereiro 29, 2024

A bicharada da aldeia

Beatriz Lamas Oliveira
Beatriz Lamas Oliveira
Médica Especialista em Saúde Publica e Medicina Tropical. Editora na "Escrivaninha". Autora e ilustradora.

O Filipe anda no 6º ano. Bom aluno, interessa-se pela vida da bicharada da aldeia. Muitos dos assuntos que está a aprender nas Ciências Naturais, já ele os conhece.

A diferença é que agora, juntando o que está a aprender na escola, com a experiência que tem e a que lhe foi transmitida pela família, os conhecimentos ganham outro relevo e, sobretudo, ganham ligações entre eles em que não havia reparado antes.

Ilustração: Filipe a ler junto ao sofá, de Beatriz Lamas Oliveira

Por exemplo, os animais da capoeira da avó, galinhas e perus, e o casal de gansos que se passeia toda ufano pela cerca relvada, põem ovos que se podem ou comer ou colocar numa cesta a chocar, e de lá de dentro saem filhotes. Animais muito diferentes podem ser da mesma família. Por exemplo, as aves do jardim e dos bosques põem ovos nos ninhos e têm bico como os galos e galinhas. Isto causa-lhe alguma confusão porque nos livros de histórias que já leu, e dos quais gostou, aparecem animais que não sendo da mesma família, dão-se bem. O Filipe anda a pensar se os animais comunicam entre eles e se podem ajudar-se uns aos outros em casos de perigo. Conhece alguns exemplos. A avó contou-lhe a história da cadelinha Tita que teve cachorrinhos e ainda alimentou um gatinho perdido que o avô encontrou abandonado à porta de casa.

Também nos incêndios do verão, os Bombeiros da vila encontraram um bacorinho, muito assustado, que se tinha refugiado na casota de um cão. Com medo do fogo, o dono precavido,levara o cão consigo. O bacorinho  aproveitou o alojamento e um cabritinho foi-se-lhe juntar. Fotos do leitão e do cabritinho fizeram sucesso no jornal da vila.

O Filipe costuma brincar com duas amigas: as irmãs Maria e Sara. Decide perguntar-lhes o que pensam sobre a linguagem que une os diferentes animais e como descobrir mais sobre isso.

A Maria tem uma ideia:

_E se fossemos ao galinheiro da tua avó?  Eu levava a minha flauta, toco uma música e vemos se os animais param para ouvir. Assim, pelo menos, ficamos a perceber se eles têm ouvido para a música.

_ É verdade que a nosso cão, o Pulgas, quando a Maria toca a flauta, não sai de ao pé dela. Ele gosta das melodias_juntou a Sara à conversa.

_ Podíamos ir ao galinheiro e depois ao estábulo do senhor Belchior. Fazíamos concerto em ambos os lugares!_ acrescentou o Filipe, encantado, a imaginar os rabos das vacas a abanarem!

_Mas as vacas não têm bico, nem põem ovos. Até têm quatro patas _ admirou-se a Maria, a mais nova dos três, ainda só com sete anos.

_ Tal e qual como a cadelinha Tita, o Pulgas ,o bacorinho e aquele cabrito salvos nos incêndios! Todos têm quatro patas e não têm bico, nem põem ovos. Famílias diferentes!

-Mas tu pensas que todos os animais da capoeira têm orelhas e ouvidos?_ pergunta surpreendida a Sara que nunca tinha pensado no assunto.

_ Isso têm, o meu Professor Tiago até nos explicou que os ouvidos das galinhas ficam mesmo abaixo dos olhos. Vimos fotografias na aula!

_ Combinamos para amanhã! Não temos aulas de tarde, a Maria traz a flauta e  levamos a máquina fotográfica que a mãe da Sara lhe deu no natal! Vamos ao galinheiro e depois ao estábulo das vacas.

Ilustração: Animais da capoeira, de Beatriz Lamas Oliveira

E o dia seguinte chega com sol. Lá vão os três amigos, com as mochilas às costas, em direção à casa da avó. Os estábulos do senhor Belchior ficam perto, ali um pouco mais adiante.

O Filipe decide abrir a máquina fotográfica, pronto para o que der e vier. A Maria tira a flauta do saco e já vai com ela na mão. A Sara olha tudo em volta com a maior atenção, pois foi nomeada batedora do grupo, ou seja, ela é o elemento que procura os acontecimentos inesperados.

Ilustração: O Pançudo, de Beatriz Lamas Oliveira

A aproximarem-se do muro do quintal da avó, de onde, mesmo do lado de fora, já é possível ver a cerca do galinheiro, a Sara estende o braço e impede os outros dois amigos de avançarem. Leva um dedo aos lábios, a fazer sinal de silêncio. Estacam os três. Sara aponta e três pares de olhos infantis fitam, encantados, duas doninhas que parecem conversar, ambas com os bigodes a tremelicar. O Filipe aponta a máquina e dispara a foto. Mas o estalido assusta as doninhas que fogem a quatro patas. Felizes, os três amigos, conversam e concluem que as doninhas gostam das galinhas,e têm a capacidade de ouvir estalidos. Agora já podem ir experimentar tocar flauta para  vacas e galináceos, pois toda a bicharada tem ouvidos.

A curiosidade é mãe do conhecimento!

Ilustração: A faia, a Flor e o Freixo, de Beatriz Lamas Oliveira


Por opção do autor, este artigo respeita o AO90



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