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Segunda-feira, Setembro 20, 2021

A importância de ser imprudente

Beatriz Aquino
Formada em Publicidade e Propaganda. É escritora e atriz de teatro. Nascida no Brasil a viver em Portugal.

Marina é uma mulher assim. Assim como muitas. Como todas as outras. Comunga aos domingos e se confessa toda quinzena. “Que é pra não acumular opiniões.” Ela diz.

Marina sabe bordar ponto cruz e orgulha-se de ter doado a saúde das retinas ao arremate do Manto da Virgem que cobre o altar da igreja.

“Pura, pura, purinha… Um anjo!” Exclama ao olhar a imagem da santa.

Marina nunca falou um palavrão na vida e tampouco se agastou com ninguém. Treinara a voz de fada, aquela de atrair bom marido, desde menina. Sabia calar em qualquer situação e achava que a resiliência caia bem ao seu semblante comedido e às suas vestes em tons pastéis.

Marina cuidava da casa com esmero de gueixa, aceitava como um cordeiro o egoísmo dos filhos e à noite, acolhia a brutalidade do marido sem um gemidozinho sequer.

Todas as quartas-feiras, se não fosse dia santo, era a mesma coisa: Quincas resmungava um boa noite e apagava a chama da velha lamparina. Em seguida, rolava pra cima dela, arfava como um rinoceronte e depois de satisfeito, virava-se e dormia. E Marina ficava ali olhando pro teto. O rosário da Virgem entre os dedos, a camisola engomada cobrindo os calcanhares. Tão estupefata quanto na noite de núpcias.

Na comunidade, Marina era  colaboradora exemplar. Costurava, bordava, vendia todas as prendas que fazia na quermesse e doava tudo para a igreja.

“Dinheiro não pode demorar muito na mão que é pra não atrair tentação.” Ela pensava.

Para ela, vida boa, boa mesmo, boa e direita, só com simplicidade sacrificial e de preferência com muito jejum. Porque a tez pálida também combinava com o seu guarda-roupa que era todinho de brim e algodão engomado. Engomadíssimo. Tudo nela era limpinho, sem máculas e com vincos precisos.

Marina era boa filha, boa irmã, boa tia e boa neta. Era boa como se deve ser. A vida ia bem. E entre rosários e concessões, a existência dela seguia sob controle.

Um dia, Marina decidiu ir à igreja no meio da tarde. Um dia quente daqueles só o santuário pra aplacar os pensamentos. No caminho, notou que um homem a observava.  Ele tinha um rosto grave. O maxilar imponente era coberto por uma espessa barba. Os olhos eram indecifráveis. Tinha um olhar profundo daqueles que parecem ler até os mais íntimos pensamentos. Marina ficou perturbada. Jamais prestara atenção a homem nenhum que não fosse seu pai ou seu marido.

“E ser olhada assim como… Como… Como uma mulher não está certo. Não está. Não mesmo.” Ela disse baixinho enquanto corria pra dentro da igreja vazia.

O homem a seguiu. Ela sentou em um banco. O homem sentou em outro. E  continou a olha-la daquele modo intenso.

Aflita, Marina buscou no altar por algum socorro. Algum santo haveria de descer dali e dizer aquele senhor que ela não era esse tipo de mulher. Que na verdade ela não era nenhum tipo de mulher. Ela era apenas aquilo que haviam dito que ela deveria ser.

O homem continuava a observa-la e seu olhar, apesar de não ter malícia, parecia desnuda-la inteira. Com ele de nada adiantava a grossa camada de goma no brim da saia, as meias de lã até os joelhos e a gola austera da camisa. Ele via tudo nela. Tudo.

Marina foi ficando cada vez mais nervosa. A respiração ofegante, a cabeça em vertigem. De repente, sentiu como se uma mão imensa a tocasse por toda parte e seu corpo começou a se contorcer freneticamente. Os frescos do teto começaram a girar, as luzes bruxeleantes das velas pareciam dobrar de tamanho, os santos saltaram do altar e riam, gargavalhavam vigorosamente sobre ela. Estaria sendo atacada? Ela nao sabia dizer. Só sabia que seu corpo não lhe obedecia. E foi então que Marina sentiu um frêmito. No começo foi uma coisa mínima. Uma pontada doce que pinçou-lhe o início das entranhas e foi parar no baixo ventre. Depois aquilo foi crescendo e parecia que tudo explodia dentro de Marina. Ela agarrou-se ao banco rígido e extenso. As pernas desconjutadas e sem comando moviam-se com uma força e rapidez que ela nunca achou ser capaz de possuir. Sua cabeça girava, a cúpula girava, os frescos giravam. Tudo girava. Tudo era assustadoramente delicioso.

“Morro entre os santos! Sou boa!” Ela gritou em um pedido de perdão antes de explodir em si mesma. Um grito rouco ecoou na nave. Grito que vinha da sua garganta, mas que ela não reconheceu.

Segundos depois, tudo ficou em silêncio. Ela abriu os olhos e olhou para o lado. O homem não estava mais lá. E ela desconfiou que na verdade ele nunca estivera.

Ela observou o seu corpo. As meias grossas e protetoras não resistiram. A saia amarrotada, parecia ter sido sacudida por um vendaval. Marina viu-se pela primeira vez na vida em desalinho. “Não!” Gritou-lhe uma voz ancestral tão poderosa quanto a explosão de segundos atrás.

E Marina rapidamente arrumou-se no banco. A coluna hermeticamente ereta. As vértebras e os pensamentos retornando ao caminho devido. A mente voltando ao mesmo trajeto imposto desde a infância.

Ela saiu na rua sentindo-se atordoada. Tudo tinha cor. Tudo era assustadoramente real. “Não!” Gritou novamente a voz severa que era uma mistura de consoantes do pai e vogais da mãe.

Marina entrou em casa em silêncio. Ninguém estranhou. Serviu o jantar dos filhos com o mesmo olhar resignado de sempre e deitou-se mais cedo.

À noite, o Quincas rolou pra cima dela novamente. E nem era quarta feira. “Teria que rezar o dobro do terço.” Contabilizou enquanto prendia a respiração.

Quincas terminou e virou pro lado. Os olhos de Marina vidrados no teto. A camisola engomada cobrindo os calcanhares.

“Sou boa e feliz.”  Ela repetiu baixinho mil vezes e dormiu…

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