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Sábado, Dezembro 4, 2021

A métrica certa para viagens em papel rasurado

Vítor Burity da Silva, Angola
Ph.D em Filosofia das Ciências Políticas. Pós Doutorando em (Educação e Psicologia). Doutor Honorário em Literatura e Filosofia. Professor Honorário de Filosofia da Educação. Professor Universitário. Investigador. Membro da Sociedade Portuguesa de Filosofia. Membro da Associação Portuguesa de Escritores. Escritor.

Um dia, sentado naquele banco de jardim onde só eu me via, era diferente dos outros.

Sentia, ainda que disfarçadamente, a cor branda de relvas que se acumulavam na pá estreita do tratador que podava sem me olhar sequer, o verde aguçado daquele silêncio que se discorria por entre as varandas das ideias acumuladas no alcatrão incolor do calor bravo dos sonhos. Para dentro tudo era possível, ao longe, uma senhora manca olha-me com um olhar de sonho como se sentem os esquimós nas falanges pares do ocidente e nada mais, sacode a sacola e segue num vagar mais raro ainda e vai pelo interior do tempo como a relva amachucada na pá do tratador sem ar de zangado e no banco onde me encontro sentado formigas soletram melodias de Van Gog naquelas telas que existiam em tempos na casa dos meus avós lá pelos lados dos prédios acastanhados nem me recordo há que tempos, apenas um piano sugado por pinceladas de Mozart me trazem assim, tão repentinamente, ao teu lugar de estanho. Lembro-me do meu chapéu, o chapéu que às vezes usava para me encostar às árvores e sentir a folhagem divertir-se nele espalhando-se pela tarde deitada. Tão simplesmente comentar nada como ver sem sorrir, não sai dos dedos o jeito para pensar ou mesmo inventar instantes para que se possa mergulhar águas voadoras nos sonhos de cada pastor empostado nas montras do campo, sentir como eu este banco velho como os açudes da história, escritos esses que ninguém lê por cansarem as suas repetições com os mesmos sons, a falta de água nas suas esquinas quando se secam os lábios por nada dizer a não nascer como se nasce na lua, pela madrugada das estepes ou que em distâncias se ouvir o grito, o primeiro, de quem desconhece para que mundo veio. Tal como aquela senhora que manca há outros que, mesmo sem mancarem, caminham aos solavancos sobre pernas inventadas para evitar mais cansaços, uma preguiça de súbitas lâminas na folha branca em que tento descrever-me copiando a tua sede, resmungar os teus gemi-dos e sentado, continuar na mesma, vendo e olhando e até que consiga aperceber-me porque corta a relva aquele fulano mal vestido. Se pudesse dizer como me incomoda o barulho da pá raspar-se sobre pedras ali alojadas que faria? Queria apenas uma resposta que fosse, algo que me despertasse ou me fizesse perceber como os raios sobrevoam as almas ambulantes nas tardes mal dormidas, um vontade de descanso é premente mesmo que a gente minta, e naquela rua apenas os dois depois da passagem da senhora manca que a única que fez foi olhar-me pura e simplesmente deixando-me tal como estava, sentado para nada. E foi-se embora. Como seria se sentasse também a cabeça? Ah não, e onde colocaria o chapéu que tanto precisam as árvores para que as suas folhas possam pousar num ar brando de ventos suculentos e molhados como o suor de viagens guardadas na mala que nunca abandonei. E nela, a métrica certa para viagens em papel rasurado.


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